Inflação e desemprego - a Curva de Phillips

12/03/2018

Desde os anos cinquenta do século passado, economistas de diferentes escolas de pensamento concordam com a proposição de que, no curto prazo, existe uma relação inversa entre a taxa de inflação e a taxa de desemprego. Ou seja, quanto maior a taxa de desemprego menor a taxa de inflação e vice-versa. A esta relação dá-se o nome de curva de Phillips, em homenagem ao economista que a propôs pela primeira vez.  

Esta ligação entre inflação e desemprego decorre do fato de que, quanto maior a taxa de desemprego, menos renda é gerada na economia, seja porque menos empregos são criados, seja porque os empregos criados pagam menores salários. O resultado é uma menor demanda por bens e serviços. Quanto menor a demanda, menor o poder das empresas de aumentar os preços e maior a competição entre as empresas pelos consumidores remanescentes, o que aumenta o incentivo para que elas reduzam seus preços para aumentar a demanda por seus produtos.  

Desde o final dos anos sessenta, dois fenômenos interrelacionados tiveram um efeito importante sobre a efetividade desta relação. Primeiro, o deslocamento de uma parte significativa da produção de bens (industriais, minerais e agropecuários) dos países desenvolvidos para os emergentes, principalmente para os asiáticos (Japão, Coreia, China, Taiwan, etc.) no caso da indústria, e para os latino-americanos (Brasil, Argentina, Peru, etc.) na agropecuária e produtos minerais. Segundo, intensificou-se a liberalização do comércio internacional, o que, em conjunto com a diversificação geográfica da produção, gerou o que foi denominado de globalização, reforçando e facilitando o deslocamento geográfico da produção. Estes dois fenômenos mudaram o comportamento da economia mundial.  

Com a intensificação do processo de globalização e a difusão da produção de bens pelos países emergentes, o preço dos produtos industriais e agropecuários passou a ser determinado no mercado internacional destes produtos, não mais apenas no mercado interno de cada país. Isto significa que, hoje, a taxa de inflação desses bens em cada país é, em grande parte, determinada pela taxa de inflação internacional destes bens multiplicada pela variação da taxa de câmbio de cada país. Esses bens são denominados de bens comerciáveis, pois podem ser produzidos em um determinado lugar e consumidos em qualquer outro lugar do planeta.  

Para determinar a taxa de inflação dos bens comerciáveis, o que importa é a taxa de desemprego global (na verdade, o grau de utilização global do total de insumos) no conjunto de países produtores dos mesmos e não mais a taxa de desemprego de cada país individualmente. Ou seja, para os bens comerciáveis, a relação entre inflação e desemprego que realmente conta é a global. 

Porém, existe um outro grupo de produtos que são produzidos em um determinado lugar e somente podem ser consumidos onde são produzidos. Produtos como atendimento médico-hospitalar, seções de cinema, alimentação fora de casa, serviços habitacionais e domésticos, transporte, enfim, uma ampla gama de bens. São os chamados bens não comerciáveis ou serviços. As evidências empíricas mostram que mais de 60% da cesta de consumo das pessoas é composta por serviços.  

Como têm de ser produzidos e consumidos no mesmo lugar, os preços dos serviços são determinados por oferta e procura no lugar onde são produzidos e consumidos. Dessa forma, a relação inversa entre taxa de inflação de serviços e taxa de desemprego dentro de cada país se manteve praticamente inalterada, mesmo com a globalização.  

É dentro desse contexto que devemos analisar os efeitos da política monetária sobre a taxa de inflação. Um aumento da taxa de juros aumenta o custo do crédito, ao mesmo tempo em que torna a poupança mais atrativa. O resultado é uma queda da demanda por bens e serviços. Se a oferta de serviços permanece constante, a redução da demanda diminui a pressão inflacionária deste grupo de bens e, portanto, diminui a taxa de inflação na economia.  

Por outro lado, como o efeito de um aumento dos juros em um determinado país sobre a demanda global dos bens comerciáveis é relativamente pequeno, as decisões de política monetária adotadas em um único país têm pouco efeito sobre a taxa de inflação dos bens comerciáveis, exceto se gerarem algum efeito sobre a taxa de câmbio. A possível exceção a esta afirmação é a política monetária adotada pelo Banco Central americano, o Federal Reserve, devido à importância relativa dos Estados Unidos na economia mundial.  

Nesse contexto, a relação entre inflação de serviços e taxa de desemprego ganha uma importância ainda maior, na medida em que este é o principal caminho (e, muitas vezes, o único) através do qual a política monetária poderá controlar a taxa de inflação.  

A figura 1 abaixo mostra a relação entre a taxa de desemprego e a inflação de serviços seis meses depois para o Brasil, entre 2003 e 2017. Cada ponto da figura mostra a taxa de desemprego no eixo horizontal e a taxa de inflação de serviços no eixo vertical, para um determinado mês de um determinado ano entre 2003 e 2017.

Como podemos observar, existe uma relação negativa bastante forte entre taxa de desemprego e a taxa de inflação dos serviços na economia brasileira. Quanto maior a taxa de desemprego, menor a taxa de inflação de serviços e vice-versa.

Dois pontos devem ser destacados nesta relação: primeiro, a “altura” e, segundo, a inclinação. A “altura” da relação nos fornece o custo total, em termos de taxa de desemprego, de se obter uma determinada taxa de inflação. A inclinação nos fornece o custo/benefício marginal, em termos de desemprego, para se obter uma redução/aumento de um ponto percentual da taxa de inflação.  

O custo total de se obter uma determinada taxa de inflação no Brasil é extremamente elevado. Por exemplo, para se atingir uma taxa de inflação de serviços de 5,5%, a figura 1 indica que seria necessário que a taxa de desemprego atingisse aproximadamente 14,0% da força de trabalho. Um custo extremamente elevado.  

Um aumento de um ponto de porcentagem na taxa de desemprego geraria uma queda da inflação de serviços de aproximadamente 0,40 pontos de porcentagem seis meses mais tarde. Por outro lado, uma redução de um ponto de porcentagem na taxa de desemprego geraria aproximadamente 0,40 pontos percentuais de aumento da taxa de inflação. Ou seja, quanto mais sensível a inflação a variações da taxa de desemprego, menor o custo para reduzir a taxa de inflação. Essa maior sensibilidade faz com que a taxa de inflação se torne mais volátil a variações no desemprego.  

Se é necessária uma taxa de desemprego tão elevada para gerar uma determinada taxa de inflação, a taxa de juros real necessária para se atingir uma desejada taxa de inflação é também bastante elevada. Daí a dificuldade de se conseguir taxas de inflação “civilizadas” no país e a persistente demanda por mais inflação.  

Entretanto, antes de aceitar conviver com mais inflação, que gera mais incerteza e menos crescimento, deveríamos entender por que o custo de reduzir a taxa de inflação no Brasil é tão elevado e o que poderia ser feito para reduzir este custo.

Este artigo, primeiro de uma série de três, foi publicado originalmente pela Opus-Genial Gestão de Patrimônio

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