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Confiança do consumidor e popularidade do presidente: o reverso de 2009

06/2017 por
  • Aloisio Campelo Junior
  • Viviane Seda Bittencourt

Os índices de confiança dos consumidores são variáveis econômicas cuja evolução depende majoritariamente de fatores econômicos mas também de fatores extra econômicos e da forma como os consumidores absorvem estas informações a cada momento. 

Entre os fatores de natureza econômica, inflação, emprego, renda e taxas de juros reais são fartamente reportados na literatura como uma influência importante em diversos países (Shapiro e Conforto, 1980, Berg e Bergström, 1996). Choques motivados por conflitos armados, eventos climáticos, crises políticas ou aumento exacerbado da incerteza, por sua vez,  podem afetar a formação de expectativas e, desta forma, impactar negativamente o PIB, pela via do consumo.

A diferença entre uma resposta hipoteticamente “racional”, feita com base nos fundamentos da economia, e as respostas efetivamente dadas aos questionários das sondagens de tendência seria relacionada às ondas de otimismo ou pessimismo resultantes de impulsos emocionais naturais ao comportamento humano, algo que Keynes (1936) costumava chamar de animal spirits.

A observação da relação histórica entre o grau de popularidade do presidente corrente[1] e os indicadores de confiança ilustra bem como fatores de natureza subjetiva, não relacionados diretamente ao questionário da pesquisa, podem influenciar as avaliações dos entrevistados. Com a economia em bom estado, os governantes tendem a ser melhor avaliados e o consumidor tende a acreditar que as coisas continuarão indo bem (e vice-versa).

Esses indicadores costumam caminhar juntos boa parte do tempo, mas a história recente do Brasil mostra dois períodos de forte descolamento. Primeiro, na recessão de 2008-2009, a confiança do consumidor despencou, mas a popularidade do então presidente Lula sofreu apenas uma marolinha. O descolamento entre a confiança do consumidor e a popularidade atingiu novo recorde histórico em  2017. Apesar de os índices de confiança terem avançado um pouco este ano – reflexo da gradual aceleração da economia –, a popularidade do presidente incumbente, Michel Temer, registra mínimos históricos.

Confiança e Popularidade[2]

(séries normalizadas, com ajuste sazonal)

          Fonte: CNI/IBOPE e FGV/IBRE Elaboração: FGV/IBRE

 

Qual seria a motivação para tais descolamentos ? O gráfico abaixo mostra a forte relação entre o grau de aprovação do governo pela população e a credibilidade da política econômica na visão de especialistas[1]. A comparação entre essas duas variáveis mostra que, mesmo durante a crise econômica de 2008, os especialistas acreditavam na política econômica do governo Lula. Assumindo que essa avaliação favorável era compartilhada com boa parte da população, isso teria contribuído para que a popularidade do presidente não fosse abalada.  A percepção de que o país estava em condições de enfrentar bem a grave crise internacional, por sua vez, colaborou para que a confiança do consumidor se recuperasse rapidamente, ajudando a impulsionar o consumo de duráveis, um dos principais “drives” da saída da recessão em 2009-2010.

O estoque de confiança do consumidor naquela ocasião era tão grande que três anos depois, em 2012, o Índice de Confiança do Consumidor da FGV registrou o seu máximo histórico (abril), quando a economia já dava sinais de enfraquecimento.

Aprovação do Governo e Confiança na Política Econômica

(escala de 0 a 100 para indicador qualitativo de confiança de especialistas e proporção da população que considera o governo atual como ótimo ou bom)

                                                                                                          Fonte: CNI/IBOPE e FGV/IBRE Elaboração: FGV/IBRE

O momento atual é praticamente oposto ao descrito acima. A alta da confiança entre 2016 e maio de 2017 parece compatível com uma economia que passou de taxas interanuais de crescimento trimestral próximas a -6%, no final de 2015, a -0,4% no primeiro trimestre deste ano. Essa evolução da confiança, que muitos curiosamente classificam de “despiora”, pode ser considerada hoje como realista, dados os fundamentos da economia. (ao contrário do ano passado, quando as expectativas foram embaladas por momentânea “irracionalidade” do homo sapiens brasileiro, durante a passageira “lua de mel” com o Governo Temer.)

O problema que temos hoje não é trivial. A crise política deve manter o nível de incerteza elevado, lançando dúvidas sobre o ritmo possível de recuperação econômica. Nesse cenário, é de se esperar que a confiança suba de forma consistente e passe a colaborar como um fator indutor de crescimento econômico? Pouco provável. Ao contrário do período entre 2009 e 2012, é possível que, entre este junho de 2017 e as eleições de 2018, o componente animal spirits do consumidor atue como um fator redutor de crescimento. Alta incerteza e forte desconfiança com o poder incumbente podem dificultar uma recuperação mais consistente da confiança, à medida em que os agentes se tornem mais cautelosos.

É preciso agora esperar o efeito da ressaca que essa onda pode provocar....

 

Bibliografia

Berg L., Bergström R. Consumer confidence and consumption in sweden, department of Economics and Department of Statistics, Box 513, S-751 20 Uppsala , Sweden. E-mail: lennart.berg@nek.uu.se and reinhold.bergstrom@statistik.uu.se. (1996).

Keynes John M. The General Theory of Employment, Interest and Money, London: Macmillan, 1936, pp. 161-162.

Shapiro R. Y., Conforto B. M. Presidential performance the economy, and the public's evaluation of economic conditions, The Journal of Politics 42 (1) (1980) 49_67. URL http://www.jstor.org/stable/2130013


[1] Dados da Sondagem da América Latina, produzida pela FGV em parceria com o IFO. Dados mensais gerados por interpolação linear.  


[1] Soma das proporções dos que avaliam o Governo como bom ou ótimo

[2] Dados sobre popularidade de pesquisa trimestral produzida pela CNI/IBOPE. Dados mensais gerados por interpolação linear. 

 

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