Construção

Qual a tendência da inflação da construção com o cenário macroeconômico para 2026?

30 jan 2026

O fechamento do INCC‑M em 2024 e 2025 sugere, à primeira vista, que não houve mudanças no comportamento do índice agregado. No entanto, uma leitura mais desagregada evidencia movimentos distintos entre os grandes grupos que compõem o indicador.

A dinâmica recente dos custos da construção no Brasil tem sido marcada por um movimento de transição relevante, no qual forças que pressionaram intensamente o setor nos anos pós‑pandemia começam a perder fôlego, ao mesmo tempo em que outros vetores de custo permanecem atuantes. Em 2024 e 2025, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC‑M) encerrou com variações muito próximas — respectivamente, 6,34% e 6,10% —, mas a composição dessas altas revela mudanças importantes na natureza das pressões inflacionárias. Esse rearranjo ocorre em um contexto macroeconômico mais amplo de desaceleração do ciclo global de commodities, com impactos potenciais sobre insumos fundamentais da construção, como aço, cimento e concreto.

Do ponto de vista conjuntural, o período recente pode ser interpretado como uma fase de acomodação após choques sucessivos. De um lado, observa‑se a dissipação gradual das pressões advindas dos gargalos de oferta internacionais e da escalada abrupta dos preços de commodities observada entre 2020 e 2022. De outro, persistem pressões de natureza doméstica, sobretudo associadas ao mercado de trabalho da construção, que segue relativamente aquecido em determinados segmentos e regiões. O resultado é uma inflação de custos mais heterogênea, menos sincronizada entre materiais e mão de obra, e mais dependente de especificidades setoriais.

O balanço recente do INCC: estabilidade no agregado, mudança na composição

O fechamento do INCC‑M em 2024 e 2025 sugere, à primeira vista, que não houve mudanças no comportamento do índice agregado. No entanto, uma leitura mais desagregada evidencia movimentos distintos entre os grandes grupos que compõem o indicador. Em 2025, o grupo Materiais, Equipamentos e Serviços registrou alta de 3,92%, significativamente inferior aos 5,04% observados em 2024. Em contrapartida, o grupo Mão de Obra acelerou de 8,24% para 9,23% no mesmo período, reforçando seu papel como principal vetor de pressão inflacionária na construção.

Esse comportamento não é casual. Após um ciclo prolongado de reajustes elevados dos insumos industriais, impulsionado pelo aumento dos preços internacionais de commodities, por custos logísticos e câmbio, os preços dos materiais passaram a mostrar maior moderação. Em alguns segmentos, essa moderação evoluiu para quedas nominais, como no caso de parte dos materiais metálicos. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho da construção manteve‑se tensionado, refletindo tanto a recomposição de salários reais quanto a escassez relativa de mão de obra qualificada em determinadas ocupações.

Dentro do grupo de Materiais e Equipamentos, a desaceleração foi generalizada, mas com intensidade distinta entre os subgrupos. Os materiais para estrutura, que haviam subido 4,40% em 2024, avançaram apenas 1,76% em 2025. Esse movimento foi fortemente influenciado pela queda dos materiais metálicos, recuo de 3,24% em 2025 contrasta com a alta de 4,42% no ano anterior. Trata‑se de uma inflexão relevante, dada a importância do aço na estrutura de custos da construção, uma vez que itens relacionados a materiais metálicos representaram em média 8% do peso do INCC ao longo de 2025.

Aço, minério de ferro e o canal externo de custos

A queda dos preços de vergalhões e arames de aço ao carbono, que registraram deflação de 6,93% em 2025 após alta de 4,90% em 2024, ilustra de forma clara o canal de transmissão entre a conjuntura internacional de commodities e os custos domésticos da construção. Esse movimento está diretamente associado à dinâmica do minério de ferro no mercado internacional, cuja trajetória recente tem sido marcada por excesso de oferta, desaceleração da demanda chinesa e expectativas mais moderadas para o crescimento global.

O minério de ferro, principal insumo da cadeia siderúrgica, exerce importante influência sobre os preços do aço, ainda que essa transmissão não seja imediata nem perfeita. Fatores como estrutura de mercado, políticas comerciais, custos energéticos e níveis de estoques das siderúrgicas domésticas ditam a precificação e, consequentemente, o repasse. Mesmo com esses fatores, a tendência de preços internacionais mais baixos cria um ambiente menos propício a novos ciclos de alta do aço no mercado interno — e foi o que ocorreu em 2025.

Esse cenário tende a persistir no horizonte prospectivo. As projeções internacionais apontam para um mercado de minério de ferro relativamente bem abastecido em 2026, com crescimento limitado da demanda global e expansão de capacidade em importantes países produtores. Nesse contexto, a probabilidade de choques altistas significativos parece reduzida, o que sugere um viés de estabilidade ou mesmo de novas quedas moderadas nos preços dos produtos siderúrgicos utilizados na construção.

Cimento e concreto: entre commodities energéticas e fatores domésticos

Se o aço responde de forma mais direta ao minério de ferro, o comportamento dos preços de cimento e concreto envolve um conjunto mais amplo de determinantes. A produção de cimento é intensiva em energia e depende fortemente de combustíveis fósseis, em especial derivados de petróleo, além de custos logísticos relevantes. Assim, a trajetória do petróleo no mercado internacional constitui um canal importante para a formação de preços desses insumos.

Em 2025, o cimento Portland comum registrou alta de 6,15%, acima dos 2,32% observados em 2024. Esse movimento, à primeira vista, pode parecer desalinhado com a moderação das commodities metálicas. No entanto, ele reflete, em grande medida, reajustes represados, recomposição de margens e fatores domésticos, como custos de transporte e estrutura concorrencial do setor. Já itens como massa de concreto e blocos de concreto apresentaram desaceleração, embora ainda com variações positivas.

O cenário internacional para o petróleo sugere um ambiente de preços menos voláteis em 2026, com oferta relativamente abundante e crescimento moderado da demanda global. Esse cenário tende a reduzir pressões sobre custos energéticos e de transporte, criando condições para uma inflação mais contida nos insumos minerais da construção. Ainda assim, a intensidade desse repasse dependerá de fatores internos, como política de preços de combustíveis, custos de frete e dinâmica regional da demanda por obras.

Materiais de acabamento e instalações: desaceleração difusa

Além dos insumos estruturais, observa‑se também uma desaceleração mais difusa nos materiais de acabamento e de instalação. Em 2025, os materiais para instalação subiram 7,74%, abaixo dos 10,50% registrados em 2024, enquanto os materiais para acabamento mantiveram variação relativamente estável, em torno de 4%. Embora esses grupos ainda apresentem taxas superiores às observadas nos materiais estruturais, a tendência geral aponta para perda de fôlego.

Esse comportamento reflete tanto a normalização das cadeias produtivas quanto a menor pressão de custos importados, especialmente em segmentos que utilizam insumos petroquímicos ou metálicos. A desaceleração dos preços internacionais do petróleo contribui para reduzir custos de produtos químicos, tintas e impermeabilizantes, enquanto a acomodação do aço e do alumínio impacta esquadrias e ferragens.

Mão de obra como principal vetor de pressão

Em contraste com a moderação dos materiais, a mão de obra segue como o principal fator de sustentação da inflação da construção. Em 2025, todos os grandes grupos ocupacionais registraram variações próximas ou superiores a 9%, com destaque para técnicos, engenheiros e funções especializadas. Esse movimento está associado à recomposição do poder de compra após períodos de inflação elevada e à oferta relativamente restrita de trabalhadores qualificados.

Do ponto de vista conjuntural, a persistência de aumentos elevados da mão de obra indica que a inflação da construção passa a depender menos do cenário internacional de commodities e mais das condições do mercado de trabalho doméstico. Mesmo em um ambiente de materiais mais estáveis, a pressão salarial tende a impor um piso relativamente elevado para o INCC no curto e médio prazo.

Perspectivas para 2026: menos pressão externa, desafios internos

Projeções nunca são fáceis, e agora não é diferente. O cenário prospectivo para os custos da construção sugere uma combinação de forças assimétricas. De um lado, o ambiente internacional de commodities aponta para menor pressão sobre os preços dos principais insumos materiais. A expectativa de continuidade da acomodação do petróleo e do minério de ferro reduz a probabilidade de novos choques altistas relevantes sobre aço, cimento e concreto. Isso tende a favorecer uma inflação de materiais mais baixa.

De outro lado, a dinâmica da mão de obra permanece como principal fonte de incerteza. A evolução do mercado de trabalho da construção dependerá do ritmo de atividade do setor, das políticas de investimento em infraestrutura e habitação e do comportamento da economia como um todo. Caso a demanda por obras se mantenha relativamente aquecida, é plausível que os reajustes salariais continuem acima da inflação geral, limitando a desaceleração do INCC.

Em síntese, a conjuntura atual aponta para um processo de reequilíbrio dos custos da construção. A fase dominada por choques de commodities parece que não será dominante em 2026, abrindo espaço para uma inflação mais influenciada por fatores domésticos e estruturais. Para 2026, o cenário mais provável é o de um INCC menos pressionado pelos materiais, mas ainda condicionado pela dinâmica do mercado de trabalho, reforçando a importância de uma leitura desagregada e conjuntural dos custos da construção.

Este artigo foi publicado na edição de janeiro da Revista Conjuntura Econômica.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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