A insustentável leveza do dólar

26/01/2018

Causou espécie a declaração de Steven Mnuchin, secretário do Tesouro dos EUA, sobre a fraqueza do dólar americano feita no Fórum Econômico Mundial. Na letra fria, nada dramático – não haveria preocupação com o seu nível no curto prazo e uma moeda mais fraca tenderia a ser boa para as exportações (de tabela, para o crescimento). A médio prazo, no entanto, a força do dólar refletiria o próprio desempenho da economia americana e sua posição central como reserva de valor global.

Se olharmos o conjunto da obra, no entanto, faz sentido que as declarações tenham causado algum espanto: é muito difícil separar as declarações de Mnuchin do contexto geral da administração Trump. Sob o mote de “América primeiro”, o atual mandatário americano tem buscado uma agenda de aceleração do crescimento, desoneração tributária (para empresas e famílias), impulso fiscal, desregulamentação financeira e aumento da competitividade dos produtos americanos – tudo isso para “soltar as amarras” impostas pela regulação excessiva e para trazer de volta os empregos e a riqueza que teriam sido espoliados pelas práticas “inadequadas” de outros países.

Após inúmeros embates (nem sempre bem-sucedidos), Trump conseguiu aprovar seu pacote tributário ao final de 2017 e sinaliza novamente com um forte programa de investimentos em infraestrutura. Do lado comercial, adotou uma postura claramente mais belicosa, demandando uma renegociação do NAFTA e atacando as políticas comerciais/cambiais de parceiros relevantes como Alemanha e China. Em termos práticos, já vimos só nesse ano anúncios de repatriação de lucros auferidos e mantidos no exterior (somente a Apple pagará de US$ 38bi em impostos, o que pela nova alíquota sugere que o montante repatriado vai ultrapassar US$ 250bi), a imposição de sobretaxas sobre painéis solares e máquinas de lavar (chinesas e coreanas) e declarações explícitas de que novas medidas serão tomadas nas áreas de propriedade intelectual, aço e alumínio.

Nesse contexto, é razoável ler as declarações de Mnuchin como um desejo de desvalorização competitiva do dólar, ressuscitando o tema de guerras cambiais que esteve em voga em 2010. Combinado ao fortalecimento relativo de outras moedas (notadamente o euro, em muito devido às surpresas positivas com o desempenho da economia europeia desde o ano passado), estamos no meio de uma forte rodada de enfraquecimento da moeda americana. Isso pode ser observado pelo comportamento recente do Dollar Index (DXY), que mede a posição relativa do dólar em relação ao euro, yen, libra esterlina, dólar canadense, franco suíço e coroa sueca – quanto mais baixo o DXY, mais fraco o dólar americano.

Esse comportamento é pontual ou estrutural? Uma foto hoje diz que o mercado aposta que o dólar continuará fraco por muito tempo. Se calcularmos as cotações futuras esperadas para o DXY, vemos que os analistas esperam um dólar americano até mais fraco do que hoje, sem perspectiva de recuperação até, pelo menos, o final de 2019. Para efeito de comparação, há três semanas as expectativas eram de um dólar 3,5% mais forte, em média, nesse mesmo horizonte.

Por que eu acho que o mercado talvez esteja colocando peso demais no presente para prever o futuro? Acima de tudo, não tenho nenhum comentário sobre a dinâmica de curto prazo – as declarações de Mnuchin devem ser lidas exatamente como o mercado fez. A questão fica bem mais complicada a médio prazo (inclusive na definição do que é médio prazo...).

Minha leitura é que todas as medidas recentemente implementadas vão na direção de aumentar o buraco fiscal americano hoje na esperança de gerar crescimento que possa compensá-lo com mais receita tributária futura – ou seja, lá na frente o déficit seria menor do que o esperado devido ao melhor desempenho da economia. Nós brasileiros conhecemos bem essa narrativa do “moto contínuo” e pagamos até agora o preço desse tipo de experimento...

Mais ainda, tais políticas estão sendo implementadas no momento cíclico mais forte da economia americana desde a grande crise financeira de 2009 – mercado de trabalho em pleno emprego, evidências claras de um ciclo de investimentos, aumento do consumo das famílias e crescimento do PIB em aceleração (e provavelmente com hiato do produto fechado). Nesse sentido, um estímulo fiscal hoje tem potencial de jogar lenha na fogueira em momento inoportuno, pressionando a inflação e uma eventual reversão mais intensa da política monetária americana – juros subindo mais rápido ou atingindo patamares mais elevados do que os existentes atualmente (não só nos juros curtos, mas também nos juros longos).

Assim, se o ordenamento dos acontecimentos for esse, podemos ter uma rodada de fortalecimento do dólar no mundo, combinando os efeitos de uma economia superaquecida, de um aumento dos juros americanos e de medidas tributárias que favorecem os fluxos de capitais para os Estados Unidos. Considero que essa é uma realização possível e provável, que usualmente não é contemplada e que não está refletida nos preços do mercado – a fraqueza do dólar me parece, a médio prazo, insustentável. A maré está boa agora, mas convém não relaxar.

 

 

Comentários

Fernando Dória
Seria uma "nova Matriz versão tio Sam" ??
Livio Ribeiro
Fernando, obrigado pelo seu comentário! Sem dúvida há certas similaridades no "microgerenciamento" da economia. Desejo por moeda mais "competitiva", proteção tarifária, busca por maximização dos empregos domésticos, aumento do déficit fiscal na esperança de geração de tanto crescimento que o compensará no futuro. Não é uma agenda que costuma chegar a resultados positivos...

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