O Novo Paradoxo da Produtividade e o Futuro do Emprego

29/01/2018

Enquanto o debate sobre crescimento no Brasil não vai muito além de aspectos relacionados à retomada cíclica da economia, na Europa e nos Estados Unidos o grande tema é o efeito das novas tecnologias de automação e inteligência artificial sobre a produtividade e o emprego. Esse foi um dos principais tópicos discutidos no Fórum Econômico Mundial de Davos, e tem sido foco de inúmeras publicações na mídia e na academia.

Neste texto discutirei essa questão, começando pelo impacto das novas tecnologias sobre a produtividade.

Em 1987, Robert Solow enunciou o “paradoxo da produtividade”, segundo o qual os computadores estavam presentes em todos os lugares, exceto nas estatísticas de produtividade.

De fato, apesar da disseminação das tecnologias de informação a partir da década de 1970, algumas décadas se passaram sem que isso se refletisse nos indicadores de produtividade. Somente em meados dos anos noventa houve uma aceleração significativa do crescimento da produtividade nos Estados Unidos, liderada por setores intensivos na produção e uso de informação.

No entanto, esse período de forte crescimento acabou sendo relativamente curto, terminando em meados dos anos 2000. Desde então, a produtividade desacelerou de forma significativa. Entre 2005 e 2016, a produtividade do trabalho nos Estados Unidos cresceu a uma taxa média anual de 1,3%, menos da metade do crescimento anual de 2,8% entre 1995 e 2004.

Um fenômeno similar ocorreu nas economias avançadas de modo geral. Nos países da OCDE, o crescimento anual da produtividade, que foi em média de 2,3% no período 1995-2004, caiu para 1,1% entre 2005 e 2016.

Essa desaceleração não reflete simplesmente os efeitos da crise internacional de 2008-2009, já que, tanto nos Estados Unidos como na maioria dos países da OCDE, ela iniciou antes da crise.

Isso é surpreendente, já que a última década foi rica em inovações tecnológicas, e empresas como Apple, Google e Amazon estão entre as líderes em valor de mercado.

Estamos, portanto, diante de um novo paradoxo da produtividade. Um artigo recente de Erik Brynjolfsson, Daniel Rock e Chad Syverson (“Artificial Intelligence and the Modern Productivity Paradox: A Clash of Expectations and Statistics”) discute possíveis explicações.

A primeira é que as novas tecnologias talvez sejam menos promissoras do que parecem. Essa hipótese está associada à pesquisa de alguns economistas, especialmente Robert Gordon, que em livro publicado ano passado (“The Rise and Fall of American Growth”), argumentou que as inovações associadas à Terceira Revolução Industrial, como computadores e smartphones, tiveram impacto bem menor na produtividade que as invenções da Segunda Revolução Industrial, como eletricidade e o motor de combustão interna.

Uma segunda explicação potencial do paradoxo é que os ganhos de produtividade decorrentes das novas tecnologias não estão sendo capturados nas estatísticas devido a erros de mensuração. Várias inovações que beneficiam o consumidor estão relacionadas a serviços intangíveis ou que são ofertados de forma gratuita. É possível, portanto, que não sejam capturadas no PIB e, consequentemente, nos dados de produtividade.

Uma terceira hipótese é que os efeitos positivos das novas tecnologias estejam sendo capturados por poucas empresas e, dessa forma, tenham pouco impacto na produtividade agregada. De fato, existem evidências de que a distância entre a produtividade de empresas na fronteira tecnológica e as demais aumentou nos últimos anos.

Embora cada uma dessas explicações tenha algum mérito, Brynjolfsson, Rock e Syverson consideram mais provável uma quarta explicação do paradoxo, segundo a qual existe uma defasagem temporal entre o surgimento de uma tecnologia e seu efeito na produtividade.

Isso ocorre especialmente no caso de tecnologias que afetam a economia de forma profunda e disseminada, conhecidas como general purpose technologies. Essas inovações exigem mudanças profundas na forma de organização das empresas e no ambiente regulatório para que seu potencial seja plenamente explorado.

Tanto a eletricidade como o computador levaram cerca de 25 anos para serem integralmente incorporados ao processo produtivo, e os autores acreditam que o progresso observado na última década na área de inteligência artificial eventualmente se traduzirá em forte aceleração da produtividade.

Em resumo, o impacto das novas tecnologias sobre a produtividade tem sido surpreendentemente modesto, e minha avaliação é de que o debate em torno do paradoxo da produtividade continua em aberto.

Existem, no entanto, várias evidências de que o mercado de trabalho está sendo bastante afetado. Nos Estados Unidos ocorreu uma forte polarização do mercado de trabalho, com trabalhadores mais qualificados se beneficiando das novas tecnologias, e trabalhadores de menor qualificação que exercem atividades rotineiras tendo queda dos salários e perda do emprego.

Outro fato que aponta nessa direção é a queda da participação da renda do trabalho na renda total, após décadas de estabilidade. Além disso, embora a taxa de desemprego americana tenha retornado ao nível que prevalecia antes da crise internacional de 2008, a parcela da população que se encontra empregada não retornou ao patamar pré-crise.

Esse processo tende a se acelerar nos próximos anos. Segundo a McKinsey, 45% dos trabalhadores americanos exercem ocupações que serão passíveis de automação nas próximas duas décadas. De acordo com o Banco Mundial, a proporção de empregos que poderão ser eliminados pela automação na OCDE é de 57%.

Diante dessas evidências, muitos se perguntam se as novas tecnologias vão resultar em aumento maciço do desemprego. A resposta não é óbvia, já que a teoria econômica mostra que existem mecanismos que atuam em direções opostas.

O efeito direto da introdução de uma nova máquina no processo produtivo é substituir o trabalhador que exercia determinada tarefa, aumentando o desemprego. No entanto, o aumento de produtividade resultante da automação reduz o custo de produção e o preço, o que estimula a demanda pelo produto e, consequentemente, o emprego. Além disso, os ganhos de renda real decorrentes da inovação tecnológica criam demanda por outros bens e serviços, estimulando o emprego em outros setores.

Um canal menos conhecido, que também atua no sentido de compensar uma possível perda direta de empregos, é o incentivo ao surgimento de novas atividades intensivas em mão de obra à medida em que o salário real cai com o aumento do desemprego.

Historicamente, as inovações tecnológicas não têm gerado aumento permanente do desemprego, o que indica que essas forças contrárias têm se compensado. No entanto, existem sinais de que isso pode estar mudando.

Um estudo recente de Daron Acemoglu e Pascual Restrepo (“Robots and Jobs: Evidence from US Labor Markets”) mostra que o aumento da utilização de robôs industriais nos Estados Unidos teve um forte impacto negativo no emprego e no salário. Se o estoque mundial de robôs triplicar ou quadruplicar na próxima década, como preveem algumas empresas de consultoria, a elevação da taxa de desemprego poderá ser significativa.

Mais importante que fazer previsões que tendem a ser precárias, é tentar entender por que as novas tecnologias podem ter um efeito mais persistente sobre o emprego. A razão mais importante é que elas são bastante intensivas em capital humano. Por isso, a inclusão efetiva da população no processo produtivo vai exigir uma reformulação abrangente do sistema educacional e do treinamento dos trabalhadores.

Outra dificuldade é que, embora as inovações tecnológicas criem novas oportunidades de trabalho, elas não surgem necessariamente na mesma localidade. Isso implica em custos de deslocamento que podem ser substanciais, especialmente no atual contexto de obstáculos crescentes à imigração.

Uma terceira razão é que, para que os trabalhadores que perdem o emprego possam ocupar novas vagas em outros setores, é preciso ter um ambiente de negócios favorável, que facilite a realocação dos recursos. Nesse sentido, o aumento da regulação e da intervenção do Estado na economia verificado em vários países após a crise internacional pode dificultar o processo de adaptação das economias às mudanças tecnológicas.

Tudo isso pode parecer algo distante da realidade brasileira. Mas inevitavelmente vamos sentir as consequências. Na década de 1990, as novas tecnologias de informação elevaram a produtividade da indústria, mas não se disseminaram pela economia. Quanto aos trabalhadores, os ganhadores foram aqueles com ensino superior completo.

Se construírmos uma agenda de melhoria do ambiente de negócios e capacitação dos trabalhadores, poderemos nos beneficiar das inovações e crescer. Mas se não nos prepararmos, o resultado é que somente uma pequena parcela dos trabalhadores e das empresas irá se beneficiar. Em vez de crescimento, teremos aumento da desigualdade.

 

Comentários

Gilberto Dantas
Um pouco da 2ª razão, um pouco da 3ª e um pouco da 4ª Um palpite: As novas tecnologias, tipo AI, Machine Learning etc ainda não atingiram o âmago, o núcleo principal da produção. Como foi falado, leva tempo, as vezes muito tempo para amadurecer. Mas pode entrar de forma explosiva de um momento para o outro. Depois de algum tempo vira lugar comum e o aumento da produtividade fica menor. São muitos os exemplos. A própria AI já era muito badalada na década de 80, mas na época pouca coisa aconteceu. Ficou apenas para acadêmicos e nerds. Com o incremento vertiginoso da capacidade de hardware e software, principalmente nos 90’s e início dos 2000, muita coisa prática se viabilizou em AI. Basta ver a capacidade de se fazer perguntas diretas e em linguagem natural para o Google. O momento de explosão na produção pode estar chegando. Já o ERP explodiu a partir da 2ª metade dos 90’s, mas agora é lugar comum e não tem mais tanto impacto.

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