Razões da falta de foco e luz de Lula III
Com presidente de centro-esquerda, Congresso controlado pela direita e Planalto e gabinete inclinados à esquerda, maioria das propostas dos ministros de esquerda não é bem recebida pelo Legislativo de direita e vice-versa.
Maria Hermínia Tavares de Almeida, um dos grandes nomes da ciência política nacional, publicou, no começo de fevereiro, arguto e elegante artigo na Folha de São Paulo intitulado “Governo sem foco nem luz”.[1] O texto mostra como e por que Lula III carece desses dois atributos. Aqui se tenta complementar a análise feita por Tavares de Almeida.
Apesar do crescimento econômico e da baixa taxa de desemprego, “Nenhuma iniciativa do governo tem conseguido erguer o ânimo popular. Muito menos o das elites que desconfiam do mandatário e de seu partido”, sustenta a politóloga. A falta de ânimo, por sua vez, enfraquece o apoio ao Executivo dado pelos partidos de direita que integram a base do governo.
De acordo com a autora, as razões subjacentes à popularidade minguante de Lula dizem respeito (1) à estrutura institucional do país – a dispersão do poder entre vários atores com poder de veto e a decorrente necessidade de formar ministérios de coalizão geram um padrão decisório incremental e moroso –, (2) à situação política – um Congresso fortalecido pelas emendas impositivas tem maioria de direita, mas Lula e o PT são de centro-esquerda –, e (3) à ausência de clareza nos objetivos do governo.
Em entrevista ao Valor Econômico concedida dois dias antes da publicação do artigo na Folha de São Paulo, a Profa. Tavares de Almeida, tratando do mesmo tema, concluiu sua reflexão da seguinte maneira: “Eu não vejo uma situação como a da Dilma. Vejo um governo limitado pela configuração de forças no Congresso, por alguma perda de apoio na opinião pública e por suas fragilidades internas, localizadas no coração do governo, no Palácio do Planalto”[2].
Que fragilidades internas são essas? A fim de complementar a análise de Tavares de Almeida, cabe, em primeiro lugar, destacar os dados de César Zucco e Timothy Power, os quais indicam que o atual Congresso é o mais polarizado que tivemos desde o início do atual regime democrático em 1985; e que Lula III é o presidente mais distante da média ideológica dos partidos durante o mesmo período[3]. Ou seja, a situação política do atual governo é extraordinariamente difícil.
Ao formar um gabinete de coalizão com vários partidos de direita, Lula respondeu corretamente ao perfil do atual Poder Legislativo. Todavia, a composição do ministério privilegia o PT e os partidos de esquerda. Dos 28 ministros com filiação partidária, 17 são desses partidos (11 do PT, 2 do PSB, 1 do PSOL, 1 da Rede, 1 do PCdoB e 1 do PDT). Além disso, todos os ministros com assento no Palácio do Planalto são do PT. Convém lembrar que, em seu segundo mandato (2007-2011), Lula teve José Múcio Monteiro, filiado ao PTB (à época, de centro-direita), como ministro de Relações Institucionais, um dos principais ministérios palacianos.
Um presidente de centro-esquerda, muito distante ideologicamente de um Congresso controlado pela direita e com o Planalto e o gabinete inclinados à esquerda, não consegue ter foco nem luz porque a maioria das propostas que partem dos ministros de esquerda não é bem recebida pelo Legislativo de direita e vice-versa.
O problema descrito no parágrafo acima poderia ser resolvido com eficaz coordenação interministerial. Este seria o papel do ministro-chefe da Casa Civil. Coordenar implica fazer os diferentes ministérios agirem de forma coerente em prol da consecução dos principais objetivos nacionais do governo. Porém, o atual chefe da Casa Civil, Rui Costa, governador da Bahia entre 2015 e 2023, tem o peculiar hábito de reservar mais tempo em sua agenda para prefeitos baianos do que ministros de Estado[4]. Com tal grau de paroquialismo – a prevalência de interesses locais sobre os nacionais – presente no Palácio do Planalto, é muito difícil ter luz e foco.
Por último, o partido que mais chefia mais ministérios sob Lula III, o PT com 11 pastas, está envelhecido. A evidência é dada por César Felício: a média de idade dos deputados federais petistas eleitos em 2022 era de, aproximadamente, 56 anos, enquanto a média de idade de todos deputados federais eleitos naquele ano era de 49 anos[5]. O envelhecimento do PT não é consequência apenas da idade dos seus parlamentares. Resulta também da excessiva burocratização e profissionalização do partido. Como asseverou Jairo Nicolau, o PT se tornou um partido de quadros[6]. Os políticos que controlam uma tal agremiação acham que já sabem tudo para eleger seus candidatos, o que, por sua vez, entope os canais de comunicação com a sociedade e com intelectuais. Cumpre recordar que estes desempenharam papel vital na criação do partido há 45 anos. O PT, que deveria ser correia de transmissão de ideias novas para o governo, parece não ter nada de novo a transmitir.
Portanto, ao contrário do que disse recentemente Elio Gaspari, a reforma ministerial que se avizinha não precisa ser “um pesadelo inútil”[7]. É uma das últimas chances de que o governo dispõe para ter foco e luz.
Esta é a seção Observatório Político do Boletim Macro FGV IBRE de fevereiro de 2025.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
[1] Ver Maria Hermínia Tavares, Governo sem foco nem luz, Folha de São Paulo, 05/02/2025, disponível em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2025/02/governo-sem-foco-nem-luz.shtml.
[2] Ver Maria Hermínia Tavares, “Problema do governo não é o Centrão, é que ele não tem foco”, Valor Econômico, 03/02/2025, disponível em https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/02/03/problema-do-governo-nao-e-o-centrao-e-que-ele-nao-tem-foco.ghtml.
[3] Ver César Zucco e Timothy Power, “The Ideology of Brazilian Parties and Presidents: A Research Note on Coalitional Presidentialism Under Stress”, Latin American Politics and Society, vol. 66 , n. 1, 2024 , pp. 178-188, disponível em https://doi.org/10.1017/lap.2023.24.
[4] Ver “Rui Costa reserva mais espaço na agenda para prefeitos do que para ministros da Esplanada”, Folha de São Paulo, 06/05/2024, disponível https://www1.folha.uol.com.br/blogs/brasilia-hoje/2024/05/rui-costa-reserva-mais-espaco-na-agenda-para-prefeitos-do-que-para-ministros-da-esplanada.shtml.
[5] Ver César Felício, “O PT chega envelhecido aos 45 anos”, Valor Econômico, 09/02/2025, disponível em https://valor.globo.com/politica/pergunte-aos-dados/post/2025/02/o-pt-chega-envelhecido-aos-45-anos.ghtml.
[6] Ver Jairo Nicolau, “Nenhum partido resolveria facilmente a sucessão de Lula”, Nexo, 10/02/2025, disponível em https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2025/02/10/pt-partido-dos-trabalhadores-45-anos-historia-jairo-nicolau.
[7] Ver Elio Gaspari, “De Pedro II@edu para Lula@gov”, O Globo, 12/02/2025, disponível em https://oglobo.globo.com/opiniao/elio-gaspari/coluna/2025/02/de-pedro-iiedu-para-lulagov.ghtml.
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