A revanche de Furtado?

Estimativas de Palma e Lambais indicam estagnação no Brasil do século XVII ao XIX. O avanço ocorreu só após o fim da escravidão, apontada como entrave ao desenvolvimento. Dados ecoam Celso Furtado sobre o peso das instituições no atraso econômico.
Introdução
O texto discute novas estimativas de PIB per capita para o Brasil desde o período colonial, produzidas por Palma e Lambais, que revelam uma longa trajetória de estagnação econômica de meados do século XVII até o final do século XIX. Os resultados indicam uma melhora significativa apenas após o declínio da escravidão, sugerindo que a instituição da escravidão foi fundamental para o atraso econômico. Esses achados dialogam, em parte, com a interpretação historiográfica de Celso Furtado, especialmente no que diz respeito ao papel das instituições e da economia política, ainda que os mecanismos explicativos se diferenciem do estruturalismo clássico.
O trabalho de Palma e Lambais
Em trabalho recentemente publicado, mas que já promete ser tremendamente influente, Nuno Palma e Guilherme Lambais constroem, pela primeira vez, uma longa série de PIB per capita para o Brasil começando no fim do século XVI. Os autores coletam um grande conjunto de dados de evidências arquivísticas primárias para construir séries de salários para trabalhadores qualificados e desqualificados e índices de preços de uma cesta de subsistência para construir uma série de salário real.
Quase não há trabalhos para períodos anteriores ao século XIX; os poucos que existem costumam ser, no geral, “chutes educados”.

O período colonial (1572-1821) tem uma média de crescimento de PIB per capita de -0.15%. A média, no entanto, esconde grande heterogeneidade e as explicações dos autores para a estagnação histórica brasileira. Comparando os períodos da vigência do tráfico de escravos (1574-1850) e escravidão (1574-1888) com os períodos pós-proibição do tráfico (1851-1920) e abolição (1889-1920) a diferença é chocante: -0.14% e -0.01% contra 0.35% e 0.62%.
Para o século XIX em si, outras estimativas já existentes são relativamente parecidas com as dos autores.
“The main differences emerge after 1900. Our series rises to roughly 125–130 in the early 1910s, retreats to around 100 during World War I, and ends the period slightly above 110. Three of the comparison series—Maddison, Haddad, and Reis—follow a similar post-1900 trajectory but reach somewhat higher levels in the 1910s. The sharpest divergence is observed for Contador Haddad, which exhibits a higher level throughout and a pronounced wartime spike above 250 that has no counterpart in our estimates or in any of the other series, likely due to the inclusion of cement consumption and installed energy capacity. Bacha Tombolo Versiani tracks our series most closely throughout.”

As estimativas corroboram trabalho recente de Bacha et. al (2025), na linha de que o Brasil era mais rico do que se pensava anteriormente não só no começo do século XX, mas também no começo do século XIX.
O cenário retratado é de uma longa estagnação durante quase todo o período colonial e do império. Podem-se observar alguns voos de galinha, como o que ocorreu no ciclo do ouro, mas sem bases permanentes de ganho de produtividade e transformação estrutural da economia brasileira. Resultado similar já havia sido encontrado por Nuno Palma em trabalho recente, que mostra que a descoberta do ouro no Brasil enriqueceu Portugal a curto-prazo, mas ao custo de estagnação a longo-prazo – que os autores argumentam se deu, entre outras coisas, via o canal de doença holandesa e piora na qualidade institucional no Estado português. [1]
O longo ciclo de queda do PIB per capita atinge o seu mínimo por volta da época das guerras napoleônicas, período de grande instabilidade política e disrupção de cadeias globais de comércio em todo o Atlântico.
Por que os achados empíricos de Palma & Lambais são, em parte, uma “vingança de Furtado”?
No próprio artigo, os autores argumentam que a narrativa furtadiana para o subdesenvolvimento brasileiro tinha suas raízes em estruturas legadas do período colonial, notadamente baixa poupança agregada - e, portanto, investimento - derivados da extremada concentração de terra e monocultura.
Indo um pouco além, Furtado argumentava que a estrutura da economia brasileira, voltada inteiramente para a exportação de commodities agrícolas e intensiva em mão de obra escrava, concentrava toda a sua renda gerada nas mãos de uma pequena elite de senhores de engenho. Essa concentração impossibilitava a formação de um mercado interno, toda essa renda gerada pela atividade produtiva do país “vazava” na forma de importações para servir a essa elite.
Na ausência de um mercado interno consolidado, não havia possibilidade de uma transformação estrutural para uma indústria incipiente ou serviços de maior valor adicionado.
Essa armadilha de subdesenvolvimento só começaria a ser (relativamente) superada com a ascensão da economia cafeeira. Com a chegada de milhões de imigrantes europeus no fim do século XIX e começo do século XX para trabalhar nas lavouras de café de forma assalariada, esse fluxo de renda do trabalho gerado pelo setor exportador começou a irradiar pela economia local, gerando a semente inicial para um mercado interno mais robusto, que possibilitaria poucas décadas adiante o começo de uma transformação estrutural da economia brasileira – essa é a narrativa de Celso Furtado. Essencialmente, é um argumento de natureza keynesiana - a industrialização não ocorria por falta de demanda efetiva ocasionada pela escravidão – acoplado com um argumento de economia política, que era o de que as “estruturas” da sociedade brasileira travavam a modernização da economia.
Os mecanismos propostos por Palma e coautores são vários: a escravidão gera estagnação por manter os salários reais artificialmente comprimidos, desincentivando a substituição de trabalho por capital via mecanização, gera misallocation de recursos por drenar capital de outras atividades produtivas para a compra de pessoas escravizadas, há desincentivo a acumulação de capital humano, entre outros.
Ainda que os mecanismos econômicos propostos sejam distintos, há uma certa sinergia. Em ambas as abordagens, existe um componente de economia política forte. Em Furtado, as antigas oligarquias ainda que no melhor dos casos não tivessem bloqueado ativamente a transição dos antigos escravizados para um novo sistema de mercado, com base em relações assalariadas, também não tinham interesse em cooperar para tal, uma vez que isso desestabilizaria sua própria estrutura de poder local. Em Formação Econômica do Brasil, Celso Furtado observa:
“Observada a abolição de uma perspectiva ampla, comprova-se que a mesma constitui uma medida de caráter mais político que econômico. A escravidão tinha mais importância como base de um sistema regional de poder que como forma de organização da produção. Abolido o trabalho escravo, praticamente em nenhuma parte houve modificações de real significação na forma de organização da produção e mesmo na distribuição da renda. Sem embargo, havia-se eliminado uma das vigas básicas do sistema de poder formado na época colonial e que, ao perpetuar-se no século xix, constituía um fator de entorpecimento do desenvolvimento econômico do país. ”
No trabalho de Nuno Palma e coautores, ainda que o mecanismo causal da escravidão para o atraso econômico seja mais de natureza tecnológica, de misallocation ou, de forma mais geral, do “supply-side” da economia, o que causava a manutenção do status quo ineficiente do ponto de vista econômico era um problema de economia política:
“The province's skepticism about slavery also featured in debates in the Brazilian parliament as early as 1850: a deputy from the province presented a gradual emancipation project in the Chamber of Deputies in Rio de Janeiro. Not surprisingly, the proposal generated consternation among his peers and was not considered for a vote." (Palma et. al, 2021)
"Slavery certainly enriched a limited number of merchants. Still, it led to a society that was not conducive to broad economic development, even if changing the associated political equilibrium was difficult (Acemoglu, 2003; Ogilvie, 2007)." (Lambais & Palma, 2025)
Além disso, os dados levantados por Palma & Lambais corroboram o “timing” proposto por Furtado. Eles próprios o dizem no paper:
"..although the mechanisms differ substantially from those posited by the classical structuralist tradition, the timing of Brazil's divergence from the frontier remains broadly consistent with it."
A nova base de dados levantada por Nuno Palma e Guilherme Lambais não confirmou definitivamente as teses de Celso Furtado sobre o subdesenvolvimento e o processo histórico brasileiro – o canal da ausência de demanda agregada pressionando a transformação estrutural ainda não encontra muita corroboração no mainstream da economia. No entanto, os argumentos de caráter mais institucionalista, sobre poder e economia política de Furtado seguem mais vivos do que nunca.
Com acesso a um universo de dados muito mais reduzido (para dizer o mínimo) quase 70 anos atrás, Furtado conseguiu acertar com alguma precisão pontos de inflexão relevantes nas trajetórias de renda per capita do Brasil. Goste ou não do seu trabalho, o economista paraibano era, no mínimo, um pesquisador de muita sorte.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
Palma, Nuno; Papadia, Andrea; Pereira, Thales; Weller, Leonardo. 2021. “Slavery and Development in Nineteenth Century Brazil.” Capitalism: A Journal of History and Economics 2 (2): 372–426. https://doi.org/10.1353/cap.2021.0008.
Bacha, Edmar L.; Tombolo, Guilherme A.; Versiani, Flávio R. 2025. “Secular Stagnation? A New View on Brazil’s Growth in the Nineteenth Century.” Revista de Historia Económica – Journal of Iberian and Latin American Economic History 43 (2): 279–308.
Furtado, Celso. 2007 [1959]. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
Lambais, Guilherme; Palma, Nuno. 2025. “African Slavery and the Reckoning of Brazil.” Lewis Lab Working Paper 2023-01. University of Manchester / CEPR.
Lambais, Guilherme; Palma, Nuno. 2026. “How a Nation Was Born: Brazilian Economic Growth, 1574–1920.” Lewis Lab Working Paper 2026-03.
[1] Uma explicação mais aprofundada do fenômeno para o caso português foge do escopo desta nota, mas grosso modo a maior arrecadação não-tributária via descoberta do ouro permitiu ao monarca português governar durante décadas (senão quase 1 século) sem convocar o parlamento, o que possibilitou que governasse de forma mais absolutista, atrasando o desenvolvimento de um arcabouço institucional mais moderno e adequado para o desenvolvimento de uma sociedade capitalista.










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