A controvérsia sobre as causas da concentração na economia americana

10/09/2018

Este artigo foi originalmente publicado pelo Broadcast da Agência Estado em 24/8/18.

A conferência recente do Fed em Jackson Hole teve como tema o aumento da concentração na economia americana e seus efeitos sobre a política monetária. Esse é um tópico bastante controverso, cujas implicações se estendem ao debate sobre o baixo crescimento da produtividade e a elevação da desigualdade salarial nos Estados Unidos.

Vários indicadores mostram que a concentração aumentou de forma generalizada na economia americana nas últimas três décadas. No comércio varejista, por exemplo, a participação das 4 maiores empresas no total de vendas subiu de 15% para 30%. Outros setores também tiveram aumento expressivo da concentração, como o setor financeiro (aumento de 24% para 35%) e utilidade pública e transportes (alta de 29% para 37%).

A questão que se coloca é se esse aumento de concentração reflete tendências negativas ou benignas. De um lado, existe a interpretação de que esse fenômeno evidencia o maior poder de mercado de grandes empresas. Uma evidência nesse sentido é a elevação da margem média (markup) em relação ao custo marginal de 18% para 67% entre 1980 e 2014. Isso indica que novas empresas enfrentam barreiras à entrada e dificuldades crescentes em contestar a posição de mercado das empresas já estabelecidas.

Segundo trabalho recente de Simcha Barkai, pesquisador da London Business School, a parcela dos lucros no PIB nos Estados Unidos teve um aumento de mais de 12 pontos percentuais desde a década de 1980. Essa medida de lucro representa o excesso da remuneração do capital em relação ao que seria obtido em um mercado competitivo. Nesse sentido, é uma medida de ganho decorrente de poder de mercado e não de maior eficiência.

Uma interpretação que vai na direção oposta foi apresentada em Jackson Hole por John Van Reenen. Segundo o pesquisador do MIT, a redução dos custos de comercialização e o surgimento de plataformas digitais teriam propiciado as condições para que as empresas mais produtivas se tornassem dominantes no mercado. Nesse caso, o aumento da concentração refletiria a expansão das empresas mais eficientes e não um aumento de barreiras à entrada.

De acordo com essa visão, o aumento do markup e a queda da participação da renda do trabalho no PIB foram consequência da realocação dos recursos produtivos para empresas mais produtivas, que em média caracterizam-se por uma margem mais elevada em relação aos custos e maior intensidade de capital.

Nesse contexto, o aumento da desigualdade salarial teria resultado da disparidade de salários entre as empresas. Enquanto os trabalhadores empregados em empresas dominantes têm remuneração elevada, aqueles empregados em firmas menores recebem salários bem inferiores.

Van Reenen também argumenta que os setores que tiveram aumento de concentração tiveram grandes ganhos de produtividade. No caso do comércio, em particular, as novas tecnologias propiciaram ganhos de escala e uma consolidação do setor, com a maior parte da produção e do emprego se deslocando de pequenas firmas para empresas mais produtivas de grande porte.

Uma dificuldade com essa interpretação do aumento da concentração na economia americana é que ela deveria estar associada a um crescimento mais rápido da produtividade e não uma desaceleração, como tem ocorrido desde meados da década de 2000.

Segundo Van Reenen, o efeito positivo sobre a produtividade associado à realocação dos recursos para empresas mais eficientes teria sido parcialmente anulado por fatores que tiveram impacto negativo, como o esgotamento dos ganhos associados à Terceira Revolução Industrial e a necessidade de mudanças organizacionais para que a inteligência artificial produza plenamente seus efeitos.

Em resumo, existem duas visões muito diferentes sobre as causas do aumento de concentração nos Estados Unidos. Dependendo da hipótese que for correta, as implicações macroeconômicas podem ser bastante distintas.

Embora a hipótese de queda da competição seja consistente com a desaceleração do crescimento da produtividade, é difícil conciliá-la com a baixa taxa de inflação. Por outro lado, a interpretação de que a concentração reflete a dominância de empresas produtivas ajuda a explicar a baixa inflação, mas tem dificuldade de racionalizar a estagnação recente da produtividade agregada.

Isso sugere que provavelmente as duas hipóteses contribuem com alguma parcela da explicação, embora sua importância relativa ainda não esteja clara. Também é possível que em alguns mercados, como o comércio, prevaleçam os efeitos positivos de ganhos de escala, enquanto em outros, como o setor financeiro, tenha havido queda da competição.

O que parece mais consensual é que, mesmo que a interpretação benigna da concentração esteja correta, e empresas como Apple, Google, Facebook e Amazon tenham construído sua posição de dominância graças à sua maior eficiência, existe a possibilidade de que venham a utilizar (ou já estejam utilizando) essa posição para criar barreiras à entrada e reduzir a competição.

 

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

Deixar Comentário

Veja também