Alívio no bolso, cautela no horizonte: sinais da inflação no início de 2026

No caso da gasolina, repasse da queda observada na refinaria a consumidor final não é integral, mas ainda assim significativo. Considerando preço médio cobrado nas bombas em dezembro de 2025, redução esperada ao consumidor gira em torno de 2%.
O ano começa com um sinal raro – e bem-vindo – para o bolso do consumidor: a gasolina ficou mais barata. A redução de 5,2% no preço do combustível nas refinarias, válida a partir de 26 de janeiro, tende a produzir efeitos diretos sobre a inflação já em fevereiro.
Esse movimento ganha ainda mais relevância porque fevereiro costuma ser um mês sensível para o IPCA. É quando entram em cena os reajustes das mensalidades escolares, tradicionalmente um dos principais focos de pressão inflacionária do início do ano. A diferença agora é que, ao contrário de anos anteriores, essa alta deve encontrar um contrapeso relevante.
Estamos falando da gasolina, um item de peso na cesta de consumo, atuando no sentido de reduzir a inflação justamente em um mês marcado por aumentos sazonais na educação. Esse arranjo ajuda a explicar por que fevereiro de 2026 tende a ser menos pressionado do que em anos recentes.
No caso da gasolina, o repasse da queda observada na refinaria para o consumidor final não é integral, mas ainda assim significativo. Considerando o preço médio cobrado nas bombas em dezembro de 2025, a redução esperada ao consumidor gira em torno de 2%. Se confirmada, esse movimento deve gerar uma contribuição negativa de aproximadamente 0,1 ponto percentual no IPCA de fevereiro – um alívio nada desprezível em um índice mensal.
Com isso, a queda nos preços dos combustíveis deve ajudar a suavizar o impacto do reajuste das mensalidades escolares, funcionando como um amortecedor importante da inflação no curto prazo.
Diante desse cenário, a inflação de fevereiro deve ficar entre 0,3% e 0,4%, a depender principalmente do comportamento do grupo alimentação, que ainda carrega efeitos sazonais relevantes neste início de ano.
O pano de fundo é claro: a inflação começa 2026 em um patamar mais confortável do que aquele observado ao longo de 2025. Isso não significa ausência de riscos. Pelo contrário. O ambiente doméstico – marcado por incertezas políticas – e o cenário internacional, ainda sujeito a choques e ruídos produzidos pelas decisões de Trump, tendem a aumentar a volatilidade das previsões ao longo do ano.
O grupo alimentação merece atenção especial. Em 2025, foi ele quem ajudou a segurar a inflação, com alta média relativamente moderada. Para 2026, porém, o risco vem do clima. A probabilidade de ocorrência de um novo evento de El Niño vem aumentando, com sinais de impacto a partir do segundo trimestre. Caso esse cenário se confirme, os efeitos sobre as safras podem pressionar os preços dos alimentos, alterando rapidamente o balanço inflacionário.
Se isso acontecer, mesmo com a desaceleração dos serviços e de outros preços monitorados, a inflação pode encontrar mais dificuldade para recuar no ritmo inicialmente esperado. A projeção central ainda aponta para um IPCA abaixo de 4% em 2026, mas o caminho até lá não será trivial – e dependerá não apenas de decisões econômicas e políticas, mas também de fatores que fogem ao controle, como o clima.
É justamente por isso que acompanhar a inflação exige mais do que olhar um número isolado. Exige entender o que está por trás dos preços, como eles se formam e quais forças estão em jogo a cada momento. As estatísticas de preços do FGV IBRE cumprem esse papel: ajudam a transformar ruído em leitura econômica, incerteza em análise e números em compreensão.
Num ano que promete ser desafiador, seguir de perto esses indicadores é menos um hábito técnico e mais uma ferramenta essencial para quem quer entender — de fato — o que está acontecendo com a economia brasileira.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.










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