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Os novos riscos depois que Temer "dilmou"

05/06/2017

Se os recentes números da economia trouxeram algum alívio ao governo, como o primeiro resultado positivo do PIB desde 2014 e o prosseguimento do corte da taxa de juros, a cada semana a sustentação da atual gestão vai ficando mais difícil com a sucessão de escândalos e envolvimento de pessoas próximas à cúpula em casos de corrupção. 

No episódio mais recente, o ex-deputado Rocha Loures, tido como pessoa próxima ao presidente Michel Temer, foi preso pela Polícia Federal. Ao mesmo tempo, o presidente continua a dar sinais de que pretende lutar pelo seu mandato até o último recurso disponível, fiado, aparentemente, na ausência de algum nome de consenso com força política suficiente para substituí-lo. Em outras palavras, o presidente “dilmou”, imitando, ao que parece, a estratégia da sua predecessora e cabeça de chapa.

Nesse cenário, é claro, as incertezas sobre a evolução do ambiente político crescem com repercussões negativas sobre as perspectivas de aprovação das reformas macroeconômicas, especialmente a da Previdência. A questão que permanece em suspenso até o momento é se o atual imbróglio político implica apenas a postergação das reformas para 2019 ou o seu abortamento, apesar de todos os esforços que o governo tem feito para sinalizar que serão aprovadas ainda neste mandato. De qualquer modo, se os ativos domésticos parecem não ter refletido adequadamente o atual balanço de riscos nas últimas duas semanas, o julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, a começar amanhã e com conclusão prevista para a próxima quinta-feira, pode alterar rapidamente este quadro. É o que o mercado de câmbio mostrou na tarde de hoje ao registrar uma depreciação do real contra o dólar de quase 1,5%, tendo em vista que a prisão de Rocha Loures, combinada às delações dos donos da JBS, colocaram o governo em uma situação ainda mais fragilizada.

Segundo nossos modelos, o recente choque político ocorrido há duas semanas, do qual resultou o aumento do risco-país e o deslocamento do câmbio para um patamar permanentemente mais depreciado, poderá tirar até 0,4 pp do crescimento projetado para o ano que vem, atualmente em 2,4%. Um cenário de maior incerteza política, o qual não pode ser descartado tendo em vista a provável polarização das eleições do próximo ano, poderia tirar até 1 pp do crescimento, levando a projeção para 1,4%. Em parte, esses números também refletem os impactos negativos que as incertezas do mundo político devem exercer sobre a extensão do ciclo de alívio monetário, já que um cenário de maior incerteza evidentemente diminui o espaço para um corte mais profundo da taxa de juros. O próprio comitê de política monetária do Banco Central deixou isso claro em seu comunicado divulgado na semana passada.

 

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