A ascensão dos alimentos na dinâmica inflacionária brasileira
De 2012 a 2025, alimentos avançaram 166,7%, contra 111,7% do IPCA. Parcela de alimentação no domicílio no IPCA subiu de 16% (pré-2012) para 19%. Mudança advém de choque climático, encarecimento de insumos e desvalorização cambial.
Nos últimos anos, um fenômeno digno de nota tem se desenhado no comportamento da inflação brasileira: o protagonismo crescente dos alimentos na composição do IPCA. A mudança é silenciosa, mas profunda. De coadjuvante da inflação por longos períodos, a "alimentação no domicílio" passou a exercer influência determinante sobre o índice, ultrapassando inclusive setores historicamente mais pesados, como Transportes.
Uma análise retrospectiva dos últimos 26 anos, dividida em dois blocos temporais — de janeiro de 2000 a dezembro de 2011, e de janeiro de 2012 a fevereiro de 2025 — revela o avanço expressivo da inflação de alimentos em relação ao índice geral.
No primeiro período, enquanto o IPCA acumulava uma alta de 114,3%, a alimentação no domicílio subia 121,2%, diferença que equivale a um ganho real médio anual de 0,25 ponto percentual. Já no segundo período, a distância entre os dois grupos se ampliou consideravelmente: os alimentos avançaram 166,7%, contra 111,7% do IPCA. Ou seja, a inflação dos alimentos passou a superar a média geral em 1,78 ponto percentual ao ano — um salto que não pode ser ignorado.
Fonte: Elaborado pelo autor com dados do IPCA IBGE
Fonte: Elaborado pelo autor com dados do IPCA IBGE
Essa trajetória acelerada se traduziu em maior peso relativo na composição da inflação. Entre 2000 e 2011, a alimentação no domicílio respondia por cerca de 16% do resultado do IPCA, enquanto os Transportes lideravam com 20%. A partir de 2012, esse cenário se inverteu: os alimentos passaram a responder por 19% da inflação acumulada, enquanto os Transportes perderam espaço, respondendo por 16%.
Fonte: Elaborado pelo autor com dados do IPCA IBGE
Fonte: Elaborado pelo autor com dados do IPCA IBGE
A mudança de protagonismo é resultado de uma combinação de fatores. Por um lado, temos os choques climáticos, que se tornaram mais frequentes e intensos, pressionando os preços de safras importantes. Por outro, o encarecimento de insumos agrícolas — fertilizantes, defensivos, energia e transporte — adiciona volatilidade e tendência altista aos preços ao produtor, com impacto direto no varejo. Some-se a isso a desvalorização cambial e temos o cenário perfeito para a elevação sistemática dos preços.
Além disso, os alimentos têm características específicas que amplificam sua percepção pública. Trata-se de um grupo com forte apelo social e impacto direto na renda disponível das famílias, sobretudo daquelas com menor poder aquisitivo. Por isso, mesmo quando o peso estatístico não se altera de forma dramática, o destaque dado à alta dos alimentos se justifica: afeta o cotidiano, reconfigura hábitos de consumo e pressiona as expectativas inflacionárias.
Em suma, os alimentos saíram da sombra e se tornaram atores centrais na trajetória da inflação brasileira. Ignorar essa transição estrutural é subestimar um vetor essencial para a compreensão da economia do país nos últimos anos — e, possivelmente, para os que ainda virão.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
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