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Os 500 anos da Reforma Protestante: Weber tinha Razão?

25/10/2017

Cultura e Religião são um dos principais motores de transformações sociais ao longo da história humana. A economia, uma das dimensões do estudo do comportamento humano, não estaria imune aos impactos externos exercidos por mudanças na esfera cultural e religiosa. A Reforma Protestante, iniciada em 31 de outubro de 1517 em Wittenberg, na Alemanha, é um exemplo clássico de como mudanças culturais podem impactar a economia.

À primeira vista, as diferenças entre os países que aderiram à Reforma Protestante e os que não aderiram parecem encontrar respaldo em diversos indicadores estatísticos. Nações de origem protestantes (tais como EUA, Suécia, Suíça, Dinamarca e Reino Unido) tendem a apresentar indicadores sociais de educação, renda per capita e IDH superiores em média a países de predominância católica (Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e Polônia). Os países católicos também verificaram historicamente um desenvolvimento industrial tardio em comparação aos protestantes, além de menor grau médio de escolarização (a taxa de alfabetização era de 32% na Itália em 1870, contra 76% no Reino Unido no mesmo período[1]).

A Reforma vem sendo tema recorrente de estudos acadêmicos, seja na literatura econômica, sociológica ou histórica. Entre as obras mais célebres, encontra-se o clássico de Max Weber publicado em 1904, a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.  Segundo Weber, o pensamento teológico calvinista teria impulsionado a fase inicial do desenvolvimento capitalista, ao legitimar uma ética voltada para trabalho e poupança.

Ao contrário dos demais países católicos, que detinham uma concepção tradicionalista do trabalho, enquanto meio de sustento para a manutenção de um padrão fixo de consumo, a concepção calvinista do trabalho o constituía um fim em si próprio. Esta concepção do trabalho com um fim em si próprio levaria a uma nova mentalidade de contínuo aperfeiçoamento profissional e acumulação de capitais. Nesse contexto, indivíduos bem-sucedidos economicamente eram vistos como cumpridores da vocação ao qual a vontade divina os predestinou, e os capitais acumulados, sinais visíveis de eleição e salvação.

Esta tese de Weber da relação entre ética do trabalho protestante e desenvolvimento capitalista apresenta evidência econômica? A literatura econômica vem apresentando resultados diversos. Como exemplo, o economista Davide Cantoni, em seu artigo de 2014 “The Economic Effects of the Protestant Reformation: Testing the Weber Hypothesis in the German Lands”, demonstra que não há evidências para diferenças no crescimento econômico entre cidades alemãs católicas e protestantes no decorrer dos séculos pós-Reforma[2]. O estudo sugere que, eliminando as diferenças geográficas, institucionais e educacionais entre as cidades analisadas, os hábitos religiosos não explicam divergências econômicas relevantes entre regiões protestantes e católicas alemãs.

Apesar de evidências desfavoráveis acerca da relação direta entre cultura protestante e desenvolvimento, alguns autores sugerem efeitos favoráveis, mas por outras vias indiretas e diferentes daquela enunciada por Weber. Becker e Woessmann (2009) apontam que esta via se daria através da educação[3]. Segundo o estudo, há evidências de que a alfabetização das massas, incentivada indiretamente pelos reformadores protestantes para fomento à leitura bíblica, teria desencadeado grande acumulação de capital humano em regiões luteranas da Alemanha.

Estes ganhos de capital humano com a alfabetização podem não ter se refletido em ganhos econômicos imediatos para uma economia agrária e manual como a Alemanha do século XVI e XVII. Contudo, a educação passou a exercer um peso econômico decisivo em meio à crescente especialização técnica exigida pela Segunda Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX. Com isso, as regiões protestantes, mais alfabetizadas que as católicas, puderam se lançar à frente no processo de desenvolvimento industrial.

Outras evidências de impactos indiretos do protestantismo sobre o desenvolvimento capitalista também podem ser encontradas em estudos como o de Cantoni (2017). Segundo este estudo, demonstra-se que o advento do luteranismo na Alemanha teria promovido aquilo que se denomina de “secularização da economia” [4]. Capitais e terras pertencentes à Igreja, primariamente voltadas para atividades monásticas e marcadas pelo enclausuramento social, foram expropriadas por autoridades seculares alemãs durante as guerras religiosas dos séculos XVI e XVII. Deste modo, as terras e capitais, que eram até então monopolizadas pelo poder eclesiástico, foram liberadas e redirecionadas para atividades seculares, mais produtivas e voltadas para o mercado.

Um outro importante efeito desta progressiva “secularização econômica” seria a forte queda da procura por vagas de ensino superior ligados à teologia em universidades alemãs do período pós-Reforma, e o aumento de prestígio de cursos seculares, vinculados à medicina, direito e artes. Em contraste, universidades católicas permaneceram com forte influência do ensino teológico (ver no gráfico abaixo).

O estudo qualitativo de Basten e Betz (2013) apresenta evidências mais claras da tese clássica weberiana, definida pela relação entre a ética protestante e a formação da mentalidade capitalista de trabalho e poupança. Eles observam, a partir de resultados de referendos suíços, divergências nas preferências políticas entre os habitantes dos cantões protestantes e católicos[5].  Segundo estes autores, a “ética do trabalho” estaria evidenciada no fato de que regiões mais fortemente ligadas à Igreja reformada tendem a apresentar padrões de votações mais alinhadas com o livre mercado e menos com a expansão do welfare state.

Os autores enumeram alguns exemplos. Protestantes tendem a ser menos favoráveis a medidas pró-lazer em 14 p.p em relação aos católicos, menos favoráveis a medidas pró-redistribuição em 5 p.p e menos favoráveis a medidas de mais intervenção estatal em 7 p.p. Deve-se ressaltar também que estas mesmas regiões protestantes tendem a apresentar um maior nível de renda per capita médio comparativamente às católicas.

Neste 31 de Outubro, a Reforma Protestante completará 500 anos. É fato que a publicação das 95 teses de Lutero em 1517 trouxe impactos profundos na dinâmica política, econômica e social dos países ocidentais que a aderiram, como ressaltados por diversos autores, entre os quais Max Weber. É também fato que a Reforma de Lutero, mesmo em uma sociedade crescentemente secularizada, reverbera até os dias atuais, nos legando as atuais discrepâncias dos padrões educacionais, institucionais e culturais existentes no mundo ocidental moderno. E o Brasil, uma nação de colonização ibérica e católica, não está fora desse contexto.

Comentários

José Rocha
Excelente texto.
IBRE
Obrigado por comentar!
Fernando
Becker e Woessmann entendem que a acumulação de capital humano seria por causa da alfabetização. Essa alfabetização assim abstrata - que geralmente se entende apenas por ler e escrever - é insuficiente como principal causa de desenvolvimento humano. A leitura bíblica é a causa bem mais provável já que era essa a finalidade da alfabetização. É uma idéia impopular no meio acadêmico e talvez por isso Becker e Woessmann usaram "alfabetização" como codinome para "leitura e prática do que é ensinado na Bíblia". "Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens..." "Quem trabalha a sua terra terá fartura de alimento, mas quem vai atrás de fantasias não tem juízo." "O preguiçoso deseja e nada consegue, mas os desejos do diligente são amplamente satisfeitos." "Tudo posso naquele que me fortalece." "Todo trabalho árduo traz proveito, mas o só falar leva à pobreza." "Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês", diz o Senhor, "planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro." "Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos." Se dia após dia, semana após semana, as pessoas lêem e recebem esse tipo de instrução de como se comportar, de como trabalhar, é óbvio que isso produz desenvolvimento. Essa idéia provavelmente explica a falta de diferença entre cidades alemãs católicas e protestantes identificada por Davide Cantoni. No mundo real as coisas não são assim tão distintas que se possa dizer "países católicos têm concepção tradicionalista do trabalho, enquanto calvinistas têm trabalho como um fim em si próprio". É bem possível que os católicos alemães, por influência indireta e competição protestantes, passaram a ler mais a Bíblia e assim conseguiram os mesmos resultados.
IBRE
Obrigado por deixar seu comentário!
Sonia Homrich
Bom o seu texto. Interessante ressaltar que a Imigração Alemã no Brasil de Metodistas Luteranos incentivada por Dom Pedro II que não se opôs a receber os protestantes, assim como a presença de Presbiterianos ajudou sobremaneira a desenvolver o Brasil em suas idéias liberais, na indústria e no comércio. Idéias estas que se fundamentam sim na educação, no trabalho especializado e no esforço pessoal como um estilo de vida e encontramos esta forte característica nas diversas famílias que receberam esta influência no século 19 e parte do século 20 o que denota um forte traço cultural mesmo em termos antropológicos impulsionando o Brasil ao desenvolvimento. São Paulo, 26 Out 2017
Wilson Muller
Tiago, Parabéns, bom texto e muito oportuno pela comemoração dos 500 anos da publicação. Vou ler os textos citados, o tema é muito interessante. Sugiro a leitura de um texto do historiador H R Trevor-Ropper chamado "Religião, Reforma e Transformação Social", primeiro capítulo do livro de mesmo nome. Nesse capítulo, ele discute exatamente a tese weberiana. Se bem que o livro todo é muito bom. Todos o capítulos estão relacionados com a reforma. Um abraço.
Paulo
Gostei do texto! Parabéns!
Gedeon
Parabéns pelo texto, coaduna bem o que a Deirdre Mccloskey diz sobre o fato das "Virtudes Burguesas", como a alfabetização, serem as motrizes do desenvolvimento no mundo.

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