Energia

Disseminando inovação em minigrids na Amazônia

26 out 2022

Minigrids de 3ª geração (MG3G) combinam tecnologias inovadoras, políticas específicas e regulação para mitigar riscos e alavancar investimentos, e podem ajudar a descarbonizar sistemas isolados na Amazônia, substituindo diesel.

Dados recentes atestam o sucesso do programa de universalização dos serviços de eletricidade no Brasil: mais de 99,8% da população é atendida por redes em um país de renda média, grande extensão territorial e com vastas regiões de baixa densidade demográfica. O Programa Luz pra Todos (PLPT) é o grande vetor por trás dessa realidade. Desde 2004, mais de 50 milhões de pessoas foram beneficiadas.

Apesar do seu sucesso, ainda há dois importantes desafios na margem do sistema elétrico no país: substituir geração a combustíveis fósseis, principalmente a diesel, nos chamados sistemas isolados (SISOL); e garantir acesso à eletricidade a mais de 400.000 famílias que ainda não têm. A solução proposta pelo governo para esse caso é através do Programa Mais Luz para a Amazônia (MLA), criado em 2021 e estendido em junho deste ano, junto com o PLPT. Mas soluções inovadoras podem produzir bons resultados econômicos, sociais e ambientais. Essa é uma discussão muito oportuna quando já se começa a pensar no pós-eleições e se aproxima a COP 27.

Para enfrentar o tema do acesso a eletricidade por meio de tecnologias de energia limpa na Amazônia, em setembro do ano passado a Eletrobras e o BNDES submeteram proposta de “Compact”, na plataforma da ONU. Trata-se de compromisso voluntário para acelerar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7 (ODS 7), que visa garantir acesso a energia limpa, segura, confiável e que cabe no bolso de todos.

Os Compacts consistem em acordos pelos quais parceiros públicos, privados, representantes da sociedade civil e academia, dentre outros, firmam compromisso para atingir objetivo alinhado ao Acordo de Paris para Mudanças Climáticas. No caso mencionado, o foco é a descarbonização dos sistemas isolados, substituindo geração a diesel no horizonte 2021-2030. Na arquitetura vigente, a evolução no cumprimento dos acordos é acompanhada e admite ajustes e correções de rotas.

Para acelerar o Compact da Eletrobras com BNDES, vale buscar inspiração na experiência descrita em relatório recente intitulado “Minigrids for half a billion people”. Produzido pelo ESMAP, programa de assistência administrado pelo World Bank (WB), o documento se debruça sobre os minigrids de terceira geração (MG3G) como soluções escaláveis para garantir acesso a eletricidade de alta qualidade e confiabilidade.  

Minigrids (MG) são sistemas de geração e distribuição de eletricidade que fornecem eletricidade em escala que vai desde um pequeno número de consumidores em comunidades remotas até centenas ou milhares de usuários em cidades. Os MG3G incluem componentes de geração solar, distribuição, medição e consumo de eletricidade. Nas etapas iniciais, a fonte solar pode ser combinada (hibridização) com alguma geração a diesel pré-existente para garantir confiabilidade. No caso do Brasil, o relatório se refere aos sistemas isolados como MG de segunda geração, que poderiam ser atualizados com ganhos econômicos, sociais e ambientais. 

A inovação na abordagem do WB é muito mais do que tecnológica: combina a adoção de tecnologias inovadoras com adaptação de políticas e regulação para catalisar uma governança que permita mitigar riscos e alavancar capital e investimentos. Vale ilustrar: a incerteza da demanda por eletricidade pode ser muito grande, variando de 5 a 35 kWh/mês/usuários.  Em muitos casos, a disponibilidade de acesso a eletricidade gera incentivo a novos usos não identificados no projeto inicial – além de iluminação, entram geladeiras, computador, mas também telecomunicação, consumos de um hospital ou de um pequeno comércio.

A grande variação potencial da demanda de eletricidade nos MG afeta a conta e o risco do investimento dos desenvolvedores e ofertantes. Para lidar com o problema, nos projetos são exploradas oportunidades de acesso a mais de 130 equipamentos com retorno (payback) inferior a um ano identificados como forma de geração de renda. Essas atividades são instrumento de derisking: ao aumentar a demanda durante o dia, quando a geração solar é maior, contribuem para bem-sucedido projeto de MG.

Os ganhos de eficiência alcançados pelos MG3G são significativos: a medida de custos nivelados da tecnologia (Levelized Cost of Electricity, na sigla em inglês), que a valores de 2021 é US $ 0,38/kWh, pode cair para US $ 0,28/kWh quando o fator de carga (proxy para utilização) atinge 40% – o maior uso do sistema ajuda a amortizar o investimento. A redução é ainda maior quando a demanda é otimizada pelo uso de equipamentos para geração de renda pelos usuários, atingindo US$ 0,20/kWh. Esse último valor é menor que as tarifas cobradas por grande parte das utilities na região considerada pelo estudo, alguns países da África; e muito menor do que o valor correspondente para o SISOL aqui, cujos custos são transferidos aos demais usuários do sistema.

Correndo o risco de repetir argumento que já usei em artigos anteriores, o Brasil já soube dar respostas de política para as crises de energia da década de 1970, que condicionaram nossa matriz energética e explicam em grande a predominância das tecnologias de energia limpa. As projeções do ESMAP são de que MG3G alcançam custos muito inferiores ao que temos hoje nos sistemas isolados. Essa é uma grande oportunidade de promover inovação e disseminar o uso de tecnologias de energia limpa para garantir o atendimento do ODS 7 na Amazonia.


Esta coluna foi publicada originalmente em 25/10/2022, terça-feira, pelo Broadcast da Agência Estado.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da autora, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

Comentários

Cyro Barbosa Be...
Onde obter maiores informações e modelos de projetos que poderíamos participar? Obrigado

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