Quem diria?

20/10/2017

Há um ano e meio o Brasil atravessava uma turbulência política e uma recessão sem precedentes, com grave ameaça de retorno a taxas de inflação de dois dígitos, que em maio de 2016 era de 9,3%. Quem diria que haveria, ano e meio depois do impeachment de Dilma, analistas econômicos reclamando que o Banco Central exagerou e reduziu demais (abaixo da meta) a taxa de inflação.

O ICOMEX da balança comercial elaborado pela FGV IBRE registrou aumento de 15,1% no volume exportado e de 18% no volume importado, na comparação entre os meses de setembro de 2016 e 2017. O superávit da balança comercial acumulado no ano até setembro foi de US$ 53,3 bilhões, o que supera o recorde anterior de US$ 48 bilhões registrado para o ano de 2016.  Quem diria ser isso possível com o câmbio apreciando mais de 10%, após a saída de Dilma. Quem diria que o volume de comércio exterior (importações + exportações), que era de janeiro até setembro de 2016 de cerca de US$ 242,6 bilhões, viesse a ser no mesmo período de 2017 de US$ 275,9 bilhões; 13,8% superior.

A taxa de desemprego estava em alta e assim continuou até recentemente quando em abril começou a declinar. Quem diria que isso ocorreria tão rapidamente a despeito do fenômeno dos alentados da PEA que retornam ao mercado de trabalho.

Conforme pode ser acompanhado pelo Monitor do PIB FGV divulgado hoje, na série com ajuste sazonal, de março de 2014 a maio de 2016 o PIB acumulou queda de 8,5%.  A indústria de transformação, a construção e o comércio apresentavam quedas superiores a 15%. Quem diria que a economia desde maio de 2016 iria se recuperar tão rapidamente e, em agosto deste ano, apresentaria um crescimento acumulado de 1,6%; e que a indústria de transformação e o comércio reportariam, no acumulado de maio de 2016 até agosto de 2017, crescimento superior a 2,5%, e a construção, embora ainda negativa, reduziria em 2/3 sua queda do período anterior.

Quem diria que as previsões da atividade econômica pudessem ser de crescimento este ano. Relembrando, a previsão do IBRE para o crescimento deste ano é de agora 0,8% quando em maio de 2016 essas previsões eram de -0,1%, continuando a recessão.

O mais espantoso é que isso tem ocorrido no meio de uma turbulência política que não cessa: um vendaval permanente. A despeito disso, várias reformas foram realizadas, outras estão em andamento e várias sendo preparadas pela equipe econômica. O Brasil se move!

Os resultados do Monitor do PIB FGV com referência a agosto mostram a anatomia dessa recuperação da atividade econômica:

O PIB brasileiro apresentou crescimento de 0,6% no trimestre findo em agosto, comparativamente ao trimestre imediatamente anterior (findo em maio), segundo a série dessazonalizada. Ainda na análise desta série, a taxa mensal do PIB apresentou crescimento de 0,2% em agosto, quando comparado a julho.

Na comparação com o mesmo período do ano anterior, o Monitor do PIB-FGV aponta para crescimento de 1,1% do PIB no trimestre móvel jun-jul-ago. Trata-se da quarta taxa positiva após 35 taxas negativas consecutivas, chegando a alcançar variação de -6% no trimestre móvel findo em janeiro de 2016. Todas as atividades apresentaram taxas de variação positiva, à exceção de construção, serviços de informação, intermediação financeira e administração pública.

Pela ótica da demanda, o Monitor do PIB-FGV aponta para crescimento de 1,8% do consumo das famílias no trimestre móvel findo em agosto, comparativamente ao mesmo trimestre em 2016; com destaque para o desempenho dos bens de consumo que continuam com aceleração do crescimento: o consumo de bens não duráveis cresceu 1,3%, o de semiduráveis 9,0% e o consumo de duráveis registrou crescimento de 9,3%.  A única taxa negativa foi a de consumo de serviços (-0,5%), que contribuiu com -0,3 p.p para o total do consumo das famílias.

A formação bruta de capital fixo (FBCF) apresentou retração de 3,0% no trimestre móvel jun-jul-ago, comparativamente ao mesmo trimestre em 2016, de acordo com o Monitor do PIB. O componente de máquinas e equipamentos continua na trajetória de crescimento (+5,1%), contribuindo com 1,8p.p. para a melhora do indicador. Já o componente de construção, apesar de ainda muito negativo (-8,5%), está em trajetória ascendente pelo terceiro mês consecutivo. O mesmo ocorre com o componente de outros da FBCF que apresentou queda de -4,5% no trimestre móvel até agosto após ter apresentado retração de 6,0% no 2º trimestre do corrente ano.

Entretanto, cabe um alerta para que ninguém se iluda com esses resultados positivos; eles não continuarão caso não se dê prosseguimento às reformas. Sem elas esse quadro será revertido e voltaremos a registrar inflação, recessão e elevação do desemprego.

Comentários

Francisco Mota
Observando porém o IBC-Br do Banco Central de agosto que apontou -0,38% no dessazonalizado e +1,44% no observado, temos uma discrepância razoável com o monitor do PIB de 0,2%. Alguém saberia explicar a razão? Seria metodologia?
Claudio Considera
O Monitor do PIB-FGV mira o PIB tri do IBGE e tem fontes de informação, ponderações e metodologia assemelhada ao do IBGE. O IBC-BR procura medir a atividade econômica usando modelos.
Gilberto Borça Jr.
Prezados Juliana e Cláudio, gostaria de fazer uma pergunta. No gráficos 3 e 4, como foi possível saber o peso de cada componente do Consumo das Famílias (duráveis, semi-duráveis, não-duraveis e serviços) em bases trimestrais? Idem para a decomposição da FBCF? Não há disponibilização da informação em termos de valor (corrente e constante) de toda abertura disponível pelo Monitor do PIB?
Claudio Considera
Todas as ponderações do Monitor, da mesma maneira que a do PIB tri do IBGE se referem à ultima tabela de recursos e uso publicada. Dessa forma, utilizando PIM-PF transformada para PIM-contas é possível eleger as categorias de uso de cada produto e estimar os componentes do consumo das famílias e a composição da FBCF. Os valores correntes são estimados pelos deflatores que elegemos.

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