Economia Regional

Os impactos econômicos locais da refinaria Abreu e Lima

3 mar 2026

A partir de dados de 2005-20 e com métodos de análise causal, avaliam-se impactos da obra sobre PIB per capita, emprego total e arrecadação de ISS. Resultados indicam que efeitos positivos se concentraram especialmente no período de construção.

Este estudo investiga os efeitos econômicos da Refinaria Abreu e Lima (RNEST) sobre o município de Ipojuca, em Pernambuco. A partir de dados entre 2005 e 2020 e utilizando métodos de análise causal, o trabalho avalia os impactos da obra sobre três variáveis locais: PIB per capita, emprego total e arrecadação de ISS. Os resultados indicam que os efeitos positivos se concentraram no período de construção, com ganhos limitados e pouco persistentes após a conclusão. O estudo contribui para o debate sobre os reais benefícios locais de grandes obras de infraestrutura e suas limitações como motor de desenvolvimento duradouro

Introdução

Em dezembro de 2025, o presidente Lula anunciou a expansão da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), localizada no município de Ipojuca, em Pernambuco. A medida reavivou uma promessa recorrente associada a grandes obras de infraestrutura: a geração de milhares de empregos e a promoção do desenvolvimento econômico local. Segundo o governo federal, o projeto deverá mobilizar mais de R$ 12 bilhões em investimentos e criar cerca de 10 mil postos de trabalho. A expectativa é dobrar a capacidade de refino da RNEST, passando dos atuais 130 mil para 260 mil barris de petróleo por dia.

Apesar da magnitude dos investimentos, algo comum em empreendimentos dessa natureza, ainda são limitadas as evidências sobre os efeitos econômicos locais da refinaria, em especial quanto à permanência dos empregos gerados ao longo do tempo. Sabe-se que obras de grande porte podem gerar ganhos importantes, como aumento do PIB e da produtividade, mas esses efeitos não são automáticos nem se distribuem de forma uniforme. Com frequência, os impactos concentram-se na fase de construção e tendem a se dissipar após a conclusão, sem necessariamente provocar mudanças estruturais duradouras nas economias locais.

Em muitos casos, os benefícios gerados por obras desse tipo concentram-se na fase de construção e tendem a desaparecer posteriormente, sem provocar mudanças permanentes na estrutura econômica local (Donaldson, 2018; Faber, 2014). Os efeitos de longo prazo são heterogêneos e variam conforme o tipo de empreendimento e a natureza das transformações econômicas que ele promove. Um exemplo disso é o estudo de Costa, Szerman e Assunção (2024), que analisaram o impacto da construção de hidrelétricas no Brasil. Os autores constataram que, na maioria dos casos, os efeitos econômicos foram pouco duradouros e não resultaram em alterações estruturais significativas nos municípios onde as obras foram realizadas.

Grandes obras de infraestrutura, sobretudo em ambientes com baixa capacidade institucional, frequentemente envolvem riscos de corrupção devido aos volumes expressivos de recursos mobilizados. Ainda que esse aspecto seja relevante, este texto se concentra em outra dimensão igualmente crucial: os efeitos econômicos de longo prazo desses investimentos. Afinal, quais os reais benefícios deixados por empreendimento dessa magnitude? O município anfitrião experimenta ganhos duradouros? Os empregos gerados se mantêm ao longo do tempo ou desaparecem com o fim da construção? Essas são algumas das perguntas que orientam a análise apresentada a seguir.

Este artigo busca explorar essas questões examinando os efeitos de longo prazo, cerca de uma década, das obras da RNEST sobre três dimensões centrais da economia local: o PIB per capita, o total de empregos formais e a arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS). O primeiro indicador captura a evolução da renda média por habitante, funcionando como termômetro do desenvolvimento. Já os demais refletem a forma como os benefícios econômicos se distribuem no território, seja pela geração de ocupações com remuneração direta, seja pelo aumento da receita municipal passível de conversão em políticas públicas.

Vale destacar que as obras da RNEST tiveram início entre 2007 e 2009. Para mensurar seus efeitos, foi utilizada uma técnica estatística de análise causal que confere maior precisão à identificação do impacto sobre variáveis locais. O propósito deste trabalho, portanto, não é oferecer uma conclusão definitiva sobre os efeitos da refinaria, mas sim contribuir para o debate sobre a natureza desses impactos e em que medida eles se prolongam no tempo ou se restringem ao ciclo da construção.

Uma Breve História da Refinaria Abreu e Lima

A Refinaria Abreu e Lima (RNEST), localizada no município de Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, é resultado de um projeto de longa maturação histórica, cuja concepção remonta ainda aos anos 1970. Desde esse período, discutia-se no âmbito do governo federal e da Petrobras a necessidade de construir uma refinaria capaz de processar petróleo pesado, tanto nacional quanto importado, especialmente vindo da Venezuela. A motivação central era reduzir custos logísticos, ampliar a capacidade de refino fora do eixo Sudeste e estimular o desenvolvimento econômico do Nordeste.

Essas discussões iniciais avançaram pontualmente ao longo das décadas de 1980 e 1990, sobretudo com a reaproximação diplomática entre Brasil e Venezuela. Em 1994, os chamados Acordos de La Guzmania, firmados entre os presidentes Itamar Franco e Rafael Caldera, reacenderam a possibilidade de um empreendimento conjunto. Apesar disso, os planos não se materializaram naquele ano.

O projeto ganhou novo impulso apenas no início dos anos 2000, em um contexto marcado por três fatores centrais: o aumento do consumo de derivados de petróleo no Nordeste, a intensificação da integração regional no âmbito do Mercosul e, posteriormente, a descoberta das reservas do pré-sal. Em 2004-2005, a proposta da refinaria passou a ser discutida de forma mais concreta pelo governo federal e pela Petrobras. Em 2005, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou oficialmente o projeto da Refinaria Abreu e Lima, com orçamento inicial estimado em cerca de US$ 2,5 bilhões.

A partir desse anúncio, o empreendimento entrou em sua fase preparatória. Contudo, o início efetivo das obras ocorreu apenas entre 2007 e 2009, quando foram iniciados os primeiros trabalhos vinculados à implantação da unidade de refino. Essa etapa inicial envolveu principalmente atividades de terraplanagem e preparação do sítio industrial.

Em 2009, teve início a construção civil dos prédios administrativos e das unidades de suporte operacional, marcando uma fase mais estruturada das obras. Nesse mesmo ano, foi construída a casa de força da refinaria, concluída em junho de 2009, com capacidade instalada de 150 MW, suficiente para atender às elevadas demandas energéticas do complexo industrial. Àquela altura, a expectativa oficial era de que as obras estivessem concluídas até 2011, com início de operação logo em seguida, previsão esta que não se confirmou.

Paralelamente à execução física do projeto, ocorreram mudanças relevantes em sua concepção e escala. O plano de negócios da Petrobras de 2008 passou a prever uma ampliação da capacidade de refino da RNEST, elevando o investimento estimado para valores muito superiores aos originalmente anunciados. A associação com a estatal venezuelana PDVSA, formalizada em acordos firmados a partir de 2008, previa fornecimento compartilhado de petróleo e a possibilidade de acesso da Petrobras a áreas de exploração na Faixa do Orinoco. No entanto, dificuldades nas negociações e impasses operacionais acabaram por inviabilizar, na prática, a participação efetiva da PDVSA no empreendimento.

O projeto também foi marcado por expressivas elevações de custo ao longo do tempo, além de atrasos sucessivos e problemas na justiça com acusações de desvios e superfaturamento. Apesar desses entraves, a RNEST entrou em operação parcial em dezembro de 2014, com o primeiro trem de refino autorizado a processar até 100 mil barris de petróleo por dia. A concepção original previa dois trens de refino, com capacidade total de aproximadamente 230 mil barris diários, mas o segundo trem permaneceu incompleto por vários anos. A refinaria passou a se especializar na produção de diesel S-10, combustível de baixo teor de enxofre, destinado principalmente ao abastecimento das regiões Norte e Nordeste.

Impactos econômicos da RNEST

Para estimar os impactos econômicos da RNEST utilizou-se o método de Controle Sintético, desenvolvido inicialmente por Abadie e Gardeazabal (2003) e amplamente empregado em avaliações de políticas públicas. A lógica é simples: comparar Ipojuca com uma “versão sintética” construída a partir de municípios semelhantes. Se antes das obras essas trajetórias são parecidas, qualquer diferença que surja após o início da construção pode ser interpretada como efeito da refinaria.

A ideia central é utilizar os municípios que não receberam a obra de infraestrutura como grupo de controle, de modo a estimar o que teria ocorrido com Ipojuca na ausência da RNEST. Para isso, consideram-se como municípios de controle todos os demais municípios de Pernambuco, totalizando 184 unidades.

As variáveis utilizadas para captar os possíveis impactos da RNEST incluem o PIB per capita e a arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS), obtidos no IPEADATA, além do emprego total, extraído da RAIS. Todas essas informações estão disponíveis para os municípios no período de 2002 a 2019. A análise não é estendida além de 2019 em razão dos efeitos da pandemia da COVID-19, que poderiam comprometer a consistência dos resultados. Considera-se 2008 como o início das obras de construção da RNEST, por representar um ponto intermediário entre 2007 e 2009. Para mais detalhes sobre a abordagem econométrica adotada, os interessados podem entrar em contato com os autores

Os resultados das estimativas são apresentados nas figuras a seguir. A linha preta contínua mostra em algumas delas, indica a evolução observada da variável em Ipojuca, enquanto a linha azul tracejada representa o cenário contrafactual estimado, isto é, o que teria ocorrido na ausência da intervenção. Como é usual na literatura, a credibilidade do método depende de um bom ajuste entre as duas séries no período anterior à intervenção, algo que pode ser verificado visualmente em cada gráfico.

Iniciando a análise, avalia-se o impacto da RNEST sobre o PIB per capita, apresentado na Figura 1. A linha vermelha tracejada indica o início das obras, delimitando o período pré-intervenção. Essa etapa anterior é crucial para a aplicação do método de controle sintético, pois permite avaliar a qualidade do ajuste do contrafactual estimado. Espera-se que, antes do início das obras, não haja diferenças relevantes entre a trajetória observada de Ipojuca e o contrafactual. Caso a RNEST tenha gerado impactos econômicos, essas diferenças tendem a se ampliar a partir de 2008

Os resultados evidenciam dois aspectos centrais. Primeiro, identifica-se um impacto positivo da RNEST sobre o PIB per capita de Ipojuca, que se intensifica a partir do término das obras e do início efetivo da produção de derivados de petróleo, em torno de 2014. Segundo, esse efeito revela-se persistente ao longo do tempo. Mesmo durante o aprofundamento da crise econômica brasileira entre 2014 e 2016, caracterizada por recessão, forte contração do investimento, ajuste fiscal e retração da atividade industrial, o PIB per capita de Ipojuca permanece sistematicamente acima do contrafactual. Esse padrão sugere que a RNEST atuou como um amortecedor local frente aos choques macroeconômicos adversos, elevando de forma duradoura o nível de renda do município.

Esse efeito pode estar associado a uma mudança estrutural na base produtiva do município. A Figura 2, acima, apresenta a decomposição do valor bruto da produção de Ipojuca pelos grandes setores da atividade, ou seja, indústria, serviço e agricultura. Observa-se que, a partir de 2008, a indústria passa a assumir papel dominante na estrutura produtiva local, superando os serviços como principal componente do valor gerado. Esse movimento indica uma transição do padrão produtivo do município, anteriormente mais concentrado em atividades de serviços, para uma estrutura mais intensiva em atividades industriais. O exercício sugere, portanto, que, no caso da RNEST, grandes obras de infraestrutura, como refinarias, têm potencial efetivo para alterar de forma significativa e duradoura a estrutura produtiva local

Na sequência da análise, a Figura 3 apresenta os resultados referentes ao ISS, principal tributo de arrecadação municipal. O imposto é analisado em logaritmo, de modo que as diferenças observadas em sua trajetória podem ser interpretadas em termos percentuais. Os resultados indicam um aumento expressivo da arrecadação do ISS durante o período de construção da RNEST, efeito que se mantém no período posterior. Esse achado é particularmente relevante, pois sugere que a implantação da refinaria ampliou a capacidade fiscal do município, gerando recursos adicionais que podem ser direcionados ao financiamento de políticas públicas locais.

Cabe destacar que o impacto sobre o ISS, assim como observado para o PIB per capita, apresenta caráter persistente. Ou seja, mesmo após o término das obras da RNEST, o município passou a arrecadar níveis mais elevados do tributo. Esse comportamento é compatível com a mudança estrutural ocorrida na economia local, refletindo uma base produtiva mais robusta e intensiva em atividades industriais.

Por fim, a Figura 4 apresenta as estimativas de impacto sobre o total de empregos. Para interpretar esses resultados, é importante lembrar que as obras da RNEST tiveram início entre 2007 e 2009 e foram concluídas em 2014. Durante o período de construção, observa-se um impacto expressivo e estatisticamente relevante sobre o emprego, resultado esperado, dado que grandes obras de infraestrutura são intensivas em mão de obra, especialmente no setor da construção civil. No entanto, após a conclusão das obras, o nível de emprego apresenta queda significativa, indicando que esse efeito não é persistente. Superada a fase de maior demanda por trabalhadores, o total de empregos no município se reduz de forma relevante em relação ao período anterior. Em síntese, os resultados sugerem que o impacto da RNEST sobre o emprego em Ipojuca foi muito relevante no curto prazo, especialmente durante a fase de construção, mas pouco significativo no médio e longo prazo.

Considerações Finais

Este artigo analisou os efeitos econômicos da Refinaria Abreu e Lima (RNEST) sobre o município de Ipojuca, com foco em três dimensões centrais do desenvolvimento local: renda, emprego e capacidade fiscal. A partir do método de controle sintético, foi possível comparar a trajetória observada do município com um contrafactual plausível, isolando de forma mais precisa os impactos associados à implantação da refinaria.

Os resultados indicam que a RNEST gerou efeitos positivos relevantes e persistentes sobre o PIB per capita de Ipojuca, especialmente a partir do início de sua operação, em torno de 2014. Mesmo durante a crise econômica brasileira entre 2014 e 2016 — marcada por recessão, forte queda do investimento, ajuste fiscal e retração industrial — o PIB per capita do município permaneceu sistematicamente acima do contrafactual. Esse comportamento sugere que a refinaria contribuiu para elevar de forma duradoura o nível de renda local, funcionando como um amortecedor parcial frente a choques macroeconômicos adversos.

Uma explicação consistente para esse resultado está associada à mudança estrutural observada na economia local. A decomposição do valor bruto da produção revela que, a partir de 2008, a indústria passa a assumir papel dominante, substituindo um padrão produtivo anteriormente mais concentrado em serviços. Esse achado indica que grandes empreendimentos industriais podem, em determinadas circunstâncias, alterar de forma estrutural a base produtiva dos municípios onde se instalam.

No campo fiscal, os resultados para o ISS reforçam essa interpretação. A arrecadação do principal tributo municipal cresceu de forma expressiva durante a fase de construção da RNEST e manteve-se em patamar elevado posteriormente, evidenciando um efeito persistente. Esse aumento da capacidade fiscal amplia o espaço para o financiamento de políticas públicas locais, especialmente em áreas como educação e saúde, ainda que este estudo não avalie diretamente a qualidade do gasto municipal.

Por outro lado, os efeitos sobre o emprego revelam limitações importantes. A fase de construção gerou um aumento significativo do emprego, como esperado em obras intensivas em mão de obra, sobretudo na construção civil. No entanto, esse impacto não se manteve após a conclusão das obras. Com o início da operação da refinaria, observa-se uma redução relevante do emprego total, indicando que os efeitos positivos sobre o mercado de trabalho foram essencialmente temporários.

Em síntese, os resultados mostram que a RNEST gerou ganhos duradouros em termos de renda e arrecadação, associados a uma mudança estrutural da economia local, mas produziu efeitos limitados e pouco persistentes sobre o emprego. Esses achados reforçam que grandes obras de infraestrutura não são, por si só, garantia de desenvolvimento abrangente e sustentável, devendo ser acompanhadas de políticas complementares capazes de ampliar seus encadeamentos produtivos e impactos sobre o mercado de trabalho no longo prazo.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.   

Referências

ABADIE, Alberto; GARDEAZABAL, Javier. The economic costs of conflict: A case study of the Basque Country. American economic review, v. 93, n. 1, p. 113-132, 2003.

COSTA, Francisco; SZERMAN, Dimitri; ASSUNÇÃO, Juliano. Local Economic Impacts of Hydroelectric Power Plants: Evidence from Brazil. Economía LACEA Journal, v. 24, n. 1, 2025.

DONALDSON, Dave. Railroads of the Raj: Estimating the impact of transportation infrastructure. American Economic Review, v. 108, n. 4-5, p. 899-934, 2018.

FABER, Benjamin. Trade integration, market size, and industrialization: evidence from China's National Trunk Highway System. Review of Economic Studies, v. 81, n. 3, p. 1046-1070, 2014.

SEVERINI, E. (2023). The power of hydroelectric dams: Historical evidence from the United States over the twentieth century. The Economic Journal, 133(649):420–459.

STROBL, E. and STROBL, R. O. (2011).  The distributional impact of large dams: Evidence from cropland productivity in Africa. Journal of Development Economics, 96(2):432 – 450

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