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Fim da era de farta liquidez global?

11/07/2017

Numa época em que os juros internacionais se tornaram tão baixos e o mercado acionário se mostra aquecido, particularmente nos Estados Unidos, é natural que muitos se preocupem com eventual correção abrupta do rumo das políticas monetárias nas economias centrais. Preocupação perfeitamente compreensível. Afinal, mudanças fortes e repentinas no terreno monetário costumam realmente provocar significativas perdas financeiras, em especial quando os preços de ativos se encontram elevados.

Nos últimos dias, manifestações públicas de alguns dos principais dirigentes de bancos centrais de países desenvolvidos foram largamente interpretadas como sinalizadoras de que as autoridades monetárias do Reino Unido, do Canadá e da zona do euro estariam prestes a dar passos importantes no sentido da normalização das respectivas políticas monetárias. O fato de que isso ocorreu numa época em que o Fed já iniciou essa normalização e vem discutindo como dar continuidade ao processo, a ponto de já ter fornecido detalhes relevantes acerca da intenção de reduzir o seu balanço, foi o bastante para muitos imaginarem tratar-se de uma ação orquestrada dos principais bancos centrais do planeta, da qual resultaria expressiva contração da liquidez global. Na esteira das mencionadas manifestações os juros dos títulos governamentais de dez anos, por exemplo, sofreram significativa elevação.

Como se sabe, os balanços de algumas autoridades monetárias cresceram bastante em decorrência de políticas deliberadas de aquisição de ativos financeiros em mercado. Implementadas após o esgotamento da capacidade de fornecer estímulo por meio convencional (via redução de juros), tais políticas levaram os ativos dos bancos centrais a representarem elevadas proporções dos PIBs de cada país (89% no Japão, 34% na zona do euro, 26% nos EUA e 22% no RU). A expansão dos passivos das autoridades monetárias (contrapartida da aquisição de ativos) ampliou fortemente a liquidez internacional. Nos EUA, por exemplo, entre o final de 2008 e meados do corrente ano, as reservas bancárias passaram de US$ 850 bilhões para US$ 2,2 trilhões, enquanto o estoque de papel moeda subiu de US$ 890 bilhões para US$ 1,5 trilhão.

Muito possivelmente, no decorrer dos próximos anos o processo será realmente revertido, pelo menos em parte. A nosso ver, porém, isso ocorrerá em ritmo lento, com diferenças importantes de país para país, não havendo motivo para maiores preocupações. Por certo, eventuais erros de avaliação e de condução de política sempre poderão provocar estragos relevantes, contradizendo o que é possível esperar de análises mais objetivas.

Na defesa dessa linha de argumentação, contamos com o bom senso dos banqueiros centrais e com a permanência de certos fenômenos, em curso há vários anos, e que têm contribuído para a fraqueza de demanda no mundo desenvolvido. Referimo-nos às forças que têm inibido a demanda por investimentos e ampliado a oferta de poupança, contribuindo para reduzir os juros reais estruturais (definidos como os que equilibram poupança e investimento em pleno emprego) nas economias centrais. São forças como crescimento populacional mais lento, menor intensidade no uso de capital nos empreendimentos modernos, aumento expressivo da desigualdade de renda e de riqueza, etc.

Pelo menos em parte, os fatores aqui citados explicam o baixo ritmo da inflação no mundo desenvolvido. E são fatores reais, não influenciados pela ação dos bancos centrais. O que estes na verdade precisam fazer é manter os juros reais de política monetária em patamar inferior aos juros reais neutros. O problema é a dificuldade em tornar tal estratégia efetivamente estimulante, uma vez que o baixo nível estimado dos juros reais neutros deixa pouco espaço para gaps negativos de juros.

A nosso ver, enquanto o quadro atual não se alterar, produzindo taxas mais vigorosas de expansão da demanda e sinais indiscutíveis de inflação mais elevada, os bancos centrais dificilmente terão condições de reduzir os atuais estímulos monetários de maneira muito expressiva. Sendo assim, parece bem provável que a liquidez internacional continuará farta ainda por um bom tempo. 

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