Artigo

Cruzando o rio, sentindo as pedras sob os pés

06/12/2017

Quando do início da abertura chinesa para o mundo no final dos anos 70, Deng Xiaoping cunhou uma expressão que resume, de forma precisa, o jeito chinês de promover mudanças: “É preciso cruzar o rio sentido as pedras sob os pés”. Ou seja, toda mudança não é necessariamente linear, mas sim baseada em tentativa e erro (inclusive com eventuais retrocessos), e deve ser feita de forma lenta, ponderada e, na medida do possível, segura.

Ocidentais tendem a ser mais impulsivos e a querer os problemas resolvidos de forma rápida, direta e objetiva. Dessa forma, não é raro que analistas ocidentais olhem para esse “processo” reformista chinês e tenham leituras negativas: tentativa e erro é vista como falta de um plano de ação definido, avanços e retrocesso são lidos como falta de convicção, e, segundo esta visão, a lentidão das reformas levará o país, cedo ou tarde, ao fracasso. Esse “olhar ocidental das coisas” é, possivelmente, o maior erro analítico que se pode cometer quando se tenta entender a China. Eles trabalham de outro jeito.

Vamos dar dois passos para trás e ver o que tem ocorrido: a atual administração chinesa, sob a liderança do Presidente Xi Jinping, é a mais reformista desde Deng Xiaoping, com inúmeras iniciativas nos últimos anos que buscaram as chamadas “Duas Metas Centenárias”: (i) tornar o país moderadamente desenvolvido até 2021 (o centenário de criação do Partido Comunista Chinês); e (ii) transformar a China em uma sociedade socialista forte, democrática, civilizada, harmônica e moderna até 2049 (o centenário da fundação da República Popular da China).

Avanços notáveis ocorreram na transição do modelo econômico, no reforço das práticas legais, no combate à corrupção e em maior preocupação social (como inclusão e meio ambiente). Obviamente, nem tudo são flores: se por um lado a China já é hoje uma economia de serviços (reforçando a transição), com mercados mais sofisticados e mais integrada financeiramente ao mundo, por outro lado ainda faltam óbvios passos no estabelecimento de um Estado de Direito, no refinamento de instrumentos regulatórios, na promoção de uma inclusão social de facto e na liberalização dos fluxos financeiros, sejam domésticos (ainda há forte repressão financeira), sejam externos (os controles à saída de capital continuam sendo muito relevantes).

Dito isso tudo isso, é compreensível que alguns passos dados desde 2015 tenham parecido involuções aos olhos dos analistas. A sintonia fina do crescimento no curto prazo levou a mais rodadas de estímulo à Velha China (investimentos, indústria pesada, exportações líquidas), ampliou alguns desequilíbrios estruturais (endividamento, crédito alocado de forma ineficiente) e atrasou o processo de abertura da economia (por exemplo, na questão do mercado de capitais).

O erro está em confundir passos para trás como um abandono da agenda de reformas, ainda mais sem colocar na conta a complexidade do período desde 2015. Não foi momento de balançar o barco, por uma miríade de razões: a emergência de questões geopolíticas regionais (como a tensão na península coreana), o início do ajuste da liquidez global, a transição política doméstica (com a escolha dos novos dirigentes do país, ainda que mantendo Xi Jiping), o viés protecionista e isolacionista da administração Trump, e a tentativa de ampliar a influência chinesa em escala global, seja em termos financeiros (a internacionalização do renmimbi), seja em termos geopolíticos (o impulso à iniciativa One-Belt-One-Road).

Da mesma forma, parece-me um erro acreditar que, após consolidada a transição política doméstica, haverá um forte impulso reformista de forma a “compensar o tempo perdido”. Não só a maior parte dos temas que inspiraram certa cautela continuam bastante presentes, como, em termos práticos, o senso de urgência dos governantes chineses parece ser (bem) menor do que a nossa visão ocidental indica.

Um país com elevada taxa de poupança, juros reais em torno de zero e expansão do PIB nominal próxima de dois dígitos ainda pode carregar desequilíbrios por um bom tempo, e tentar desarmá-los de forma lenta e segura. Os problemas são relevantes e importantes, mas não tão prementes quanto alguns sugerem.

A ataque aos problemas estruturais deve ser feito com uma agenda estrutural, cuja implementação fatalmente envolverá múltiplas administrações, será cheia de “empirismo” e só deverá apresentar resultados inequívocos ao longo dos (muitos) anos. A máxima de Deng Xiaoping nunca foi tão atual: a travessia mal começou.

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