Contribuição das regiões para a produtividade: o que dados revelam sobre o papel do Nordeste?

Decomposição shift-share investiga em que medida ganhos de produtividade decorrem de avanços intrarregionais de eficiência ou de mudanças na alocação regional do emprego. NE é componente complementar e estabilizador da produtividade nacional.
O estudo tem como objetivo analisar a contribuição das diferentes regiões para a produtividade do trabalho no Brasil entre 2012 e 2023, com ênfase no papel específico do Nordeste. A partir da decomposição shift-share, investiga-se em que medida os ganhos de produtividade decorrem de avanços intrarregionais de eficiência ou de mudanças na alocação regional do emprego, destacando o papel do Nordeste como componente complementar e estabilizador da produtividade nacional.
Introdução
A análise das disparidades econômicas regionais no Brasil costuma privilegiar indicadores de renda per capita, que capturam o padrão médio de vida da população. Embora relevantes, esses indicadores não refletem diretamente a capacidade produtiva das regiões. Por isso, a distinção entre renda e produtividade, aqui medida pelo Valor Adicionado Bruto por Pessoa Ocupada (VAB/PO), é fundamental. Enquanto a renda incorpora transferências e rendimentos não diretamente associados ao trabalho, a produtividade expressa a eficiência com que a economia regional converte trabalho em geração de valor econômico.
A região Nordeste ilustra de forma particularmente clara essa distinção. Segundo dados recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), analisados no Boletim Macrorregional Nordeste do FGV IBRE de junho de 2025, o rendimento domiciliar per capita médio da região corresponde a apenas 65% da média nacional em 2024. Além disso, uma parcela expressiva dessa renda provém de outras fontes, especialmente aposentadorias e programas sociais, em proporção significativamente superior à observada no conjunto do país, 32,7% no Nordeste contra 25,1% no Brasil. Esse padrão evidencia o papel central dos mecanismos redistributivos no nível de bem-estar regional, o que reforça a importância de analisar a capacidade própria da região de gerar valor econômico.

O Gráfico 1 indica que o Nordeste apresenta, ao longo de toda a série analisada, o menor nível de VAB/PO do país, situando-se em torno de R$ 22 mil a R$ 24 mil por trabalhador. Em contraste, as regiões Centro-Oeste e Sudeste registram os maiores valores, com diferenças regionais expressivas, evidenciando a profundidade das desigualdades regionais brasileiras.[1]
No que diz respeito à dinâmica temporal, observa-se que, entre 2012 e 2019, a produtividade do trabalho apresentou variações moderadas em todas as regiões, com tendência geral de estagnação ou leve declínio em termos reais. Em 2020, registra se uma elevação pontual do VAB por pessoa ocupada, associada aos efeitos da pandemia sobre o mercado de trabalho, sobretudo via redução do denominador, o que gerou oscilações mais acentuadas nos indicadores regionais. A partir de 2021, verifica se um movimento de normalização, com recomposição parcial dos níveis de produtividade e recuperação mais clara apenas em 2023. Ainda assim, ao longo de toda a série, o Nordeste permaneceu de forma persistente nos patamares mais baixos de produtividade do país, mesmo nos momentos de alta cíclica, o que reforça a existência de entraves estruturais à geração de valor adicionado por trabalhador na região.
Ademais, uma leitura da Tabela 1, considerando inicialmente o período completo de 2012 a 2023, revela-se um quadro geral de baixo dinamismo da produtividade do trabalho no Brasil. No agregado nacional, o crescimento médio anual do VAB/PO foi ligeiramente negativo, refletindo a combinação de uma longa recessão, uma recuperação lenta e os choques recentes associados à pandemia. Nesse contexto, o Nordeste apresenta a maior taxa com 0,22%, pouco superior ao Centro-Oeste com 0,18%, enquanto Sudeste, Sul e Norte registraram retração da produtividade, evidenciando a dificuldade generalizada de elevar a eficiência produtiva no país ao longo da última década.
[1] Embora existam métricas alternativas baseadas em horas trabalhadas, como as computadas pelo Observatório Regis Bonelli utilizando horas efetivamente ou habitualmente trabalhadas, optou-se nesse estudo pela medida VAB/PO por três razões principais: Primeiro, os dados de pessoal ocupado apresentam maior disponibilidade, consistência temporal e cobertura setorial nas estatísticas oficiais brasileiras, especialmente para análises desagregadas. Segundo, a mensuração de horas trabalhadas está sujeita a maior erro de aferição, particularmente em contextos de elevada informalidade e heterogeneidade nas relações de trabalho, características marcantes da economia nordestina. Terceiro, a produtividade por trabalhador é a métrica predominante na literatura nacional e internacional, o que favorece a comparabilidade dos resultados com estudos prévios e com indicadores divulgados por instituições como OCDE, Banco Mundial e IPEA. Reconhece-se, contudo, que essa escolha implica não controlar por variações na jornada de trabalho entre setores e ao longo do tempo, limitação que deve ser considerada na interpretação dos resultados.

Entretanto, ao examinar o desempenho do Nordeste em perspectiva comparativa, observa-se diferenças relevantes entre os subperíodos analisados. No intervalo pré-pandemia, entre 2012 e 2019, o Nordeste apresentou o crescimento mais elevado da produtividade entre as regiões, com taxa média anual de 0,38%, superando o Centro-Oeste, que registrou avanço de 0,09%, e contrastando com as retrações observadas no Norte, no Sudeste e no Sul. Esse resultado indica que, embora partindo de um patamar estruturalmente inferior, a região conseguiu promover ganhos relativos de eficiência mais expressivos nesse período.
A partir de 2020, contudo, esse padrão se reverte. No subperíodo entre 2020 e 2023, tanto o Nordeste quanto o Centro-Oeste passaram a registrar taxas negativas de crescimento da produtividade, enquanto Norte, Sudeste, Sul e o agregado nacional apresentaram variações positivas. Esse desempenho relativamente inferior reforça a evidência de que os avanços observados no período anterior não se sustentaram no ciclo recente, evidenciando a maior vulnerabilidade da produtividade regional aos choques adversos e às mudanças na composição da atividade econômica no período pós-pandemia.
Diante dessas evidências, coloca-se a seguinte questão central: qual tem sido a contribuição recente da região Nordeste para a produtividade do trabalho no Brasil? Para responder a essa pergunta, utilizamos na seção seguinte a metodologia shift share, que permite decompor a variação da produtividade agregada, medida pelo VAB por pessoa ocupada, em diferentes componentes, isolando o papel específico da região na dinâmica nacional.
A Decomposição das Produtividades Regionais
A descrição detalhada da metodologia de decomposição da produtividade pode ser vista no trabalho de Timmer e de Vries (2009)[1]. De maneira geral, a produtividade do trabalho agregada pode ser expressa como G=V/L , onde V representa o VAB total e L o número de Pessoas Ocupadas. Dessa forma Gt é o nível de produtividade (VAB/PO) da economia em questão i no período t . Por sua vez, a taxa de crescimento da produtividade do trabalho entre dois períodos (t e t-1 ) pode ser decomposta através da seguinte identidade:

Onde
é o VAB total do país no período
é o Pessoal Ocupado total na economia no período t , e; i=1,…,n denota no caso as regiões do Brasil.
Os somatórios da expressão (1) podem ser entendidos como efeitos de contribuição para o crescimento da produtividade agregada. O primeiro somatório é denotado Efeito Puro, que mede quanto a produtividade agregada varia em razão do crescimento da produtividade dentro de cada região, ponderado por sua participação no VAB total. Assim, regiões maiores e com maior dinamismo interno exercem evidentemente peso proporcionalmente maior na produtividade nacional. Ou seja, cada região contribui para esse efeito proporcionalmente à sua participação no VAB total. Assim, regiões maiores e com maior dinamismo interno exercem evidentemente peso proporcionalmente maior na produtividade nacional. Ou seja, cada região contribui para esse efeito proporcionalmente à sua participação no VAB total
e à sua taxa de crescimento da produtividade 
O segundo termo corresponde ao chamado Efeito Realocação, que capta o impacto das mudanças na distribuição regional do emprego. A produtividade agregada se eleva quando regiões com maior produtividade ampliam sua participação no emprego total e se reduz quando regiões menos produtivas passam a absorver, proporcionalmente, um maior contingente de trabalhadores.
Essas alterações na composição regional do emprego não refletem apenas migração de trabalhadores; também decorrem de investimentos, políticas públicas, variações setoriais, mudanças demográficas e diferenças no ritmo de geração de postos de trabalho. Neste termo,
representa o nível de produtividade da região i no período t relativo à produtividade agregada no período anterior, e
captura a mudança na participação do emprego da região i no total.
Dessa forma, a decomposição permite identificar se as variações da produtividade brasileira decorrem principalmente de ganhos de eficiência intrarregionais, associados ao efeito puro, ou de mudanças na estrutura regional do emprego, captadas pelo efeito realocação, além de possibilitar a quantificação da contribuição específica de cada região. No caso do Nordeste, o Gráfico 2 sugere que sua contribuição para a produtividade nacional, embora de menor magnitude, apresenta um padrão relativamente estável ao longo do período analisado.

À luz do Gráfico 2, observa-se que, em 2013, último ano anterior ao processo de desaceleração econômica, o Nordeste apresentou contribuição positiva para o crescimento da produtividade do trabalho, em consonância com o desempenho ainda relativamente favorável da economia brasileira. Em 2014, embora o PIB ainda tenha registrado variação positiva de 0,5%, o país ingressou em uma fase de forte desaceleração que antecedeu a recessão profunda de 2015 e 2016, quando a atividade recuou 3,5% e 3,3%, respectivamente.
Ao longo desse período, a contribuição do Nordeste para a produtividade nacional foi, em média, menos negativa do que a observada no restante do Brasil, o que indica que a região atuou como um fator de amortecimento das quedas mais intensas da produtividade agregada. Na fase subsequente de retomada, entre 2017 e 2019, o Nordeste voltou a apresentar contribuições positivas e relativamente estáveis, acompanhando o crescimento ainda moderado da produtividade no país e reforçando seu papel tanto na atenuação da recessão quanto no processo de recuperação.
No período mais recente, entre 2020 e 2023, a dinâmica da produtividade do trabalho no Nordeste refletiu os efeitos do choque pandêmico e da recuperação subsequente. Embora a taxa de crescimento anualizada do VAB por pessoa ocupada tenha sido negativa nesse período (−0,54%, conforme Tabela 1), a contribuição da região para a produtividade nacional manteve-se predominantemente positiva em anos-chave. Particularmente, em 2020 com choque da pandemia, o Nordeste apresentou contribuição positiva de 1,09 p.p., acompanhando o forte movimento de recuperação da produtividade agregada observado no país naquele ano (6,74%), influenciado principalmente por efeitos de composição do emprego.
Nos anos posteriores ao choque pandêmico, a contribuição do Nordeste passou a alternar sinais, refletindo um processo de normalização ainda incompleto da economia. Em 2021, a região apresentou contribuição negativa (−0,35 p.p.), em linha com a retração da produtividade nacional. Já em 2022 e 2023, o Nordeste voltou a registrar contribuições positivas, de 0,24 p.p. e 0,49 p.p., respectivamente, acompanhando a retomada gradual da produtividade no país. Embora essas contribuições tenham sido de menor magnitude em relação ao restante do Brasil em 2023, elas reforçam a evidência de que, no período pós pandêmico, o Nordeste manteve um padrão de contribuição relativamente estável, sem amplificar as oscilações negativas da produtividade agregada, ainda que o crescimento médio do período permaneça modesto.
Esses padrões sugerem que, embora em escala menor, o Nordeste tem desempenhado um papel complementar relevante na dinâmica da produtividade brasileira, contribuindo para a estabilização da produtividade em períodos de maior turbulência e participando de forma consistente dos ciclos de recuperação. A decomposição evidencia um papel particularmente interessante da região, ao mostrar que, apesar de sua contribuição ser menor em magnitude absoluta quando comparada à do restante do Brasil, ela assume importância em momentos específicos do ciclo econômico.
A partir dessa decomposição, torna se possível distinguir os mecanismos subjacentes à dinâmica da produtividade do trabalho no Brasil, separando os ganhos de eficiência observados no interior das regiões daqueles associados às mudanças na alocação regional do emprego. Nesse contexto, este estudo concentra-se na análise da região Nordeste e, para fins de comparação, agrega os efeitos correspondentes ao restante do país. Essa abordagem permite identificar com maior precisão se a contribuição nordestina para a produtividade nacional decorre predominantemente de avanços intrarregionais de eficiência ou de transformações na estrutura regional do emprego, estabelecendo o ponto de partida para a discussão a seguir sobre o Efeito Puro e o Efeito Realocação.
Efeito Puro X Efeito Realocação
A decomposição do chamado Efeito Puro (mede quanto a produtividade agregada varia em razão do crescimento da produtividade dentro de cada região) é apresentada no Gráfico 3. Observa-se que, no caso do Nordeste, esse efeito apresenta menor volatilidade ao longo do período analisado, refletindo uma estrutura produtiva relativamente menos exposta a setores de elevada variabilidade cíclica. Em contraste, o restante do Brasil exibe oscilações significativamente mais amplas, com quedas acentuadas nos períodos de desaceleração e recessão, especialmente entre 2014 e 2016 e novamente em 2021. Essa maior estabilidade relativa do Efeito Puro nordestino contribui para atenuar as flutuações da produtividade agregada nacional em momentos de crise, reforçando o papel complementar da região na dinâmica da produtividade do trabalho no Brasil.
Nos anos mais recentes, 2022 e 2023, observa se uma recomposição gradual das contribuições positivas, tanto no Nordeste quanto nas demais regiões. Assim, ainda que o Nordeste não seja o principal vetor das variações do Efeito Puro em termos absolutos, dado seu menor peso relativo no VAB nacional, sua trajetória mais estável tem desempenhado papel relevante na suavização das oscilações da produtividade agregada ao longo do ciclo econômico.

Já o Efeito Realocação, que capta o impacto das mudanças na distribuição regional do emprego, é apresentado no Gráfico 4. Os resultados revelam contribuições predominantemente negativas para o Nordeste, embora de baixa magnitude ao longo de todo o período analisado. Dado que a produtividade da região se situa abaixo da média nacional, aumentos relativos de sua participação no emprego tendem, ceteris paribus, a exercer pressão negativa sobre a produtividade agregada. Em contraste, e de forma semelhante ao observado no Efeito Puro, o restante do Brasil apresenta maior volatilidade no Efeito Realocação, refletindo movimentos mais intensos na redistribuição regional do emprego ao longo do ciclo econômico.

Com relação ao restante do Brasil, observa-se ganhos expressivos em anos como 2016, 2018 e 2023, quando regiões com níveis de produtividade relativamente mais elevados ampliaram sua participação no emprego total, contribuindo positivamente para a produtividade agregada. Por outro lado, em anos como 2013 e 2022, o efeito foi claramente negativo, indicando realocações desfavoráveis do ponto de vista da eficiência agregada. Para o Nordeste, ao contrário, o Efeito Realocação permanece estruturalmente limitado, sugerindo que a expansão relativa do emprego regional não tem sido acompanhada por ganhos proporcionais de produtividade. Assim, diferentemente do Efeito Puro, o papel mais relevante da região na dinâmica da produtividade nacional decorre da maior estabilidade de seus ganhos intrarregionais, e não de mudanças na alocação regional do emprego.
Considerações finais
A decomposição da produtividade do trabalho evidencia um padrão regional claro na economia brasileira. Enquanto o restante do país apresenta respostas mais intensas aos ciclos econômicos, o Nordeste se destaca por uma contribuição mais moderada e estável ao longo do tempo. Embora sua menor produtividade relativa limite os ganhos via realocação do emprego, uma vez que aumentos proporcionais de sua participação tendem a reduzir a produtividade média nacional, a região tem desempenhado um papel complementar relevante na dinâmica agregada.
Mesmo com menor peso relativo no VAB nacional, o Nordeste registrou contribuições positivas em anos-chave, como 2013, 2018, 2020 e 2023, além de apresentar quedas menos pronunciadas nos períodos de crise. Esse comportamento sugere que a região atuou como um amortecedor parcial das oscilações da produtividade nacional, especialmente em momentos de maior turbulência econômica. No período pós-pandêmico, a recuperação da produtividade ocorreu em todas as regiões, ainda que de forma desigual, reforçando a persistente heterogeneidade territorial do crescimento brasileiro.
Do ponto de vista de política pública, os resultados indicam que ampliar a contribuição do Nordeste para a produtividade nacional requer uma estratégia dual. De um lado, é necessário fortalecer os ganhos de eficiência intrarregionais, por meio de investimentos em infraestrutura, acesso ao crédito produtivo, inovação e fortalecimento das cadeias produtivas regionais. De outro, é fundamental avançar em políticas de qualificação profissional e educação, de modo a melhorar a alocação do trabalho em direção a atividades de maior produtividade.
O padrão relativamente mais estável da contribuição do Nordeste para a produtividade do trabalho parece estar associado a características estruturais da região, como a menor exposição a setores altamente cíclicos, o maior peso de atividades de serviços menos integradas às cadeias globais de valor e uma dinâmica do mercado de trabalho mais inercial, marcada por maior informalidade e menor mobilidade setorial. Adicionalmente, a presença relativamente significativa do setor público e das transferências de renda pode ter exercido papel estabilizador em períodos de retração econômica. Esses fatores ajudam a explicar por que a região tende a amortecer oscilações negativas da produtividade agregada, ainda que enfrente maiores restrições para gerar ganhos expressivos por meio da realocação do emprego.
Por fim, a evidência de que o Nordeste contribui para a estabilização da produtividade em períodos de crise reforça que políticas voltadas ao fortalecimento produtivo da região não devem ser vistas como ações compensatórias, mas como parte de uma estratégia de desenvolvimento nacional. Elevar a produtividade do Nordeste é condição não apenas para promover convergência regional, mas também para aumentar o potencial de crescimento e a resiliência macroeconômica da economia brasileira.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
[1] Em geral, essa metodologia é aplicada à setores de atividades, mas também pode-se fazer uso dela para investigações regionais. Ao contrário da análise Shift-Share tradicional, que aborda 3 efeitos (Puro, Estático e Dinâmico), aqui se optou por somar os efeitos Estático e Dinâmico associados à realocação do mercado de trabalho.










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