Deixar Comentário

Ivan Oliveira
Algo que me parece bastante incômodo nos quatro textos é a generalização ampla e irrestrita contida nos termos "PT" e "PSDB". Compreendo que a análise, tanto de Celso quanto de Samuel e Marcos, seja em nível macro e queira, portanto, mapear as ações sistêmicas. Mas creio que se há intenção, talvez primordial no debate público contemporâneo, de reduzir o grau da polarização e criar consensos, falta buscar com mais ênfase os bons interlocutores do outro lado do espectro na hora de ilustrar exemplos e dar contraditórios. O PT (ainda) é muito grande. A cúpula que hoje comanda o partido não faz jus à sua diversidade interna: há um PT agrário (outrora representado por Delcídio e outros nomes do centro-oeste, onde era/é minoritário), há um PT sulista de marxismo clássico que ascendeu na gestão urbana (Olívio Dutra, Tarso Genro, Raul Pont), um PT sindicalista (Vicentinho e várias figuras históricas que vieram na esteira do Lula), um PT acadêmico, enfim, são múltiplos recortes, vários dos quais contra-intuitivos à imagem que se faz da agremiação hoje. Por exemplo: o Estado do Ceará (há anos governado pelo PT) é um case de sucesso na gestão fiscal. Wellington Dias, governador do Piauí, propôs (e aprovou) um teto de gastos para seu Estado no final de 2016, quando a bancada do PT na Câmara estava toda mobilizada contra a PEC do teto proposta pelo governo Temer. Não é trivial saber de qual PT estamos falando ao se enunciar "o PT". Quando o texto, retoricamente, indaga se o PT não usaria do mesmo expediente de Eduardo Cunha caso estivesse em situação análoga, eu me pergunto: quem seria o "Eduardo Cunha" petista? É factível imaginar os senadores Lindbergh Farias ou Gleise Hoffmann mandando a autocontenção às favas, mas jamais imaginaria o mesmo de Arlindo Chinaglia, justamente aquele que perdeu a eleição para presidente da câmara para o próprio Cunha e quem, graças a um mandato sério e republicano na legislatura 2007-2009, conquistou respeito de todos os líderes da oposição. Sobre o PSDB, basta dizer que convivem na mesma agremiação FHC, João Dória e Coronel Telhada. Três personagens divergentes não só no aspecto ideológico (talvez sejam 3 quadrantes diferentes no diagrama de Nolan), mas também no espírito público. Fora a bem lembrada votação contra o fator previdenciário em 2015, fica a impressão de que o PSDB é um berço de gentlemans da democracia, sendo que pululam casos em que a autocontenção passou longe. Pra ficar em três exemplos relacionados a disputas eleitorais: (i) a campanha de José Serra à presidência em 2010 foi ardilosa, de baixíssimo nível, ancorando-se em temas reacionários que só acirraram a polarização política e a divisão sectária do país (ii) Aécio Neves não aceitou o resultado das urnas em 2014 e usou uma miríade de ferramentas institucionais (como pedir recontagem de votos eletrônicos), midiáticas e de articulação política para inviabilizar o governo (iii) a campanha de João Dória para prefeito em 2016, cujo slogan "Acelera, SP" prometia reverter mudanças civilizatórias, surfou no mais irracional anti-petismo para derrotar Fernando Haddad (outra figura distinta e sofisticada, mas queimada pela polarização política). Dória virou uma sombra dentro do próprio partido, acusado aqui e ali de golpe baixo nas disputas internas. Enfim, acho que seria saudável se o eixo do debate saísse dos partidos enquanto objetos fixos e não dinâmicos, dando mais espaço às nuances que persistem dentro desses dois "polos".