Cenários

EUA, Irã e choque no petróleo: efeitos difusos sobre o IPCA

6 mar 2026

Literatura de pass-through indica que transmissão de variação em preços internacionais de energia à inflação ao consumidor de fato ocorre, mas raramente de forma integral. Repasse tende a ser parcial e heterogêneo, e varia entre países e no tempo.

Diante da recente escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio – envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel – voltam à tona algumas perguntas que sempre acompanham conflitos em regiões estratégicas para a produção de petróleo: quais podem ser os efeitos econômicos desse episódio? Há risco de pressão adicional sobre os preços e, consequentemente, sobre a inflação medida pelo IPCA? É a partir dessas questões que este breve texto busca oferecer algumas reflexões.

A reação inicial dos mercados já revela a apreensão com possíveis interrupções na oferta global de petróleo. Um dos principais pontos de atenção é o Estreito de Ormuz, rota por onde transita cerca de um quinto do comércio mundial da commodity. Qualquer ameaça ao fluxo de navios na região costuma elevar imediatamente a percepção de risco.

Não por acaso, logo após os ataques, na reabertura dos mercados de futuros no domingo à noite, os contratos do petróleo Brent chegaram a registrar alta próxima de 10%. O movimento reflete a rápida incorporação de um prêmio de risco geopolítico aos preços, diante da possibilidade – ainda que incerta – de interrupções no fornecimento ou no transporte de petróleo no Oriente Médio.

Segundo a literatura econômica, choques positivos nos preços do petróleo produzem efeitos macroeconômicos diferentes conforme a posição de cada país no mercado internacional dessa commodity. Em economias que são exportadoras líquidas de petróleo, a alta dos preços costuma melhorar os termos de troca e favorecer uma valorização cambial, impulsionada pelo aumento da entrada de divisas externas.

Esse efeito, contudo, tende a ser mais limitado em países que, embora sejam produtores de petróleo bruto, ainda dependem da importação de derivados. Nesses casos, parte do ganho obtido com a exportação da commodity acaba sendo compensada pelo encarecimento dos combustíveis e insumos energéticos adquiridos no exterior.

A literatura sobre pass-through mostra que a transmissão das variações nos preços internacionais de energia para a inflação ao consumidor de fato ocorre, mas raramente de forma integral. Esse repasse tende a ser parcial e heterogêneo, variando entre países e também ao longo do tempo. Em muitas economias – inclusive no Brasil – a intensidade desse mecanismo diminuiu nas últimas décadas, embora o ajuste ainda aconteça com relativa rapidez quando comparado a outros países emergentes (Choi et al., 2017).

No caso brasileiro, cabe lembrar que, apesar dos avanços na produção doméstica de petróleo bruto, o país ainda não é autossuficiente em derivados como o óleo diesel, permanecendo dependente de importações, conforme dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Isso significa que, mesmo diante de um eventual ganho nos termos de troca – que poderia contribuir para alguma apreciação cambial –, o país não fica imune aos efeitos da alta internacional da energia.

No curto prazo, portanto, o impacto líquido sobre o IPCA dependerá tanto da magnitude do choque externo quanto da velocidade com que ele é transmitido aos preços domésticos. Vale lembrar que o subitem óleo diesel, embora tenha peso relativamente pequeno na cesta de consumo das famílias, exerce papel relevante em diversos setores da economia – especialmente na indústria, no transporte de cargas e na agropecuária –, podendo gerar efeitos indiretos ao longo da cadeia produtiva.

Mas e a gasolina? Embora tenha potencial para impactar de forma mais direta o IPCA — sobretudo pelo peso que esse subitem possui na estrutura do índice —, o repasse das variações do petróleo para os preços domésticos não é automático. Estimativas do Banco Central do Brasil indicam que esse pass-through pode variar significativamente, dependendo tanto da dinâmica cambial quanto das condições de mercado (Banco Central do Brasil, 2022).

Além disso, a menos que a política de preços volte a seguir de forma estrita a paridade de importação, choques externos não tendem a ser transmitidos integralmente – nem de maneira imediata – aos preços internos. A experiência recente mostra justamente isso: oscilações de curto prazo no mercado internacional nem sempre se traduzem em reajustes automáticos nas bombas. Esse comportamento sugere que ainda existe um grau relevante de discricionariedade e incerteza no processo de formação de preços, mesmo em momentos de elevada tensão geopolítica.

Por isso, é possível que os efeitos – caso de fato se mostrem relevantes – ocorram principalmente por canais indiretos. O principal deles é o setor de transporte rodoviário, responsável por cerca de 80% da demanda de diesel no país, segundo a (EPE, 2025). Quando o combustível encarece, o custo do frete e da logística tende a subir, pressionando preços ao longo de diferentes cadeias produtivas.

Esse repasse costuma ser mais intenso em setores com margens mais apertadas ou em mercados cuja demanda é relativamente inelástica. É justamente por esse motivo que choques nos preços da energia muitas vezes aparecem de forma difusa na inflação de varejo no Brasil, espalhando-se gradualmente por diversos bens e serviços.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

Referências

Banco Central do Brasil (2022). Relatório de Inflação. Março de 2022. Box: “Pass-through of oil price in BRL to inflation and risk measurement.” Brasília: Banco Central do Brasil.

Choi, S.; Furceri, D.; Loungani, P.; Mishra, S.; Poplawski-Ribeiro, M. (2017). Oil Prices and Inflation Dynamics: Evidence from Advanced and Developing Economies. IMF Working Paper.

EPE (2025). Balanço Energético Nacional 2025: ano base 2024. Empresa de Pesquisa Energética. Rio de Janeiro: EPE.

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