Tarifa de importação zero, inflação em queda: coincidência ou causa?

Inflação dos produtos isentos desacelerou em média, ao longo de março¸ mas em muitos casos preços já caíam antes da isenção. Ainda assim, há convergência benéfica entre a medida e a tendência inflacionária de alguns alimentos.
A decisão do governo de zerar a alíquota de importação para alguns alimentos, a partir de 14 de março de 2025, gerou expectativas de alívio inflacionário no curto prazo. Embora a medida ainda esteja em fase inicial de implementação, os dados de inflação diária do Monitor da Inflação Oficial do FGV IBRE para esses itens já permitem uma análise preliminar de seu impacto nos preços. A boa notícia é que a inflação dos produtos contemplados pela isenção tarifária apresentou, em média, desaceleração ao longo de março, caindo de 2,44% no início do mês para 0,70% no final do período.
Gráfico 1 – Variação média dos alimentos com tarifa de importação zerada
Fonte: Monitor da Inflação Oficial FGV IBRE
Apesar desse movimento, é importante considerar que a desaceleração da inflação não pode ser atribuída exclusivamente à medida tarifária. Em muitos casos, os preços já vinham em trajetória de queda antes da entrada em vigor da nova política, como observado no caso do café moído. Outros itens, como a sardinha em conserva, continuaram registrando inflação elevada e volátil mesmo após a desoneração, o que indica a presença de outros fatores atuando sobre a formação de preços, como sazonalidade, logística e comportamento da oferta doméstica.
Tabela 1 - Variação média de preços dos alimentos com tarifa de importação zerada
Fonte: Monitor da Inflação Oficial FGV IBRE
Além disso, é natural que haja defasagem entre a adoção de uma medida tributária e seu repasse efetivo aos preços ao consumidor. A estrutura de comercialização, os contratos vigentes e o tempo de reposição de estoques podem atrasar os efeitos esperados de uma política de desoneração. Em contrapartida, a sinalização de queda de custos pode contribuir para expectativas mais moderadas de reajustes, influenciando indiretamente a inflação, sobretudo em um ambiente de competição acirrada no varejo alimentar.
Em resumo, embora ainda seja cedo para afirmar que a redução da tarifa de importação tenha sido a causa direta da queda de preços, os primeiros sinais apontam para uma convergência benéfica entre a medida e a tendência inflacionária de alguns alimentos. Isso reforça a importância de acompanhar de perto os dados nos próximos meses, avaliando de forma mais robusta o impacto estrutural da política sobre o custo da cesta básica e a segurança alimentar.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
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