Macroeconomia

Sobre PIB, chuvas e caciques

18 fev 2022

O diagnóstico de que a falta de chuvas crônica explica uma parte importante de nossa década perdida recente foi recebida com muita curiosidade por alguns e com descrédito por outros. Nesse contexto, o objetivo é de esclarecer ainda mais esses resultados, contribuindo para um debate de alto nível.

Foi publicado recentemente no Valor um artigo meu resumindo os resultados de um estudo divulgado aqui no Blog do IBRE em novembro do ano passado, o qual apontou que a estiagem crônica que o Brasil vem enfrentando desde 2012 explica muito da conjuntura macroeconômica desfavorável que observamos desde então, com fraco crescimento do PIB e inflação elevada (em especial na energia elétrica).

Mais precisamente, estimei que a falta de chuvas subtraiu cerca de 1,6 p.p., ao ano e em média, da taxa de variação do PIB brasileiro entre 2012 e 2021, ajudando a explicar parte relevante de nossa década perdida recente.

Trata-se de um diagnóstico que estava completamente fora do radar de diversos analistas – e, por conta disso, gerou muitas reações, algumas delas até desrespeitosas (como aquela de um economista renomado que disse que a solução então seria chamar o Cacique Cobra Coral para fazer o Brasil voltar a crescer).

Meu objetivo neste post é o de esclarecer ainda mais esses resultados, que tanto incomodaram alguns, mas que despertaram muita curiosidade em vários outros. Meu intuito é contribuir com um debate de alto nível.

Com efeito, vou organizar essa discussão em quatro grandes tópicos: 1) a apresentação do fato estilizado; 2) a discussão da relação entre chuvas e PIB; 3) a incorporação disso na análise das razões por detrás da década perdida brasileira recente; e, por fim, 4) algumas considerações finais.

O fato estilizado

A figura abaixo apresenta a anomalia das precipitações em território brasileiro, calculada a partir dos dados mensais do INMET. A inspeção visual deixa evidente que a década iniciada em 2012 foi atipicamente seca, sem termos observado claramente um processo de reversão à média. É digno de nota o fato de que nos 10 anos anteriores, 2002-2011, tivemos uma situação oposta – algo que certamente ajuda a explicar o período “de ouro” brasileiro em termos de crescimento econômico e inflação controlada.

Convém assinalar que o diagnóstico de uma década “seca” não se ampara na análise da evolução do nível de reservatórios – algo que depende não somente das precipitações nas regiões específicas onde estão localizados, mas também da evapotranspiração e dos diversos usos dados a essa água armazenada (que podem responder a decisões de políticas econômica doméstica). Portanto, ao observar as precipitações, estamos diante de um fenômeno que pode ser considerado em boa medida exógeno do ponto de vista dos policymakers (ao menos no sentido de antecedência temporal – na medida em que a redução das chuvas no Brasil pode ter refletido, ainda que parcialmente, os efeitos de décadas de desmatamento da floresta amazônica, afetando o fenômeno dos “rios voadores”).

A figura abaixo, extraída de relatório do ONS de novembro do ano passado, ajuda a dar uma visão um pouco mais concreta dos impactos dessa estiagem crônica.

Por fim, é importante notar que, no mundo como um todo, as precipitações têm sido maiores nas últimas décadas, refletindo a elevação das temperaturas médias globais, que impulsionam a evapotranspiração (ver figura abaixo). Vale notar, contudo, que boa parte dessas chuvas caem nos mares e oceanos.

2) PIB e chuvas

No meu exercício, utilizei um VARX (VAR com variáveis exógenas, internacionais e domésticas) para construir o contrafactual que apontou o impacto de -1,6 p.p., ao ano e em média, sobre a taxa de variação do PIB brasileiro em 2012-2021. Os detalhes estão no post de novembro. Mas, o que diz a literatura a esse respeito?

Há diversos trabalhos apontando a existência de impactos das chuvas sobre a atividade econômica. Eu vou apresentar aqui os principais resultados do mais recente deles, publicado na prestigiada revista científica Nature em janeiro deste ano. Esse trabalho mais recente, além de uma ótima revisão bibliográfica sobre o tema, também buscou captar os impactos das chuvas em várias dimensões – em contraste com boa parte dos trabalhos anteriores.

Com efeito, Kotz, Levermann & Wenz 2022, utilizando dados de 77 países subdivididos em 1554 sub-regiões ao longo de 40 anos, avaliaram os impactos econômicos das chuvas nas seguintes dimensões: i) nível absoluto das chuvas anuais; ii) anomalias (desvios em relação à norma histórica), diferenciando-as entre negativas e positivas; iii) quantidade de chuvas extremas; e iv) número de dias “molhados”. Os autores também realizaram essa análise por grande setor econômico. A figura abaixo resume boa parte dos principais resultados encontrados por eles.

Em particular, anomalias negativas (como foi o caso brasileiro na última década) têm forte impacto, também negativo, sobre a taxa de variação da atividade econômica. Segundo o trabalho deles, precipitações 1 desvio-padrão abaixo da média reduzem a taxa de variação do PIB em cerca de 2 p.p. (considerando a amostra total). Esse efeito parece ser maior em países em desenvolvimento do que nas nações avançadas. Vale lembrar que, no Brasil, na média 2012-2021, as chuvas se situaram 0,7 desvio-padrão abaixo da média (ver novamente a primeira figura deste post), o que implicaria, usando a elasticidade estimada pelos autores para a amostra completa, um impacto de -1,4 p.p. ao ano na variação de nosso PIB.

Há boas razões para se acreditar que o impacto no Brasil tende a ser maior do que em boa parte dos demais países, na medida em que pouco mais de 20% de nosso PIB reflete atividades do agronegócio e que, na média da última década, cerca de 70% de nossa capacidade de geração de eletricidade adveio de hidrelétricas (contra uma média mundial em torno de 15%). Embora estejamos diversificando nossa matriz há duas décadas, atualmente ainda temos quase 60% da geração de eletricidade sendo originada de hidrelétricas (com uma operação amparada em Garantias Físicas que pressupõem uma reversão à chamada Média de Longo Termo, MLT, das chuvas que chegam aos reservatórios utilizados por tais usinas).

3) Incorporando esses achados na análise dos condicionantes de nossa década perdida recente

Eu diria que não é exagero afirmar que essa questão das precipitações estava totalmente fora do radar de boa parte dos analistas. Esse tema até surgiu em alguns momentos, como em 2021 ou 2014, mas praticamente ninguém, até recentemente, havia destacado que a estiagem crônica foi um elemento definidor da última década brasileira.

A figura abaixo apresenta a evolução do PIB brasileiro projetada pelo FMI em meados de 2012, para os anos seguintes, a trajetória efetivamente observada e, ainda, um contrafactual, o “Brasil sintético” estimado por Mendonça & Valpassos 2022.

Como pode ser notado, houve uma frustração de PIB de quase 25%, quase o dobro da frustração de outros países assemelhados (ver figura abaixo).

A comparação da trajetória projetada pelo FMI com o “Brasil sintético” estimado a partir da evolução efetiva dos PIBs de Congo, Etiópia, Gâmbia, Líbano, México, Paraguai, Peru e África do Sul (com os 4 últimos pesando 86,2%) permite estimar quanto dessa frustração seria explicada por fatores comuns globais, que podem ser considerados exógenos do ponto de vista da economia brasileira.

Esse exercício sugere que aproximadamente 37% da frustração de nosso PIB na última década se explica por tais fatores. Contudo, é preciso muita cautela para afirmar que o resíduo, os 63% restantes, se devem apenas às políticas ruins consubstanciadas no fim da chamada “era Malocci” (1995-2006) ou na Nova Matriz Econômica (2012-2014), já que fatores exógenos locais podem explicar isso, como essa questão das precipitações levantada nas seções anteriores.

De fato, minhas estimativas apontam que cerca de 70% da frustração de nosso PIB pode ser explicada por fatores exógenos internacionais (sobretudo o colapso dos preços internacionais das commodities em 2012-2016, após o superciclo de 1999 a 2011) e pela estiagem crônica doméstica, com um peso um pouco maior da última.

Com efeito, ainda há outros 30% de nossa frustração (1 p.p. ao ano, que não é pouca coisa) sendo explicada por bad policies domésticas. Alguns avaliam que isso é uma defesa da chamada NME, quando na verdade é oposto disso: tais políticas também têm parcela relevante de culpa na nossa década perdida recente. O problema é que a narrativa mais comum disseminou a ideia de que foi somente isso que explicou nosso colapso de crescimento, quando as evidências – atualizadas com essa questão das precipitações – sugerem que não foi bem assim.

Vale notar, ainda, que há também uma série de bad policies que foram implementadas de 2016 em diante que ajudam a explicar nosso marasmo econômico. Não me refiro aqui a algumas reformas importantes que aconteceram (como a da Previdência, a trabalhista, a política, a autonomia do BCB com introdução do mandato dual, dentre algumas outras), mas sim à aposta que a agenda de reformas sozinha, via confiança/expectativas, substituiria políticas de estabilização macroeconômica tradicionais (monetária e fiscal) na consecução do pleno-emprego (algo que não aconteceu: nossa economia vem operando com grande excesso de ociosidade desde 2015/16). E uma economia que opera tanto tempo aquém do potencial, como sugerem as inúmeras estimativas de hiato do produto, corre o risco de perder capacidade produtiva pela falta de uso, a chamada histerese econômica negativa (ou scarring). Muitos ignoram esse aspecto da histerese, considerando isso uma “heterodoxia”. Mas a literatura acadêmica mais recente vem dando cada vez mais suporte à ocorrência desse fenômeno, por diversos canais (desemprego de longa duração; fuga de cérebros; belief scarring; obsolescência do estoque de capital físico etc.).

4) Considerações finais

A tendência de redução das chuvas no Brasil não parece ser algo restrito à última década: projeções climatológicas do Banco Mundial apontam que iremos continuar recebendo cada vez menos chuvas nos próximos anos e décadas (ver figura abaixo).

Portanto, à luz de tudo o que foi exposto, é preciso agir, para que essa restrição de oferta seja aliviada, permitindo que Brasil possa crescer mais, com inflação controlada. Isso, em minha opinião, não envolve pedir ajuda para nenhum cacique e sim o uso de conhecimento científico, planejamento e boas políticas públicas (econômicas, ambientais etc.). Estou tentando contribuir para isso oferecendo um diagnóstico que parece bastante óbvio e lógico, mas que foi ignorado ou minimizado até agora.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Deixar Comentário

To prevent automated spam submissions leave this field empty.