As reservas financeiras na pandemia

23/11/2021

Entre as empresas, o setor de Serviços é o que tem menor percentual com reservas financeiras. Entre os consumidores, as famílias com menor renda usam reservas para quitar dívidas e pagar despesas correntes, enquanto os de maior renda pretendem gastar com viagens e férias.

A pandemia afetou a saúde das pessoas e a saúde financeira dos agentes econômicos de forma geral no Brasil e no mundo. Em um cenário de elevada incerteza, empresas e consumidores quando possível, deixaram de investir e consumir para poupar de forma precaucional.

Para entender o comportamento das empresas, foram incluídas nas sondagens do FGV IBRE[1] algumas questões para avaliar o percentual de empresas e consumidores que possuem reserva ou poupança financeira, se elas estão com dificuldades para pagamento em dia, qual o percentual da reserva em relação ao faturamento bruto anual atual e há um ano, a pretensão da utilização das reservas e o destino desses recursos para os próximos 12 meses.

A pandemia estimulou a constituição de reservas ao longo de 2020 e 2021, considerando que o tempo de duração e a intensidade do choque era imprevisível. Enquanto alguns segmentos apresentaram movimentos de recuperação ainda em 2020, como a indústria de transformação, outros ainda enfrentam retomadas lentas, como o caso do setor de serviços. Nesse ambiente de instabilidade, a existência de reservas reduz a necessidade de recorrer a empréstimos e o risco de inadimplência, o que garante maior saúde financeira às empresas. Com o ambiente econômico retornando ao padrão normal, as reservas também possibilitam que a execução de projetos de investimentos e as compras de insumos e mercadorias ocorram em melhores termos, haja vista a fonte própria de recursos.

A análise da síntese empresarial mostrou que 64,9% possuíam em agosto alguma reserva financeira, 26,4% não possuíam reservas, mas não se encontravam com dificuldades e 8,8% não possuíam e estavam com dificuldades para manter os pagamentos em dia.

O Comércio e a Indústria são os setores com maior percentual de empresas com reservas financeiras (78,9% e 63,3%, respectivamente). Serviços, como esperado, não apenas possui menor número de empresas com reservas (54,2%), mas também é o que tem a maior proporção das que afirmam estar com dificuldades de manter os pagamentos em dia (13,5%). Essa proporção se destaca nos segmentos de Serviços de transportes rodoviário e prestados às famílias, com 22,5% e 17,1%, respectivamente.

Apesar de a maioria das empresas possuir algum tipo de reserva, existem diferenças em relação à proporção desses recursos em relação ao faturamento bruto anual. O setor da indústria é o que apresenta maior proporção média de reservas (45,9%)[2] em relação ao faturamento, com destaque para as empresas de petróleo e biocombustíveis, cujo percentual chega a atingir 71,6% do faturamento anual. Por outro lado, o segmento de informática e eletrônicos apresenta o menor nível de reservas (17,1%). As micro e pequenas empresas do setor industrial, no entanto, tem nível de reservas menor: 36,6%. As MPEs do segmento de vestuário e calçados são as que apresentaram a maior proporção em relação ao faturamento bruto (75%), enquanto o segmento de metalurgia e produtos de metal foi o de menor proporção (20,1%). Em relação ao percentual de reservas financeiras de um ano atrás, a indústria tinha 35,6%, o maior dentre os setores. O segmento de petróleo e combustíveis apareceu com a maior proporção (85,4%) e as empresas de máquinas e equipamentos a menor proporção (13,7%). Dentre as micro e pequenas empresas do setor, o nível de reserva de um ano atrás era de 24,8% do faturamento.

Segmentos com maior percentual da reserva financeira em relação ao faturamento bruto anual

No No setor de serviços, o nível de reserva é de 35,6% do faturamento anual e tem como destaque negativo o segmento de atividades imobiliárias com 25,5%. As MPEs, apresentaram menor reserva financeira do que as demais empresas, 34% do faturamento bruto, mas houve melhora em relação ao ano anterior, quando o percentual era de apenas 19,2%.

Segmentos com menor percentual da reserva financeira em relação ao faturamento bruto anual

O comércio é o que comparativamente tem o menor nível de reservas em relação à receita anual das empresas (30,9%); veículos, motos e peças têm média superior, 45,9%; e como de menor nível, consta o segmento de material de construção, com 26,6%. Em relação às micro e pequenas empresas do setor, foi observado um nível de reserva da ordem de 33,7%, sendo o segmento com maior proporção as empresas de veículos, motos e peças (44,3%), e o de menor proporção, as empresas de materiais de construção (29,0%). As empresas do setor de comércio tinham 22,9% de reservas há um ano, sendo o segmento de veículos, motos e peças o de maior proporção (31,7%), enquanto o de menor proporção foram os hiper e supermercados. Dentre as micro e pequenas empresas do setor, o nível de reservas era de 22,9%.

O setor de serviços é o que apresentou a maior proporção de empresas com intenção de utilizar os recursos nos próximos 12 meses (51,3%), seguido pela indústria e comércio com 45,1% e 42,1%, respectivamente. Isso pode estar relacionado à maior dificuldade que as empresas de serviços tiveram durante a pandemia e a necessidade de investir nos negócios com o crescimento da demanda em consequência do avanço da vacinação e flexibilização das medidas de proteção. Entre os segmentos, Informação e Comunicação e Transportes registra os maiores números de empresas projetando uso dessas reservas nos próximos meses: 59,7% e 59,9% respectivamente.

Em geral, as empresas de todos os setores têm o investimento como principal destino para as reservas financeiras após passado o período mais crítico da pandemia. Na Indústria, as empresas pretendem gastar com investimentos em máquinas e equipamentos (60,9%) e em tecnologia (41,8%) e, em infraestrutura (35,8%). Nos serviços, esses percentuais são 40,6%, 39,0% e 30,9%, respectivamente. O comércio segue a mesma tendência: 44,9%, 31,4%, com 36,8% de investimento direcionado para máquinas e equipamentos.

A indústria e o comércio continuam com dificuldades na obtenção de insumos e por isso 28,1% e 27,1% das empresas desejam direcionar parte dos recursos para antecipação de compras de insumos e matérias-primas.

O setor de serviços possui 27,4% das empresas com intenção de pagar dívidas, o maior entre os setores. Enquanto na indústria e comércio esses percentuais são bem menores: 16,7% e 15,7%.

O direcionamento de recursos de reservas financeiras para a contratação de mão de obra é maior no setor de serviços (16,8%), seguindo pelo comércio (13,4%) e indústria (4,6%).

Destino das reservas financeiras nos próximos meses, por setores

Reservas financeiras dos consumidores

A capacidade de obtenção de renda das famílias foi comprometida devido às incertezas quanto ao mercado de trabalho, às condições de saúde e aos hábitos de consumo. A preocupação com esse cenário também incentivou a reorganização dos planos de consumo e poupança das famílias. Em julho, cerca de 47% das famílias disseram estar poupando ainda de forma precaucional, um aumento em relação a novembro de 2020 (37,7%). Desse grupo de famílias, 69,2% têm intenção de continuar poupando.

Contudo, o destino principal para as reservas financeiras é o pagamento de despesas correntes (28,6%), em seguida compra de bens duráveis (19,3%), gastos com viagem de férias (18,2%) e quitação de dívidas (13,6%). Destaca-se que os consumidores de baixa renda pretendem utilizar os recursos prioritariamente para pagamento de despesas correntes (37,3%) e quitação de dívidas (28,1%), enquanto os de maior poder aquisitivo tem maior intenção de gastar com viagem e férias (25,9%), pagamento de despesas correntes (22,9%) e compra de bens duráveis (22,0%).

O estresse financeiro das famílias, que captura a necessidade de utilização de recursos poupados ou ampliação do endividamento frente ao financiamento de despesas correntes, tem aumentado desde julho. Para as famílias com renda mais baixa, o indicador volta a se aproximar no máximo histórico (33,95) registrado em maio de 2016, após ter atingido 33,05 pontos em abril de 2020.

Indicador de Estresse Financeiro

Ao longo dos dois últimos anos, segundo dados do Bacen, o comprometimento da renda das famílias alcançou valores recordes, chegando a 59,9% em junho de 2021. A preocupação com a instabilidade provocada pela pandemia estimulou a constituição de poupança. Contudo, o cenário de lenta retomada da economia, desemprego e inflação elevadas tem comprimido a renda real das famílias. Como resultado, os recursos poupados devem ser utilizados para financiar gastos correntes, ao mesmo tempo em que o comprometimento da renda cresceu consideravelmente, o que amplia a possibilidade de inadimplência das famílias. É interessante notar que esse panorama não afeta os consumidores de maneira simétrica. Enquanto aqueles com menos renda indicam maior atenção ao financiamento dos gastos correntes, consumidores com renda nas faixas mais altas demonstram maior intensão de gastos com lazer e viagens.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 


[1] Julho e agosto de 2021.

[2] Média ponderada utilizando ponto médio de cada faixa.

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