Inserção e rendimentos das mulheres no mercado de trabalho do Nordeste

Apenas 45% das mulheres nordestinas em idade ativa estão no mercado de trabalho, e a taxa de desocupação feminina é de 10%. O valor médio dos rendimentos do trabalho das mulheres é equivalente a 87% daquele dos homens.
Introdução
O mês de março é dedicado à celebração das lutas e conquistas das mulheres, é um momento oportuno para reflexões sobre os avanços e desafios ainda presentes na busca por igualdade de gênero. Em específico, a data celebrada no dia 8 de março, foi oficializada pela ONU em 1975, com o objetivo de chamar a atenção para as questões de igualdade de gênero e direitos das mulheres em todo o mundo.
Neste texto realizamos uma breve análise de indicadores relacionados à participação das mulheres no mercado de trabalho. A análise não tem a propósito de ser exaustiva, mas de sinalizar alguns desafios ainda persistentes e avanços a respeito da participação feminina no mercado de trabalho no Brasil. Em todos os indicadores também enfatizamos as diferenças regionais, que no Brasil, são muito significativas.
Para os indicadores de participação e ocupação no mercado de trabalho, utilizamos os dados mais recentes da PNAD Contínua trimestral, referentes ao 4º trimestre de 2024. Para caracterizar a disparidade salarial por sexo, calculamos a razão entre os rendimentos médios das mulheres em relação ao rendimento médio dos homens. Neste caso utilizamos informações para todo o período de 2012 a 2024.
Participação e ocupação
No quarto trimestre de 2024, mais de 48,5 milhões de mulheres estavam compondo a força de trabalho no Brasil. Em termos absolutos, esse é o maior contingente feminino na força de trabalho já registrado. Isso se traduz em uma taxa de participação de 53,1%, ou seja, de cada 100 mulheres em idade ativa, 53 estão na força de trabalho, ocupadas ou buscando emprego. Para fazer um paralelo, entre os homens a taxa de participação na força de trabalho é de 72,7%.
Em termos relativos, esta estimativa, no entanto, não caracteriza a maior taxa de participação entre as mulheres. Considerando toda a série da PNAD Contínua, a maior taxa de participação foi estimada em 54,6%, no terceiro trimestre de 2019.
A Tabela 1, a seguir, apresenta dados a respeito das taxas de participação e das taxas de desocupação por sexo, para o Brasil e para as regiões.
Tabela 1. Taxas de participação e desocupação por sexo – Brasil e regiões (2024.T4)
Taxas de Participação (%) |
Taxas de desocupação (%) |
|||
Homens |
Mulheres |
Homens |
Mulheres |
|
Brasil |
72,7 |
53,1 |
5,1 |
7,6 |
Norte |
73,5 |
48,6 |
5,6 |
8,7 |
Nordeste |
66,4 |
44,9 |
7,1 |
10,7 |
Sudeste |
74,5 |
56,5 |
4,9 |
7,1 |
Sul |
75,8 |
58,1 |
2,9 |
4,4 |
Centro-Oeste |
77,5 |
58,0 |
3,9 |
6,4 |
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE trimestral (2024.T4).
A participação das mulheres no mercado de trabalho é bem diferenciada entre as regiões. Nas regiões Sul e Centro-Oeste, a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho foi estimada em aproximadamente 58%. Na região Sudeste em 56,5%. Nas regiões Norte e Nordeste, as taxas de participação femininas foram calculadas em 48,6% e 44,9%, respectivamente. Entre os homens, as diferenças regionais são menos marcantes: 77,5% no Centro-Oeste; 75,8% no Sul; 74,5% no Sudeste, 73,5% no Norte e 66,4% no Nordeste.
Das 48,5 milhões de mulheres que estavam na força de trabalho no último trimestre de 2024, 44,8 milhões estavam ocupadas, o que representa 92,4% da força de trabalho feminina. Infelizmente, 3,6 milhões de mulheres se encontravam desocupadas (desempregadas); contingente que compõe uma taxa de desocupação de 7,6% da força de trabalho feminina. Entre os homens, a taxa de desocupação no mesmo período foi calculada em 5,1%.
Conforme se pode verificar na Tabela 1, as diferenças regionais na taxa de desocupação são marcantes. No Nordeste, a taxa de desocupação feminina foi estimada em 10,7%. Na região Sul, esse percentual é significativamente menor, 4,4%. Nas demais regiões foram calculadas taxa de desocupação de 8,7% no Norte, 7,1% no Sudeste e 6,4% no Centro-Oeste.
A taxa de desocupação entre os homens, também é bastante desigual entre as regiões, mas o fato que se destaca é a diferença de inserção no mercado de trabalho por sexo, mesmo dentro de mesma região. Para a população masculina, as taxas de desocupação foram estimadas em: 2,9% no Sul; 3.9% no Centro-Oeste; 4,9% no Sudeste, 5,6% no Norte e 7,1% no Nordeste.
Rendimentos e desigualdade salarial
Um dos aspectos que mais representam as desigualdades no mercado de trabalho diz respeito ao diferencial de salários entre homens e mulheres. Com dados da PNAD Contínua trimestral, empregamos a variável de rendimento médio real, habitualmente recebido em todos os trabalhos.
As estimativas de rendimentos médio mostram que, no quarto trimestre de 2024, o valor médio entre as mulheres era de R$ 2.873, enquanto entre os homens esse valor era de 3.647. Com base nestes valores, a razão de rendimentos mostra que as mulheres auferiam um rendimento médio equivalente a 79% do rendimento médio dos homens.
Tabela 2. Rendimento médio por sexo e razão do rendimento médio – Brasil e regiões (2024.T4)
Rendimento médio (R$ de 2024.T4) |
Razão do rendimento médio (mulheres/homens) |
||
Homens |
Mulheres |
||
Brasil |
3.647 |
2.873 |
0,79 |
Norte |
2.707 |
2.319 |
0,86 |
Nordeste |
2.413 |
2.102 |
0,87 |
Sudeste |
4.177 |
3.182 |
0,76 |
Sul |
4.145 |
3.136 |
0,76 |
Centro-Oeste |
4.295 |
3.138 |
0,73 |
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE trimestral (2024.T4).
Direcionando a análise para as diferenças regionais, se verifica que nas regiões Nordeste e Norte, onde os rendimentos são relativamente menores, a diferença de rendimentos do trabalho por sexo também são menores. Na região Nordeste, o rendimento médio entre as mulheres é equivalente a 87% do rendimento médio entre os homens. Na região Norte essa proporção é de 86%. Nas demais regiões a proporção entre o rendimento médio das mulheres e o dos homens são de 73% na região Centro-Oeste e 76% nas regiões Sul e Sudeste.
O gráfico da Figura 1 apresenta a razão de rendimento médio entre mulheres e homens. Essa medida é bastante eficaz para ilustrar a desigualdade salarial entre os sexos, pois permite comparações temporais e regionais diretas, independentemente dos níveis salariais absolutos. O gráfico apresenta a evolução da razão entre os rendimentos médios das mulheres e dos homens ao longo do tempo, desagregado por região e para o Brasil como um todo. Quanto mais próxima da unidade a razão estiver, menor desigualdade retratada, enquanto valores mais baixos sugerem maior disparidade por sexo.
Figura 1. Razão de rendimento médio (proporção do rendimento médio
das mulheres em relação ao rendimento médio dos homens)
– Brasil e regiões (2012-2014)
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE trimestral (2012-2024).
A linha tracejada preta, representando a razão de rendimentos para o Brasil, mostra um crescimento gradual ao longo do tempo. No quarto trimestre de 2024, o valor de 0,79, indica que, em média, as mulheres recebem 79% do salário dos homens. As regiões Norte (linha verde) e Nordeste (linha vermelha) apresentam os maiores valores dessa razão, indicando menor disparidade salarial entre os gêneros. As informações mais recentes indicam que o rendimento médio das mulheres na região Nordeste equivale a 87% do rendimento médio recebido pelos homens. Na região Norte esse percentual é de 86%.
As razões calculadas para as regiões Sudeste (azul) e Sul (roxo) exibem as menores razões em boa parte da série temporal, mas as razões calculadas para a região Centro-oeste se tornaram a menor nos últimos anos. Nestas regiões o rendimento médio das mulheres se encontra próximo de 75% do salário médio dos homens, indicando maior desigualdade salarial de gênero.
Nesse contexto de comparação regional, a menor desigualdade de rendimentos nas regiões Norte e Nordeste é uma evidência relevante. Nestas regiões também se verifica um crescimento na proporção dos rendimentos das mulheres ao longo do período.
Nestas regiões os níveis de rendimentos são relativamente menores, o que potencialmente pode ser derivado de uma distribuição de rendimentos com menor amplitude e mais concentra em valores menores, em razão da concentração de ocupações em setores e funções com menores remunerações e elevada informalidade.
Por exemplo, quando avaliamos os diferentes grupamentos ocupacionais considerados na PNAD Contínua, verifica-se que “Diretores e gerentes” é o que possui o maior valor de rendimento médio, seguido por “Membros das forças armadas, policiais e bombeiros militares” e “Profissionais das ciências e intelectuais”. A participação feminina nestes grupamentos é um fator relevante. As mulheres representam 39% dos ocupados no grupamento de “Diretores e gerentes” e apenas 10% entre os “Membros das forças armadas, policiais e bombeiros militares”. Por sua vez, as mulheres correspondem a 59% dos ocupados no grupamento de “Profissionais das ciências e intelectuais”.
Analisando o Nordeste com mais detalhes
A desigualdade de gênero no mercado de trabalho nordestino é evidente, com as mulheres enfrentando tanto menor participação quanto maior desocupação. Como apresentado anteriormente, os rendimentos auferidos pelas mulheres são relativamente menores. A tabela 3 e 4 sintetizam os indicadores mais recentes para os estados nordestinos.
A taxa de participação no mercado de trabalho é consistentemente menor entre as mulheres, variando entre 40,4% no Maranhão e 49,2% na Bahia.
Quanto a taxa de desocupação, se verifica que as mulheres possuem um desafio adicional de inserção no mercado de trabalho em todos os estados. Os estados da Bahia (12,6%) e Pernambuco (12,9%) apresentam as maiores taxas de desocupação feminina, e estes estados também apresentem as maiores taxas de desocupação entre os homens.
No que diz respeito aos rendimentos, as maiores diferenças salariais absolutas são observadas em Pernambuco (R$ 2.691 para homens e R$ 2.263 para mulheres) e Rio Grande do Norte (R$ 2.763 para homens e R$ 2.338 para mulheres).
Tabela 3. Taxas de participação e desocupação por sexo – Nordeste (2024.T4)
Taxas de Participação (%) |
Taxas de desocupação (%) |
|||
Homens |
Mulheres |
Homens |
Mulheres |
|
Maranhão |
62,8 |
40,4 |
6,2 |
7,8 |
Piauí |
65,9 |
44,3 |
7,1 |
8,2 |
Ceará |
62,9 |
41,9 |
5,6 |
7,6 |
Rio Grande do Norte |
65,9 |
42,2 |
7,2 |
10,5 |
Paraíba |
66,9 |
44,2 |
7,2 |
10,1 |
Pernambuco |
67,7 |
46,2 |
8,1 |
12,9 |
Alagoas |
65,1 |
42,4 |
6,4 |
10,5 |
Sergipe |
70,9 |
47,2 |
6,3 |
11,3 |
Bahia |
69,3 |
49,2 |
7,9 |
12,6 |
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE trimestral (2024.T4).
A proporção do rendimento médio feminino em relação ao masculino varia entre 0,81 e 0,93. As mulheres do Maranhão e da Paraíba apresentam os maiores índices de paridade salarial (93% do rendimento médio dos homens). Já Alagoas (0,81), Pernambuco (0,84) e Rio Grande do Norte (0,85) têm as maiores disparidades salariais entre os gêneros.
Tabela 4. Rendimento médio por sexo e razão do rendimento médio – Nordeste (2024.T4)
Rendimento médio (R$ de 2024.T4) |
Razão do rendimento médio (mulheres/homens) |
||
Homens |
Mulheres |
||
Maranhão |
2.122 |
1.982 |
0,93 |
Piauí |
2.525 |
2.194 |
0,87 |
Ceará |
2.262 |
2.014 |
0,89 |
Rio Grande do Norte |
2.763 |
2.338 |
0,85 |
Paraíba |
2.493 |
2.310 |
0,93 |
Pernambuco |
2.691 |
2.263 |
0,84 |
Alagoas |
2.550 |
2.064 |
0,81 |
Sergipe |
2.673 |
2.335 |
0,87 |
Bahia |
2.255 |
1.955 |
0,87 |
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE trimestral (2024.T4).
Considerações finais
A análise apresentada evidencia que, apesar dos avanços observados nas últimas décadas, as mulheres ainda enfrentam desafios estruturais significativos no mercado de trabalho brasileiro. A menor taxa de participação feminina e as maiores taxas de desocupação indicam que as barreiras à inserção das mulheres na força de trabalho permanecem expressivas, especialmente em algumas regiões do país, como o Nordeste.
O diferencial de rendimentos entre homens e mulheres também persiste, embora sua magnitude varie entre as regiões. A menor desigualdade salarial observada no Norte e Nordeste pode estar associada a uma menor dispersão dos rendimentos e à predominância de empregos em setores de baixa remuneração e alta informalidade. No entanto, mesmo nesses contextos, a participação feminina segue inferior à masculina, reforçando a necessidade de medidas que incentivem a inserção e a permanência das mulheres no mercado de trabalho.
Além das diferenças de participação e rendimento, a segregação ocupacional se apresenta como um dos principais fatores que perpetuam as desigualdades de gênero. As mulheres ainda são minoria em ocupações de maior remuneração, e essa distribuição reflete tanto escolhas individuais quanto barreiras estruturais, como normas culturais, responsabilidades familiares desproporcionais e dificuldades na conciliação entre trabalho e vida pessoal.
Parte significativa dessa desigualdade decorre de normas sociais e culturais que influenciam tanto as decisões das mulheres quanto as práticas dos empregadores. A divisão do trabalho doméstico, a socialização de meninas e meninos e as expectativas sobre papéis de gênero desempenham um papel central na perpetuação das diferenças salariais (Goldin, 2014[i]; Blau & Kahn, 2017[ii]). Como esses fatores são pouco sensíveis a intervenções governamentais diretas, a transformação desse cenário depende, em grande medida, da evolução das percepções sociais e da consolidação da equidade de gênero como um valor fundamental. Medidas voltadas para a educação, maior representatividade feminina em cargos de liderança e a conscientização sobre vieses nas decisões de contratação e promoção podem desempenhar um papel essencial na redução dessas desigualdades ao longo do tempo.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
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