Percepções diferentes da queda da inflação

07/03/2018

Uma questão relevante é que a percepção da economia de uma maneira geral, e da inflação em particular, é diferente entre os diversos agentes. Por exemplo, as expectativas de inflação para o mercado (de acordo com dados de final do mês da mediana do boletim Focus da inflação para os próximos 12 meses) é diferente das expectativas para os consumidores (segundo a mediana dos consumidores brasileiros para a inflação nos 12 meses seguintes do Indicador de Expectativa de Inflação dos Consumidores do IBRE/FGV). No Gráfico 1, pode-se observar que a tendência das duas séries é parecida, porém em níveis diferentes. Atualmente, a mediana das expectativas de mercado indica uma inflação de 4,0% para os próximos 12 meses, abaixo da expectativa de 5,4% da mediana dos consumidores.

No fim de 2016, a expectativa do mercado era de que a inflação no final de 2017 fosse de 4,8%, acima da meta de inflação de 4,5%. Já a expectativa dos consumidores era mais do que o dobro da meta, em 9,1%. No final, a inflação em 2017 fechou abaixo do limite inferior de tolerância da meta, em 2,95%.

É bom lembrar que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação oficial do Brasil, é uma média ponderada de centenas de itens. Logo, dependendo da sua cesta de consumo e / ou da sua região, as variações de preços são diferentes. Por exemplo, de acordo com o IBGE, em 2017, Brasília e Goiânia foram as regiões que apresentaram maiores taxas de inflação (3,76%), acima da média nacional (2,95%). Já Belém foi a região com menor variação de preços (1,14%). O “famoso arroz com feijão” apresentou elevadas quedas de preço no ano passado comparado com o anterior. O preço do “feijão-carioca” caiu 46,0%, e o do arroz, 10,9%.

Outro dado interessante é que há uma abertura da expectativa de inflação dos consumidores por faixas de renda. Na última pesquisa (fevereiro de 2018), os consumidores participantes da pesquisa dentre os de menor renda (até R$ 2100,00) foram os que esperavam maior inflação. Já para os consumidores de maior renda (acima de R$ 9600,00), a taxa de inflação esperada está próxima da expectativa de mercado. Conforme vai aumentando a renda, vai diminuindo a expectativa de inflação (Gráfico 2).

O desemprego, a variável mais sensível para a população de uma maneira geral, ainda está em níveis muito altos, com mais de 12 milhões de desempregados. Mas esse número já foi superior aos 14 milhões no primeiro trimestre de 2017. Talvez isso ajude a explicar porque a percepção da população de que a economia está melhorando ainda não é tão consistente.  

Comentários

Bráulio
Acho que algo que explica parte da divergência apontada no gráfico 1 é o fato de que o IPCA não representa a inflação para boa parte da população brasileira e sim o INPC. Em 2015, por exemplo, quando a inflação de alimentos beirou os 15%, isso impactou muito mais o INPC do que o IPCA. Outro fator importante nesse tipo de análise é o fato de que, para as classes de renda mais baixa, muito provavelmente o processo de formação de expectativas é altamente backward-looking, ao passo que, nas classes de renda mais elevada, a formação de expectativas deve ser mais forward-looking.
Marcel Balassiano
Obrigado pelo comentário Bráulio!

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