Cenários

A economia e as eleições

11 mar 2026

Eleição deste ano projeta dois caminhos: direita foca em contenção fiscal e abertura comercial. Já continuidade de Lula traz desafio de compatibilizar orçamento engessado com as regras de gasto, o que pode pressionar o câmbio e a inflação.

A eleição presidencial que está-se aproximando suscita a dúvida: o que acontecerá em cada caso? Com base nesta resposta, e com base nas pesquisas eleitorais, pode-se então fazer um cenário probabilístico que permite projetar o que se espera para o ano que vem, e por decorrência para o restante deste ano. 

Comecemos pela parte mais fácil. Flávio Bolsonaro está-se consolidando como o nome que representará a direita nesta eleição. Isto tem inúmeras consequências. Vejamos algumas destas a seguir. Primeiro, do ponto de vista fiscal antevê-se que haverá uma forte contenção de gastos que colocará a trajetória da relação dívida/pib (aqui pensando na dívida bruta do governo geral - DGBB) em descendente, retirando-nos da perigosa proximidade com a zona de dominância fiscal. Como já vimos em outros artigos que escrevi no Broadcast, esta estimativa hoje está entre 85 e 90% do PIB. Incluo aqui uma necessária revisão das medidas tributárias impostas pelo governo Lula, em especial o irresponsável e custosíssimo aumento do IOF. Segundo, do ponto de vista monetário, espero que a lição da dificuldade de perseguirmos uma meta para a inflação de 3% ao ano no nosso país, país este que volta e meia flerta com estímulos fiscais, é uma inconsequência. Assim, uma vez que o comportamento da DGBB esteja solidamente indicando uma diminuição (e isto passa por uma taxa de juros nas NTN-B’s longas próximas ou abaixo de 5% ao ano), seria hora de passarmos a adotar uma meta mais realista de 4%, ou ainda 4,5% ao ano. Terceiro, do ponto de vista comercial parece-me que teremos uma abertura, finalmente, inclusive com uma imediata reversão do aumento de imposto de importação para bens de capítal e sua eliminação por completo num horizonte de poucos anos. Quarto, tudo indica que teremos uma visão mais equilibrada que a de Jair Bolsonaro no que tange à agenda ambiental. Desta maneira, abandonaremos de vez a noção de que o progresso na Amazônia passa pelo desmatamento para dar lugar a pastagens para pecuária extensiva altamente ineficiente, ou para a expansão do cultivo da soja. O mundo demanda os serviços de captura de carbono atmosférico da Amazônia. E temos que nos aproveitar deste fato para rentabilizar a preservação e a restauração da floresta. Quinto, a reforma administrativa voltará a ter foco. Sexto, há um sem número de medidas microeconômicas completamente erradas que precisam ser urgentemente revogadas: Nova Indústria Brasil, incentivos à indústria naval, linhas de crédito para caminhões (incrível esta péssima ideia que levou à greve dos caminhoneiros ter sido reavivada), modificações que tiraram poder da TLP no BNDES, entre outras muitas. Sétimo, por fim, imagino que este governo entenderá a urgência de reforçar o Bacen e o COAF, aprovando a lei de resolução bancária e a PEC da autonomia administrativa.

E agora vem a parte mais difícil. O que esperar de um governo Lula no seu quarto mandato? Se pensarmos no “mais do mesmo”, veremos que tal política é matematicamente inviável. Diversas estimativas da IFI e de várias outras fontes, inclusive do ministério do planejamento, mostram que há uma incompatibilidade entre a regra de reajuste do salário mínimo acima da inflação e o nosso orçamento completamente engessado, o que faria com que houvesse a paralisação do governo. Basta ver que tal fato já está em andamento: universidades federais à mingua de recursos para sua manutenção e o aumento da fila do INSS mostram as consequências de gastos necessários represados. Assim, o cenário “mais do mesmo” resulta em “crise no primeiro ano de governo”, isto é, disparada do dólar e inflação já no ano que vem. O segundo cenário com Lula eleito seria a tentativa de restringir um pouco os gastos e aumentar ainda mais impostos. Neste caso, veríamos que o Congresso, muito provavelmente ainda mais oposicionista que o atual, teria dificuldade de aprovar aumentos de impostos. Portanto, teríamos soluções insuficientes para os problemas. A crise ficaria cada vez mais clara, com a elevação da DBGG/PIB em níveis que provavelmente levariam à dominância fiscal. Sem reação severa do governo, a crise surgiria num prazo um pouco maior que se fosse a primeira alternativa (que foi chamado de “mais do mesmo”). Terceiro, por fim, há uma versão extremada, na qual o lema “gasto é vida” é levado ao pé-da-letra, e governo exarcebaria as medidas extravagantes que tem tomado do ponto de vista de despesas. Neste caso, pode ser que bastasse o anúncio da política para levar à crise de imediato.

Em suma, as pesquisas de opinião poderão, à proporção que se aproxima a eleição presidencial, ser determinantes da trajetória do câmbio e da inflação, pelo mero efeito das expectativas. E isto independe do fluxo externo, já que a presença estrangeira na dívida pública nacional é pequena em relação aos locais. Uma forma disto mudar seria uma alteração grande no discurso do presidente Lula sobre o rumo que tomaria se fosse reeleito. 

Este artigo foi publicado originalmente pelo Broadcast da Agência Estado, em 10/03/2026, terça-feira.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

Comentários

Sidney Parizotto
Será que se tivermos um quarto mandato do Presidente Lula e com a política do mais do mesmo, pois nada me indica que aprenderam alguma coisa, a Academia brasileira e uma parte maior da população começará a entender a importância de controle dos gastos públicos visando menos desperdícios, mais eficiência destes gastos e menos necessidade de aumentos de impostos? As vezes, o sofrimento é necessário para vir o apreendizado, não basta ouvir os mortos - lendo seus livros - ou os sensatos - lendos também seus livros e textos do nível dos publicados neste Blog. Outro dia numa entrevista, um Professor de Economia das antigas, lá do Plano Real e de antes dele ainda, fez tamanho malabarismo retórico para criticar os "nacionais" que compram a dívida pública, e criticar esta dívida, que só me restou concluir que a única solução seria, por lei, proibir que "nacionais" comprem dívida pública (investindo nos títulos do governo). E no trecho desta entrevista nenhuma palavra sobre ineficência governamental ou ajuste de contas. Também lembro de outra entrevista, esta sim na categoria dos "sensatos", do Professor Samuel Pessoa onde ele questiona se não queremos mesmo o populismo e a irresponsabilidade? Afinal, como diz aquele ditado não tão popular, no longo prazo estaremos todos mortos, pensar no futuro e nos que ainda não nasceram é coisa hoje em dia para argentinos.

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