Macroeconomia

A “onda azul” e o Brasil

7 jan 2021

A  vitória democrata nas duas eleições para o Senado ocorridas esta semana no estado da Georgia era uma possibilidade, mas não era o cenário central de investidores e analistas em geral. É o que se depreende da reação dos mercados financeiros. É mais um fator a tornar tão peculiar a eleição americana de 2020, que só este mês, se espera, chega ao fim.

A principal consequência dessa vitória é que os democratas ganham controle sobre a agenda legislativa, consolidando a chamada Onda Azul, cor do partido, e, portanto, sobre as políticas a serem adotadas pelo governo Biden nos próximos dois anos. É de se esperar um novo e mais robusto pacote fiscal, privilegiando transferências de renda para famílias, desempregados, pequenas empresas e governos municipais e estaduais, além de mais investimento em infraestrutura e energia renovável. O aumento de impostos corporativos não deve vir agora, mas uma regulação mais intensa de empresas de tecnologia sim. A intensidade desse movimento, porém, vai depender da reação da ala mais conservadora do Partido democrata, em especial no Senado. É razoável esperar mais, mas não muito mais.

O mercado espera que o novo pacote fiscal acelere o crescimento em 2021 e a inflação. Isso vai pressionar os juros e reduzir a atratividade das “ações de crescimento”, em favor das “ações de valor”,  processo que já vinha desde o anúncio da vacina contra a Covid, no início de novembro. Ganham as ações de bancos, empresas de petróleo e as commodities em geral. Perdem as empresas de tecnologia. As bolsas na Europa e nos emergentes, onde as ações de bancos e commodities têm maior peso, têm reagido positivamente.

O que essa reviravolta eleitoral significa para o Brasil? Na política, ela vai acentuar o isolamento internacional do país. Biden gastará menos tempo negociando internamente e terá mais espaço para rever a política externa americana, onde a questão ambiental vai ganhar mais destaque.

Já na economia, o novo cenário que se alinha é bom para o Brasil, pelo menos a curto prazo. Ele vai trazer mais crescimento global em 2021, dólar mais fraco e preços de commodities mais altos. O apetite pelo risco “emergentes” também vai aumentar, o que vai atrair mais investimento estrangeiro para o país. Por outro lado, a elevação dos rendimentos dos títulos americanos vai pressionar os juros também no Brasil, assim como em outros países.

Por outro lado, nesse novo cenário o tamanho da dívida pública americana vai crescer ainda mais, tornando as contas públicas mais sensíveis a movimentos na taxa de juros, que podem aumentar mais, se a inflação subir além do previsto, forçando o Fed a adotar uma postura menos dovish que a atual. Não é algo para 2021 ou 2022, mas é um risco que não deve ser desprezado para o médio prazo.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

 

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