Alta do preço do cobre e seus efeitos sobre os custos da construção no Brasil

O repasse do preço do cobre para os custos da construção ocorre de forma relevante, mas de maneira gradual. Para cada aumento de 10% no preço do cobre, o item condutores elétricos do INCC acumula uma alta de cerca de 5,6% ao longo de vários meses
Conjuntura atual
Assim como ocorreu recentemente com o ouro e a prata, o cobre também passou a operar em níveis historicamente elevados — mas por motivos bem diferentes. No caso dos metais preciosos, os preços vêm sendo sustentados sobretudo por fatores estratégicos: o aumento da incerteza geopolítica, a persistência inflacionária e políticas monetárias mais lenientes em economias desenvolvidas reforçaram seu papel como ativos de proteção e reserva de valor.
O cobre, por sua vez, enfrenta pressões de preço de natureza estrutural. A oferta global tem mostrado limitações, com déficits recorrentes na produção — em especial em países-chave como o Chile, maior produtor mundial. Ao mesmo tempo, a demanda segue em trajetória ascendente, impulsionada pela retomada e expansão de projetos de infraestrutura e, mais recentemente, pelo avanço acelerado de aplicações ligadas à transição tecnológica e à inteligência artificial.
Entre o fim do ano passado e o início deste ano, analistas de commodities passaram a revisar com frequência — e para cima — suas projeções para o preço do cobre na London Metal Exchange (LME), principal bolsa de negociação do metal. Quando escrevo, as cotações giram em torno de US$ 13 mil por tonelada, um patamar bem acima do observado 12 meses atrás, quando os contratos eram negociados próximos de US$ 9 mil.
Trata-se de uma valorização superior a 40% em um intervalo relativamente curto. Embora ainda não haja consenso sobre um preço-alvo definitivo, vem ganhando força a avaliação de que o cobre deve permanecer caro por mais tempo, refletindo um novo equilíbrio entre oferta restrita e demanda estruturalmente mais robusta.
Fonte: FMI
É a partir desse movimento que chegamos ao ponto central deste artigo: como a alta do cobre se traduz em custos mais elevados para a construção no Brasil e quais são os seus impactos sobre o Índice Nacional de Custos da Construção (INCC)?
Na construção civil, o cobre é insumo essencial, presente majoritariamente na fabricação de condutores elétricos e de materiais elétricos em geral — itens indispensáveis tanto em obras residenciais quanto em projetos de maior porte. Dentro da estrutura do INCC, esses produtos estão concentrados no grupo de materiais elétricos, no qual os condutores elétricos se destacam como o item de maior peso.
Isso significa que oscilações no preço internacional do cobre tendem a se propagar de forma relativamente rápida para esse conjunto de materiais, pressionando os custos medidos pelo índice. Por essa razão, a análise a seguir se concentra justamente na estimação dos efeitos da valorização do cobre sobre o item condutores elétricos, que funciona como o principal canal de transmissão desse choque de preços para o INCC.

Estimação dos impactos
Para quantificar o repasse da alta do cobre aos custos da construção, utilizamos um modelo ARDL (Autoregressive Distributed Lag), técnica consagrada em análises de pass-through, que permite capturar tanto os impactos mais imediatos quanto os ajustes graduais ao longo do tempo. A estimação foi realizada com dados mensais de 2005 a 2025, relacionando as variações do preço internacional do cobre na LME, da taxa de câmbio e do nível de atividade industrial brasileira ao comportamento do item condutores elétricos no INCC.
Os resultados mostram que, uma vez controlados o preço internacional do metal e o câmbio, variáveis adicionais — como indicadores diretos da atividade chinesa ou da política monetária doméstica — não acrescentam poder explicativo relevante ao modelo. Isso sugere que o principal canal de transmissão desse choque de custos para a construção passa, essencialmente, pela combinação entre o preço do cobre em dólares e a taxa de câmbio.
Dito isso, as estimações apontam para três padrões importantes, que ajudam a compreender a dinâmica e a intensidade com que esse movimento de preços se reflete nos custos medidos pelo INCC.
O repasse do cobre é incompleto e gradual
Os resultados indicam que o repasse do preço do cobre para os custos da construção ocorre de forma relevante, mas gradual. Para cada aumento de 10% no preço do cobre, o item condutores elétricos do INCC acumula uma alta de cerca de 5,6% ao longo de vários meses — ou seja, pouco mais da metade do choque internacional acaba sendo incorporada aos preços domésticos.
Esse ajuste, no entanto, está longe de ser imediato. Nos primeiros meses após o aumento do cobre, o impacto estimado é de apenas 0,7%, o que corresponde a cerca de 12% do efeito total. A incorporação plena do choque tende a se espalhar no tempo e pode levar mais de um ano para se completar.
Essa dinâmica mais lenta reflete uma combinação de fatores. Entre eles, destacam-se os contratos de médio e longo prazo firmados entre construtoras e fornecedores, que frequentemente fixam preços por alguns meses; as fricções naturais no processo de reajuste; e a capacidade dos fabricantes de absorver parte do aumento de custos no curto prazo, seja por meio de compressão de margens, seja via ajustes operacionais e de estoques.
O dólar potencializa substancialmente o efeito
Se o cobre já exerce uma pressão relevante sobre os custos, o câmbio atua como um amplificador desse movimento. As estimativas indicam que cada desvalorização de 10% do real acrescenta cerca de 9,4% ao INCC de condutores elétricos no longo prazo — um repasse praticamente integral.
Assim como ocorre com o preço do cobre, esse ajuste não se materializa de forma imediata. Nos primeiros meses, o impacto é relativamente modesto, em torno de 1,1%, mas, ao longo do tempo, o efeito acumulado pode ultrapassar 90% do total estimado, reforçando o papel central do câmbio na dinâmica de custos do setor.
No caso brasileiro, esse elevado repasse cambial está diretamente associado à forte dependência externa da indústria. Primeiro, o cobre é cotado em dólar na LME e uma parcela relevante do consumo doméstico é suprida por importações. Segundo diversos insumos químicos utilizados no isolamento e na proteção dos cabos elétricos também são adquiridos no mercado internacional. Por fim, muitos contratos ao longo da cadeia produtiva incorporam cláusulas de reajuste cambial automático, o que acelera e intensifica a transmissão das variações do dólar para os preços medidos pelo INCC.
A Atividade Econômica adiciona pressão moderada
Quando a indústria acelera — medida pelo nível de utilização da capacidade instalada (NUCI) — também há pressão sobre os preços dos condutores elétricos, ainda que em magnitude bem inferior à observada para o câmbio e para a commodity. As estimativas indicam que, para cada aumento de 1 ponto percentual na atividade da indústria de transformação, os preços dos condutores sobem cerca de 1,8% ao longo do ciclo econômico.
Assim como nos demais canais, esse efeito se materializa de forma gradual. Nos primeiros meses, apenas uma fração do impacto total aparece nos preços, com o restante sendo incorporado ao longo do tempo, à medida que a demanda mais aquecida se consolida e reduz as margens de acomodação da oferta.
Embora menos intenso do que o choque vindo do cobre e do câmbio, o aquecimento da economia adiciona uma camada adicional de pressão inflacionária sobre os insumos da construção. Para ilustrar, uma elevação do NUCI de 78% para 85% — variação compatível com fases mais avançadas do ciclo — poderia acrescentar algo em torno de 12,6% ao preço dos condutores elétricos ao longo de um período superior a um ano e meio.
Implicações para o INCC
Os resultados mostram que os choques cambiais e os aumentos no preço da matéria-prima, embora não se materializem plenamente no curto prazo, estão longe de ser irrelevantes e merecem acompanhamento mais atento por parte dos analistas de preços. Justamente por se propagarem de forma gradual ao longo de vários meses, esses efeitos tendem a ganhar força com o tempo.
À medida que contratos são renegociados e mecanismos de reajuste entram em vigor, o impacto acumulado pode se tornar significativo para a dinâmica dos custos da construção. Em outras palavras, mesmo choques que parecem moderados no início podem se transformar em pressões persistentes sobre o INCC ao longo do ciclo.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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