A queda da competição na economia americana

27/04/2018

Como discuti na coluna passada (“Revisitando o Paradoxo da Produtividade”), uma das possíveis explicações do paradoxo de que as inovações tecnológicas não têm se traduzido em aumento da produtividade é que os efeitos positivos das novas tecnologias podem estar sendo capturados por poucas empresas.

De fato, Apple, Google, Amazon, Microsoft e Facebook estão entre as dez empresas com maior valor de mercado, o que pode indicar que os ganhos de produtividade estariam concentrados nessas empresas. Nesse caso, essa concentração estaria refletindo sua maior eficiência e capacidade de oferecer produtos de qualidade com menor preço.

No entanto, uma interpretação alternativa seria que essa concentração reflete, pelo menos em parte, a existência de barreiras à entrada, seja de natureza regulatória, ou criadas pelas próprias empresas. Em particular, o controle que essas empresas têm sobre dados pessoais pode representar uma barreira significativa à contestação de mercado por parte de entrantes potenciais.

Existem diversas evidências de que a concentração aumentou de forma generalizada na economia americana nas últimas três décadas. Dentre os seis grandes setores, a maior alta foi no setor de comércio varejista, em que a participação das 4 maiores empresas no total de vendas subiu de 15% para 30%, seguido do setor financeiro (aumento de 24% para 35%) e utilidade pública e transportes (alta de 29% para 37%).

Um aumento da concentração em si não caracteriza ineficiência, já que pode ter resultado da expansão de empresas produtivas e ganhos de escala. Mas, em vários setores, o que parece ter ocorrido foi uma queda da competição e maior grau de monopólio.

Desde a década de 1980, e especialmente a partir de 2000, vários indicadores de dinamismo da economia americana pioraram consideravelmente. A taxa de criação de firmas caiu bastante e a parcela do emprego em novas empresas teve uma queda de 30%.

Esse fenômeno foi disseminado em vários setores e áreas geográficas, e indica que novas empresas enfrentam barreiras à entrada e dificuldades crescentes em contestar a posição de mercado das empresas já estabelecidas.

Um trabalho recente estimou que a margem média (markup) em relação ao custo marginal aumentou de 18% em 1980 para 67% em 2014, e que isso refletiu um aumento de poder de mercado.

Esse aumento do grau de markup, por sua vez, teve várias implicações macroeconômicas, como o menor ritmo na realocação de mão de obra para empresas mais produtivas. Conforme abordado na última coluna, isso pode explicar parte da desaceleração do crescimento da produtividade.

Outra consequência foi a queda da participação da renda do trabalho no PIB. Da mesma forma que os indicadores de piora do grau de competição, a redução da parcela do trabalho na produção começou nos anos 1980, acelerou na década de 2000, e foi maior nos setores onde a concentração aumentou mais.

Segundo trabalho recente de Simcha Barkai, pesquisador da London Business School, a contrapartida da redução da participação da renda do trabalho foi uma elevação da parcela dos lucros no PIB nos Estados Unidos de mais de 12 pontos percentuais. Essa medida de lucro representa o excesso da remuneração do capital em relação ao que seria obtido em um mercado competitivo. Nesse sentido, é uma medida de ganho decorrente de poder de mercado e não de maior eficiência.

Essas pesquisas apontam ainda duas consequências adicionais da elevação do grau de monopólio. Primeiro, o grande aumento do markup implica que, em um ambiente de mais competição, a taxa de inflação seria ainda menor que a observada.

Segundo, na medida em que o preço das ações reflete o fluxo descontado de lucros futuros, essas evidências sugerem que o mercado acionário dos Estados Unidos está fortemente sobrevalorizado em relação ao seu valor de mercado em uma economia mais competitiva.

Por essas razões, uma eventual reversão da tendência de queda da competição das últimas décadas terá um impacto profundo na economia americana.

Esta coluna foi publicada originalmente no Broadcast da Agência Estado.

 

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