Renda do trabalho tem trajetória negativa por categoria ocupacional nos últimos anos, o que é agravado pela pandemia

16/07/2021

Com mudanças nos indicadores de renda do IBGE, há hoje dificuldade de realizar análises dessa variável no médio prazo. Com os ajustes necessários, decompõe-se a variação dos rendimentos por efeito nível e composição, expondo trajetória negativa da média por cada grupo ocupacional.

A renda do trabalho tem gerado dificuldades de análises de longo prazo, devido a dois principais fatores: mudanças de conceitos e métodos de captação tanto da renda do trabalho habitual como efetivo, em diferentes momentos do tempo, e; mudanças de composição do mercado de trabalho, com diferentes composições dos trabalhadores ocupados ao longo do tempo, especialmente entre 2015-6 e após a pandemia, que geraram grandes e heterogêneas quedas do nível de ocupação.

Esse texto tem como objetivo abordar ambas as questões, de modo a realizar uma análise de médio/longo prazo da renda do trabalho, do primeiro trimestre de 2012 ao mesmo período de 2021. Primeiramente, é realizado um ajuste sazonal estático, ou seja, toma-se a relação média da renda em determinado trimestre e sua média anual no período analisado e ajustam-se os valores trimestrais por tal valor (uma explicação mais detalhada é exposta no anexo). Em seguida, são explicadas as formas de tratar as dificuldades de análise discutidas no parágrafo anterior.

Primeiramente, o IBGE mudou a forma de captar a renda do trabalho efetivamente recebida no quarto trimestre de 2015, introduzindo “perguntas de apoio”, de modo a ajudar os entrevistados a lembrar de rendimentos do trabalho previamente ignorados. Com isso, a série passou por uma mudança estrutural, de modo a impossibilitar uma análise da série sem tratamento. Já a renda do trabalho habitual, que não tinha passado por qualquer alteração até 2020, passou a ser perguntada para os entrevistados em relação ao período anterior à pandemia, mudando seu próprio conceito nesse período. Tais mudanças introduziram estranhos comportamentos nas séries, evidenciados abaixo.


Fonte: PNADC

Desse modo, será usada apenas a série de rendimento efetivo. Para lidar com a mudança da metodologia de captação, entre o quarto trimestre de 2014 e o terceiro de 2015, a renda efetiva seguirá a variação da renda habitual, aplicada ao nível posterior. Para os períodos até o terceiro trimestre de 2014, será usada a variação da própria renda efetiva, mas aplicada ao novo nível (a fórmula é exposta no apêndice). O Gráfico abaixo mostra o comportamento da série com e sem ajuste.


Fonte: Elaboração própria com os dados da PNADC

Finalmente, para analisar a evolução da renda do trabalho, é preciso levar em consideração que o Brasil tem diferentes níveis médios de remuneração por tipo de ocupação, e que a composição ocupacional do país passou por fortes mudanças tanto no período entre 2014 e 2016 quanto após 2020. O gráfico abaixo mostra essa evolução no período, considerando três categorias binárias de ocupação: formalidade (formal/informal), setor (agropec.+indústria/serviços) e escolaridade (até ensino médio/ensino superior ou mais).


Fonte: Elaboração própria com os dados da PNADC

Desse modo, é realizada uma decomposição entre efeito nível e composição sobre a renda média pelas três categorias ocupacionais. Em resumo, esse método decompõe as taxas de variação da renda do trabalho entre a soma das variações por categoria, tomando a composição como fixa, e entre a soma da renda pela mudança de composição, tomando a renda média por categoria fixa (uma exposição detalhada da metodologia pode ser encontrada no anexo). O gráfico abaixo mostra a variação real da renda por trimestre decomposta por cada efeito.


Fonte: Elaboração própria com os dados da PNADC

O gráfico mostra que, entre 2015 e 2016, houve grande queda da renda pelo efeito nível, enquanto o efeito composição mostrou consideráveis altas em todo período, acelerando fortemente no segundo trimestre de 2020, com a mudança drástica impulsionada pela pandemia. Em geral, pode se ver que, enquanto o efeito composição gerou crescimentos da renda – potencialmente explicados por uma expulsão de trabalhadores menos qualificados e em setores/atividades menos produtivas –, o efeito nível mostrou comportamento mais errático e em geral negativo. Por fim, o gráfico abaixo mostra qual teria sido a trajetória da renda efetiva caso tivesse sido registrado apenas cada um dos efeitos.


Fonte: Elaboração própria com os dados da PNADC

O gráfico mostra que a renda do trabalho estaria hoje em nível bastante superior caso tivesse havido apenas o efeito composição do mercado de trabalho, devido à maior presença de ocupações com maior remuneração. Já o efeito nível teria levado a importante queda acumulada (cerca de 7%) entre 2014 e 2016, estagnação até 2020, a partir de quando mostra nova forte queda, estando hoje cerca de 13% abaixo de seu pico em 2014.

Evidencia-se, portanto, que há importantes e distintas dinâmicas influenciando a renda do trabalho média. É preocupante, no entanto, ver que, em relação aos rendimentos dentro de cada categoria ocupacional, haja duas fortes quedas no período, intercaladas por longa estagnação.

Apêndice 1

O ajuste sazonal é realizado dividindo cada valor do rendimento por um fator, calculado pela média da relação de cada trimestre em relação à sua média anual, no período entre 2012 e 2020. Ou seja:

Em que T representa o trimestre e A o ano. Tal método de dessazonalização não é o mais utilizado, por ter componentes sazonais fixos no tempo – no entanto, tendo em vista a multiplicidade de séries, acabou por se optar por esse método devido à sua simplicidade.

Apêndice 2

A série de renda efetiva é ajustada da seguinte maneira: primeiramente, a série se mantém a mesma a partir do quarto trimestre de 2015. Em seguida, entre o quarto trimestre de 2014 e o terceiro de 2015, aplica-se a seguinte fórmula:

Já anteriormente ao terceiro trimestre de 2015, aplica-se a seguinte fórmula:

Apêndice 3

A decomposição entre Efeito Nível e Efeito Composição, segundo Barbosa Filho e Pessôa (2012), ocorre da seguinte forma:

                                                         

                                                                                          (1)     

no qual a participação de cada categoria i é dada por  e a renda do trabalho média dentro de cada grupo i é dada por  Renda i,t

A partir da definição de renda média acima, é possível decompô-la em composição e nível da formalidade. Com isso, pode-se mensurar a influência dos dois componentes na variação da formalidade, segundo a seguinte fórmula:

      

                                                                                                                                                   

Adicionando e subtraindo o termo do primeiro colchete e adicionando e subtraindo o termo do segundo colchete, tem-se:


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