Trabalho

Oferta de trabalho e rotatividade: as causas da escassez de mão de obra

27 mar 2025

Redução da taxa de participação explica escassez de mão de obra nos serviços, mas alta rotatividade afeta ocupações de maior qualificação.

O mercado de trabalho brasileiro vive um momento paradoxal: nunca houve tantos ocupados, mas ainda assim muitos empregadores relatam dificuldades em preencher vagas. Empresários de setores diversos, da indústria ao agronegócio, apontam a existência de postos abertos que não estão sendo preenchidos, o que caracteriza um quadro de “escassez de mão de obra” ou falta de trabalhadores disponíveis e/ou qualificados.

Uma das causas dessa escassez pode ser a redução da oferta de trabalho, seja porque menos pessoas procuram emprego, seja porque trabalhadores têm optado por jornadas menores. Programas sociais, como o Bolsa Família, embora importantes para a redução da pobreza, podem reduzir o interesse pela ocupação formal para alguns grupos, sobretudo quando falta clareza sobre a possibilidade de conciliar o benefício com um contrato de trabalho. Esse fator teve papel relevante durante a expansão do programa entre 2021 e 2023, mas, desde então, não houve novos aumentos desse gasto social. 

Adicionalmente, a rotatividade dos trabalhadores, ou seja, o “entra e sai” frequente de funcionários, também contribui significativamente para essa escassez. Embora muitas vezes seja atribuída apenas a fatores externos, o turnover elevado pode ter origem em desmotivação, falta de perspectiva de crescimento ou insatisfação com condições de trabalho. Em contrapartida, há empresas que ainda não adotam estratégias eficazes de retenção, deixando de investir em formação contínua, planos de carreira e ambientes que estimulem a permanência dos funcionários.

É importante lembrar que, nos primeiros meses de um emprego, o funcionário está em fase de integração e treinamento, o que gera custos elevados para o empregador. Antes mesmo disso, há também um processo seletivo trabalhoso e caro, que envolve triagem de currículos, entrevistas e, muitas vezes, testes práticos ou psicológicos. Quando o empregado decide sair de forma voluntária ainda no início de sua jornada na empresa, todo esse investimento se perde ou, no mínimo, não é aproveitado em sua totalidade, provocando nova abertura de vaga, que contribui para a sensação de “falta de mão de obra”.

Oferta de Trabalho

A oferta de trabalho no Brasil ainda não retornou ao nível pré-pandemia, quando a taxa de participação estava em cerca de 63,6%. No final de 2024, o indicador chegou a 62,6%, valor próximo ao registrado em 2021, mas abaixo do patamar de 2019. Durante esse período, houve oscilações importantes, com queda considerável nos anos de 2022 e 2023, em parte motivada pelas expansões do Bolsa Família, que reduziram os incentivos à entrada ou permanência no mercado de trabalho para alguns grupos. No último ano, observou-se uma recuperação parcial, mas ainda insuficiente para se retornar ao nível de antes da crise sanitária.

A taxa de participação total, no entanto, esconde diferentes níveis e tendências para muitos grupos distintos de trabalhadores. Diferentes setores da economia demandam diferentes tipos de trabalhadores, com comércios e serviços básicos contratando trabalhadores mais jovens e de menor qualificação, enquanto indústria e serviços complexos exigem trabalhadores de maior experiência e escolaridade. O gráfico abaixo mostra a taxa de participação de 2019, e a diferença entre 2019 e 2024, de vinte quatro grupos demográficos, subdivididos por sexo (homem/mulher), idade (jovem de 14 a 29, maduro de 30 a 59, e idoso de 60+) e escolaridade (sem educação formal, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior).

 

Gráfico 1: Taxa de Participação de Diferentes Grupos Demográficos – 4º Trimestre

Fonte: PNADC (IBGE). Elaboração: FGV IBRE.

 

O gráfico indica que, para determinados segmentos, especialmente jovens de baixa escolaridade, a redução na taxa de participação ao longo desses cinco anos foi ainda mais intensa, em torno de 6 pontos percentuais. Além disso, diferentemente da taxa geral, esses grupos não apresentaram uma retomada expressiva em 2024, mas, sim, uma queda contínua ao longo do período. Isso é particularmente relevante porque, em 2019, esses jovens tinham participação significativa no mercado de trabalho, em torno de 50%.

Em consequência, há indícios de que uma parte da atual escassez de mão de obra está relacionada a essa diminuição da oferta de trabalho entre grupos específicos. As explicações para esse fenômeno vão desde o maior incentivo a permanecer estudando ou retornar os estudos até o fato de que o Bolsa Família pode ter se tornado relativamente mais atraente do que empregos com salários baixos e condições precárias. Essa soma de fatores faz com que empresas enfrentem um quadro de menor disponibilidade de trabalhadores em certas faixas de idade e escolaridade.

Ainda assim, é importante ressaltar que o setor de serviços deve sentir de forma mais forte esse impacto, já que tradicionalmente absorve grande parte da mão de obra jovem e de menor escolaridade. Esses trabalhadores, ao optarem por não participar ou postergar a entrada no mercado, contribuem para a formação de uma lacuna de mão de obra em posições iniciais e funções operacionais, dificultando processos de contratação.

Rotatividade

Em adição aos efeitos da oferta de trabalho, é necessário entender o potencial papel da rotatividade para a escassez de mão de obra. A formatação de painel da PNAD Contínua, que permite acompanhar o mesmo trabalhador por até cinco trimestres, possibilita analisar mudanças de ocupação ao longo do tempo. A partir desses dados, é possível observar como os fluxos de entrada e saída de empregos variam em cenários diferentes, incluindo pré e pós pandemia de Covid-19, como mostra o gráfico abaixo.

Gráfico 2: Percentual de Trabalhadores que Mudaram de Ocupação entre o 4º Trimestre de Dois Anos

Fonte: PNADC (IBGE). Elaboração: FGV IBRE.

De acordo com o gráfico, o percentual de trabalhadores que mudaram de ocupação nesse período de cinco trimestres estava entre 12% e 13% antes de 2020. A pandemia e suas consequências no mercado de trabalho parecem ter impulsionado esse indicador, pois em 2022 atingiu 14,1%. Já em 2023, houve certa reversão, com 12,7%, mas seguiu-se novo aumento para 13,7% em 2024.

Embora as elevações aparentem ser relativamente marginais, é importante contextualizar que elas ocorrem em um ambiente no qual a base de pessoas procurando ocupação diminui significativamente a cada ano. Entre 2018 e 2019, havia cerca de 12 milhões de pessoas desocupadas, ou seja, em busca de emprego. Esse número caiu para 8,5 milhões em 2022 e chegou a 6,8 milhões em 2024, demonstrando um encolhimento significativo de trabalhadores disponíveis no mercado. Somando esses dois fenômenos, cria-se um quadro de maior escassez de mão de obra. Empresas que buscam contratar enfrentam um mercado menos abastecido de potenciais trabalhadores, o que pode resultar em dificuldades para encontrar perfis qualificados ou dispostos a aceitar determinadas condições de trabalho.

A elevação da rotatividade no mercado de trabalho brasileiro pode ser explicada, em parte, por fatores estruturais. Historicamente, o Brasil apresenta alta taxa de troca de emprego em relação a outros países, o que está relacionado a baixos ganhos de produtividade à medida que o trabalhador adquire experiência e à menor preferência das empresas por investir em treinamento de longo prazo. Nessas condições, o custo de trocar de ocupação ou substituir a força de trabalho torna-se relativamente menor, favorecendo ciclos mais frequentes de demissão e contratação.

Além disso, há aspectos institucionais que incentivam as trocas de emprego. As regras do seguro-desemprego, por exemplo, podem estimular o trabalhador a encerrar seu vínculo formal para receber o benefício, especialmente quando as taxas de desemprego estão mais baixas e é mais fácil encontrar ocupação. Esse comportamento reflete-se no aumento do gasto governamental recente com seguro-desemprego, mesmo em contexto de menor desocupação.

Outro fator decisivo é o aquecimento econômico e do mercado de trabalho em determinados períodos, como ocorreu em 2022 e 2024. Em cenários de maior crescimento, surgem novas vagas e ofertas de remuneração mais atrativas, o que motiva parte dos trabalhadores a buscar melhores oportunidades. O resultado é uma intensificação do fluxo de saídas e entradas em diferentes setores, evidenciada pelo fato de que, nesses anos, quem mudou de emprego apresentou um crescimento superior no rendimento de trabalho entre o primeiro e o quinto trimestre, como mostra o gráfico abaixo.

Gráfico 3: Aumento Interanual Médio do Rendimento de Trabalho de Trabalhadores que Mudaram e Não Mudaram de Ocupação no Período

Fonte: PNADC (IBGE). Elaboração: FGV IBRE.

Observando o perfil dos trabalhadores que mudam de emprego, percebe-se que esses indivíduos têm, em média, um nível de escolaridade maior em comparação àqueles que mantêm a mesma ocupação, como mostra o gráfico abaixo. Adicionalmente, a diferença entre os anos de estudo desses dois grupos não apenas já existia em 2018 e 2019, mas se intensificou após a pandemia, principalmente a partir de 2022.

Gráfico 4: Anos de Estudo Médios de Trabalhadores que Mudaram e Não Mudaram de Ocupação no Período

Fonte: PNADC (IBGE). Elaboração: FGV IBRE.

Essa elevação na escolaridade média daqueles que mudam de trabalho pode estar relacionada a diversas motivações, como maior busca por oportunidades de crescimento, melhores salários e condições de trabalho. Além disso, trabalhadores com mais anos de estudo tendem a ser mais competitivos, o que faz com que trocas de emprego sejam facilitadas por ofertas atraentes em setores que necessitam de habilidades mais especializadas.

Consequentemente, a rotatividade recente impacta mais fortemente os setores de maior complexidade, a exemplo da indústria, justamente porque essas áreas demandam trabalhadores qualificados. Se os profissionais mais escolarizados estão mudando de emprego com maior frequência, torna-se mais difícil para as empresas reterem e substituírem esse grupo especializado, contribuindo para a percepção de escassez de mão de obra nesse segmento.

Conclusão

Em síntese, o mercado de trabalho brasileiro vem enfrentando um cenário em que a oferta de trabalhadores não retornou aos níveis pré-pandemia, ao mesmo tempo em que se observa um aumento relativo na rotatividade. Alguns grupos específicos, como jovens de menor escolaridade, reduziram significativamente sua participação na força de trabalho, ao passo que profissionais mais qualificados apresentaram maior tendência a mudar de emprego. Essa combinação de fatores contribui para o quadro de escassez de mão de obra generalizada.

Observa-se que a rotatividade elevada se deve tanto a causas estruturais, como o modelo de seguro-desemprego e a baixa ênfase em treinamento e retenção, quanto a fatores conjunturais, como o aquecimento da economia em períodos específicos. O resultado é um maior desequilíbrio entre oferta e demanda de profissionais. Enquanto setores que requerem habilidades menos complexas perdem potenciais trabalhadores que optam por não entrar no mercado de trabalho ou abandoná-lo, setores de maior especialização, como a indústria, disputam intensamente o grupo mais qualificado, que, por sua vez, encontra oportunidades de aumento salarial ao trocar de emprego.

Diante desse panorama, tornam-se essenciais políticas que contemplem tanto a formação e qualificação dos trabalhadores quanto a readequação de incentivos institucionais. Ao mesmo tempo, iniciativas de retenção de talentos e melhoria das condições de trabalho podem reduzir a rotatividade excessiva, proporcionando maior estabilidade às empresas e mais segurança aos trabalhadores.


Esta é a seção Em foco do Boletim Macro FGV IBRE de março de 2025.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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