Macroeconomia

Após sucessivas quedas em 2022, produtividade do trabalho cresce no primeiro trimestre de 2023

23 jun 2023

Por conta do crescimento extraordinário da produtividade da agropecuária, a produtividade agregada elevou-se para um nível acima da tendência pré-pandemia. No entanto, é preciso ter cautela na interpretação deste desempenho.

Os eventos associados à pandemia de Covid-19 tiveram impactos negativos sobre a atividade econômica e o mercado de trabalho e elevaram de forma extraordinária o nível de incerteza em relação à dinâmica dos indicadores de produtividade, especialmente no Brasil.

Nas últimas semanas foram divulgados dados de produtividade do trabalho para economias avançadas, como os Estados Unidos e Reino Unido. Nos Estados Unidos foi verificada uma queda tanto da produtividade agregada quanto da produtividade do setor manufatureiro por hora trabalhada no primeiro trimestre de 2023, em comparação com o mesmo período de 2022. No Reino Unido houve queda no indicador que considera como medida do fator trabalho o número de pessoas ocupadas e na métrica que considera as horas trabalhadas.[1]

Desde 2019, o Observatório da Produtividade Regis Bonelli do FGV IBRE tem divulgado estatísticas de produtividade por pessoal ocupado e por hora trabalhada. Esta última medida considera duas informações sobre o total de horas trabalhadas. A primeira são as horas habitualmente trabalhadas em todas as ocupações, obtidas da PNAD Contínua, que têm como referência uma semana em que não haja situações excepcionais que alterem a duração rotineira do trabalho, ou seja, uma semana típica de trabalho.[2]

A PNAD Contínua também fornece informações sobre as horas efetivamente trabalhadas na semana de referência, que podem incluir reduções por motivo de doença, feriado, falta voluntária, atraso ou por outra razão, bem como aumentos por conta de pico de produção e compensação de horas não trabalhadas em outro período.

Até o início da pandemia, os resultados obtidos a partir das duas medidas de horas trabalhadas eram semelhantes.[3] No entanto, em função das medidas de distanciamento social necessárias para conter os efeitos da pandemia, desde o primeiro trimestre de 2020 os dados da PNAD Contínua passaram a revelar um descolamento entre as diferentes medidas do fator trabalho, em especial no segundo trimestre de 2020, tal como exposto no Gráfico 1.

Gráfico 1: Taxa de crescimento do pessoal ocupado, das horas habitualmente
trabalhadas e das horas efetivamente trabalhadas para o agregado
da economia – (Em % e em relação ao mesmo trimestre do ano anterior) – Brasil

Fonte: Observatório da Produtividade Regis Bonelli. Elaboração FGV IBRE
com base nos dados das Contas Nacionais Trimestrais e da Pnad Contínua (IBGE).

Como podemos observar no primeiro trimestre de 2020, e particularmente no segundo trimestre, houve forte discrepância entre as medidas de pessoal ocupado e horas habitualmente trabalhadas, de um lado, e das horas efetivamente trabalhadas, de outro. Os dados mostram que a queda nas horas efetivamente trabalhadas foi muito maior que a observada tanto no número de pessoas ocupadas quanto nas horas habitualmente trabalhadas.[4]

Esta discrepância, no entanto, foi diminuindo com a recuperação gradual ocorrida no mercado de trabalho nos trimestres seguintes. Em particular, ao longo de 2021, houve uma recuperação mais rápida das horas efetivamente trabalhadas quando comparado com o observado no emprego e nas horas habituais.[5] Ao longo de 2022 os dados apontaram uma desaceleração do crescimento das medidas do fator trabalho.[6]

Esta tendência se manteve no primeiro trimestre de 2023. Em particular, no primeiro trimestre houve elevação de 2,7%, 2,6% e 2,8% no pessoal ocupado, nas horas habitualmente trabalhadas e nas horas efetivamente trabalhadas, respectivamente.

Em consequência, o indicador de produtividade construído com base nas horas efetivamente trabalhadas apresentou comportamento muito diferente ao longo da pandemia quando comparado com a produtividade por pessoal ocupado e com a produtividade por hora habitualmente trabalhada, tal como apresentado no Gráfico 2.

Gráfico 2: Taxa de crescimento da produtividade agregada com base
nas diferentes medidas do fator trabalho (por hora habitualmente trabalhada,
por hora efetivamente trabalhada e por pessoal ocupado -
em % em relação ao mesmo trimestre do ano anterior) – Brasil

Fonte: Observatório da Produtividade Regis Bonelli. Elaboração FGV IBRE
 com base nos dados das Contas Nacionais Trimestrais e da Pnad Contínua (IBGE).

Para o agregado da economia, a dinâmica da produtividade no Brasil até o quarto trimestre de 2019 não depende da métrica considerada. Com o avanço da pandemia de Covid-19, no entanto, o indicador de produtividade com base nas horas efetivamente trabalhadas começou a apresentar um forte descolamento em relação aos indicadores de produtividade por hora habitualmente trabalhada e por pessoal ocupado, em especial no segundo trimestre de 2020.[7]

Por conta do processo de normalização das horas efetivamente trabalhadas houve, no primeiro trimestre de 2021, uma forte desaceleração do crescimento do indicador de produtividade que considera esta medida do fator trabalho, seguida de uma queda significativa no segundo trimestre. Já os indicadores de produtividade que consideram o número de pessoas ocupadas e o total de horas habitualmente trabalhadas tiveram desaceleração do crescimento entre o primeiro e o segundo trimestre de 2021. Os dados mostram ainda que nos dois últimos trimestres de 2021 todas as métricas apontaram um forte recuo interanual da produtividade.[8] Este cenário de queda interanual da produtividade se manteve ao longo de 2022, embora em magnitude menor ao longo dos trimestres.[9]

No entanto, no primeiro trimestre de 2023, houve uma reversão deste cenário de sucessivas quedas. Em particular, os dados apontam para uma elevação interanual de 1,3% na métrica que considera as horas efetivamente trabalhadas, de 1,5% na medida que considera o total de horas habitualmente trabalhadas e de 1,4% na métrica que considera o número de pessoas ocupadas.

Uma outra forma de analisar a dinâmica dos indicadores de produtividade é com base nas séries que descontam os efeitos sazonais de cada trimestre, ou seja, com base nas séries dessazonalizadas. O Gráfico 3 mostra a taxa de crescimento dos indicadores de produtividade do trabalho em relação ao trimestre imediatamente anterior.[10]

Gráfico 3: Taxa de crescimento da produtividade agregada com base
nas diferentes medidas do fator trabalho (por hora habitualmente trabalhada,
por hora efetivamente trabalhada e por pessoal ocupado
- em % em relação ao trimestre imediatamente anterior) – Brasil

Fonte: Observatório da Produtividade Regis Bonelli. Elaboração FGV IBRE
 com base nos dados das Contas Nacionais Trimestrais e da Pnad Contínua (IBGE).

O Gráfico 3 mostra que, embora a produtividade tenha crescido no segundo trimestre de 2020 em todas as métricas, e no terceiro trimestre de acordo com as medidas por pessoal ocupado e horas habituais, houve queda na margem em todos os indicadores no quarto trimestre de 2020. Em 2021, houve queda na margem em todas as medidas. Em 2022, os resultados também não foram animadores, tendo em vista que a variação de todas as métricas oscilou entre queda ou ligeiro aumento.

Já no primeiro trimestre de 2023, os dados apontam para um forte crescimento na margem em todas as medidas de produtividade. Em particular, a produtividade por hora efetivamente trabalhada, por pessoal ocupado e por hora habitualmente trabalhada avançaram 2,1%, 2,2% e 2,1%, respectivamente.

Como mostra o Gráfico 4, após um salto expressivo no segundo trimestre de 2020, a produtividade por horas efetivas desacelerou até 2022. No entanto, em função da elevação observada no primeiro trimestre de 2023, a produtividade por hora efetivamente trabalhada, por hora habitualmente trabalhada e por pessoal ocupado superaram o nível observado no quarto trimestre de 2019 em 1,4%, 1,7% e 2,2%, respectivamente.

Gráfico 4: Evolução da produtividade do trabalho (4º trimestre de 2019=100)

Fonte: Observatório da Produtividade Regis Bonelli. Elaboração FGV IBRE
com base nos dados das Contas Nacionais Trimestrais e da Pnad Contínua (IBGE).

No Gráfico 5 apresentamos a taxa de crescimento da produtividade do trabalho, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, para os três grandes setores da economia (agropecuária, indústria e serviços), com base nas três medidas do fator trabalho (por horas habitualmente trabalhadas, por horas efetivamente trabalhadas e por pessoal ocupado).[11]

Acesse o texto completo no Observatório da Produtividade Regis Bonelli


[1] Nos Estados Unidos, os indicadores do Bureau of Labor Statistics (BLS) apontaram para uma queda da produtividade agregada (nonfarm business sector) de 0,8% e do setor manufatureiro de 1,6% no primeiro trimestre de 2023 em relação ao primeiro trimestre de 2022. No Reino Unido os dados do Office for National Statistics (ONS) mostraram uma queda da produtividade por pessoal ocupado de 0,9% no primeiro trimestre de 2023 em relação ao mesmo período de 2022. Já na métrica que considera como medida do fator trabalho o total de horas trabalhadas a queda foi um pouco menor (-0,6% na mesma base de comparação).

[2] O total de horas habitualmente trabalhadas em todas as ocupações corresponde ao produto da jornada média pelo número de pessoas ocupadas.

[3] Este fato foi amplamente discutido nas notas anteriores, que podem ser acessadas no Observatório da Produtividade Regis Bonelli pelo link: https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade/artigos/categorias/relatoriosnotas-tecnicas

[4] Em 2020, houve uma queda muito mais pronunciada das horas efetivas (-14,1%) em comparação com a população ocupada (-7,7%) e com as horas habituais (-7,5%).

[5] Em 2021, houve um avanço muito mais pronunciado das horas efetivas (13,8%) em comparação com a população ocupada (5,0%) e com as horas habituais (5,1%).

[6] Em 2022, houve crescimento de 7,4% no número de pessoas ocupadas, de 7,7% no total de horas habitualmente trabalhadas e de 7,9% no total de horas efetivamente trabalhadas.

[7] No ano de 2020, todas as medidas apontaram para uma elevação da produtividade agregada. Enquanto que a métrica que considera as horas efetivamente trabalhadas apresentou forte avanço de 12,7%, as medidas que consideram as horas habitualmente trabalhadas e população ocupada cresceram 4,7% e 4,9%, respectivamente.

[8] No ano de 2021, houve queda em todas as medidas de produtividade. Em particular, enquanto que a métrica que considera as horas efetivamente trabalhadas apresentou recuo de 7,9%, as medidas que consideram as horas habitualmente trabalhadas e população ocupada recuaram 0,3% e 0,2%, respectivamente.

[9] No ano de 2022, houve queda em todas as medidas de produtividade. Em particular, enquanto que a métrica que considera as horas efetivamente trabalhadas apresentou recuo de 4,5%, as medidas que consideram as horas habitualmente trabalhadas e população ocupada recuaram 4,3% e 4,1%, respectivamente.

[10] A construção dos indicadores de produtividade com ajuste sazonal foi feita com base na dessazonalização de cada um dos seus componentes. Como o IBGE não divulga séries dessazonalizadas de emprego e horas trabalhadas, utilizamos o mesmo procedimento aplicado ao valor adicionado para fazer o ajuste sazonal do fator trabalho.

[11] No site do Observatório da Produtividade Regis Bonelli disponibilizamos os indicadores de produtividade para as três medidas do fator trabalho nos doze setores da economia. O acesso à base de dados está disponível através do link: https://ibre.fgv.br/observatorio-produtividade/temas/categorias/pt-trimestral

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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