Artigo

A oportunidade da Indústria 4.0 para o Brasil

05/2017 por
  • Pedro Guilherme Ferreira

Muito se tem discutido sobre as questões da produtividade do trabalho no Brasil. Estudos mostram que avançamos no acúmulo de fatores de produção por trabalhador, mas não conseguimos aprimorar a eficiência alocativa da economia. Diversas razões são levantadas para justificar esse problema, mas uma delas é particularmente interessante: a alta concentração de empresas pouco produtivas no país reduz a produtividade total dos fatores.

Há inúmeras razões para justificar a alta concentração de empresas improdutivas, como créditos direcionados e políticas de governo que ajudam essas empresas a ter sobrevida. Neste artigo, porém, deixaremos de olhar para o passado e iniciaremos uma discussão sobre o que é a indústria 4.0 e como podemos utilizar essa nova revolução industrial para amenizar o nosso atraso tecnológico.

Indústria 4.0, originalmente, é o nome para iniciativa estratégica alemã de estabelecer o país como líder de mercado em soluções avançadas para a nova indústria. Isto é, após a introdução da economia impulsionada pela mecanização, do uso da energia elétrica, da produção em massa a preços acessíveis e da automação de processos, estamos vivendo, mediante o desenvolvimento da eletrônica e da tecnologia da informação, a nossa quarta revolução industrial. Além disso, cabe salientar que esta quarta revolução é baseada no uso de sistemas “ciberfísicos” e na digitalização dos sistemas produtivos, conforme se poderá verificar na figura abaixo.

Fonte: Kagermann, H. et. al (2013)

Basicamente, a indústria 4.0 preconiza a ligação em tempo real (real-time networking) de produtos, processos e infraestrutura. Em outras palavras, fornecimento, fabricação, manutenção, entrega e atendimento ao cliente estão todos conectados via internet. Cadeias de valor rígidas serão transformadas em redes de valores altamente flexíveis [Kagermann, 2016]. Tudo isso será possível graças ao networking entre os objetos físicos que estarão conectados com a internet permitindo-lhes enviar, receber e trocar dados/informação [conceito de internet of things - IoT (internet das coisas) – nos próximos artigos discutiremos mais sobre este conceito].

Quanto aos benefícios, o maior deles está na otimização das linhas de produção. De fato, um estudo da Academia Nacional de Ciência e Engenharia alemã - ACATECH (Kagermann, 2016), mostra que especialistas dos países pesquisados (Alemanha, China, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido) acreditam que a otimização da produção irá permitir ganhos de produtividade e, consequentemente, maior competitividade global e fortalecimento da indústria de transformação desses países. Quanto aos desafios da indústria 4.0, destaca-se o risco de desenvolver produtos em que não há um mercado relevante bem como a questão da segurança e soberania dos dados [Kagermann, 2016].

Em relação ao Brasil, dado o nosso atraso tecnológico, temos a oportunidade de pular algumas etapas e migrarmos direto para a indústria 4.0. Contudo, os riscos são enormes. Primeiramente, precisamos capacitar a nossa mão de obra e habilitá-la a atender às demandas dessa nova indústria. Ademais, necessitamos criar novos mecanismos regulatórios para que essa indústria possa se desenvolver. No entanto, dado o novo arranjo econômico em que “winner takes all (o vencedor leva tudo)”, corremos um sério risco de termos a nossa indústria ainda mais deteriorada, uma vez que empresas estrangeiras inseridas nessa cadeia global de suprimentos serão mais competitivas e terão maior possibilidade de conquistar mercados hoje protegidos por governos locais.

As iniciativas para desenvolver a indústria no país são ainda tímidas e estão sumarizadas em um documento divulgado pela CNI, intitulado “Desafios para a indústria 4.0 no Brasil”. Em linhas gerais, há um conjunto de propostas para desenvolver essa indústria no país, mas todas muito abstratas (desenvolver, melhorar, etc) e pouco detalhadas.

Mesmo com todas as dificuldades, pequenas atitudes da indústria local poderiam ajudar a nos posicionar melhor no tocante aos avanços tecnológicos. Por exemplo, por mais que a IoT não seja uma realidade, as empresas devem se preocupar em guardar o máximo de informações e, se possível, criar protocolos para a governança dos dados. Outra necessidade, já discutida, mas agora ainda mais urgente, é a proximidade entre as empresas e as instituições de ensino. Neste momento de crise, investir em bolsas para os alunos em que os trabalhos de final de curso possam impactar diretamente no EBTIDA das empresas pode ser uma boa estratégia de inovação.

Por fim, temas como computação quântica, 4ª revolução industrial, internet das coisas (IoT), blockchain, bitcoin e gnosis, impressoras 3D, computação cognitiva, sharing economy, cloud computing e inteligência artificial serão cada dia mais comuns no nosso cotidiano, e fechar os olhos para essa nova revolução tecnológica não é uma opção.

Kagermann, H./Anderl, R./Gausemeier, J./Schuh, G./Wahlster, W. (Eds.): Industrie 4.0 in a Global Context: Strategies for Cooperating with International Partners (acatech STUDY), Munich: Herbert Utz Verlag 2016.

Schuh, G., Anderl, R., Gausemeier J., ten Hompel, M., Wahlster, W. (Eds.): Industrie 4.0 Maturity Index. Managing the Digital Transformation of Companies (acatech STUDY), Munich: Herbert Utz Verlag 2017

Kagermann, H./ Wahlster, W./Helbig, J. (Eds.): Securing the future of German manufacturing industry. Recommendations for implementing the strategic initiative INDUSTRIE 4.0. Final report of the Industrie 4.0. (ACATECH Working Group. ), Munich: Herbert Utz Verlag 2013.

Confederação Nacional da Indústria – CNI. Desafios para Indústria 4.0 no Brasil. Brasília 2016

Comentários

Alexandre Sales Lima
Excelente artigo Pedro! Eu diria que estamos passando por um período de transformação digital no mundo e cada um dos assuntos que você mencionou atua como uma força disruptiva que ajuda a catapultar essas mudanças a patamares inimagináveis a alguns anos atrás. Nós como país precisamos correr para não perder essa onda.
pedro costa ferreira
Concordo plenamente, Alexandre. Precisamos unir forças para conseguirmos surfar essa onda. grande abraço, Pedro.

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