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Braulio
Leo, boa tarde. Não respondi antes pois estava atribulado com outras tarefas. A verdade é que ninguém sabe definir exatamente o que é a NME - expressão essa que surgiu em 2012, em um artigo/entrevista do Mantega. Acho que a interpretação mais aceita da NME envolve tanto a gestão macro (tentativa de depreciar o câmbio em 2012/13 e de forçar uma queda do juro real "na marra" ainda no final de 2011, bem como uma política fiscal expansionista de 2012 à 2014, quando a economia não operava com ociosidade, bem como as famosas pedaladas, que subiram com força a partir de 2012) como a gestão micro (aportes do TN ao BNDES a partir de 2009, interferência no setor elétrico em 2012 e na política de preços da Petrobras em 2011-14 etc.). Mencionei os avanços institucionais que ocorreram nesse período pois quase todos entendem que são importantíssimos a médio e longo prazos (vide artigo recente do Fernando Rodrigues no Poder360 sobre a Lei de Acesso à Informação) e, em meio a esse clima de fla-flu, muitas vezes são ignorados. Como pode ser notado, boa parte das medidas introduzidas no âmbito da NME coincidem com o término do superciclo de commodities, em 2011 (a própria NME pode ser entendida como uma reação a esse quadro, mimetizando a reação dos militares ao quadro que emergiu após o choque do petróleo em 1973 - daí a analogia com o II PND). É nesse contexto que o recorte temporal utilizado foi esse, usando a datação dos ciclos de commodities - até mesmo porque, lá em 2010/11, era comum dizer que boa parte do desempenho impressionante do Brasil era fruto de "sorte", por conta justamente do comportamento dos preços desses produtos (vou explorar isso ainda mais em um próximo post). Sim, de fato muitos analistas apontavam que os erros já se acumulavam desde 2009/2010. A deterioração fiscal, contudo, teve início em 2012 (segundo estimativas minhas, do FMI e da SPE/Fazenda do resultado fiscal estrutural, que desconta os efeitos dos ciclos econômicos e também as receitas/despesas atípicas e pedaladas). Até 2011, o primário estrutural era positivo, e próximo de 2% do PIB (nível compatível com a sustentabilidade da dívida). Quanto ao problema da possível subestimação do PIB, sugiro uma leitura prévia da Carta de Conjuntura do IBRE de abril. Muitos daqueles que discordam de mim nessa questão do impacto da NME concordam como o problema da eventual subestimação do PIB em volume (e não do PIB nominal). Por fim, suponha que meu upper bound de 30% esteja correto. Isso é pouco? Eu não acho, já que estamos falando de 1 p.p. a menos de crescimento do PIB por ano em 2012-17, o que resulta em um custo acumulado de pouco mais de 6% do PIB (o que daria cerca de R$ 400 bilhões a preços de hoje, ou R$ 2000 mil por habitante). O meu propósito com esse texto era somente tentar desconstruir uma narrativa que coloca a NME como o evento mais importante e catastrófico dos últimos 120 anos no Brasil. Abraço, Bráulio