O Nordeste além do desemprego: o verdadeiro tamanho da fragilidade do mercado de trabalho

Mesmo com melhora recente, mais de 22% da força de trabalho segue subutilizada no Nordeste, um problema estrutural marcado por desalento, informalidade e baixa produtividade. Esse quadro reflete limitações históricas do dinamismo econômico regional.
INTRODUÇÃO
Apesar do bom desempenho do mercado de trabalho nos indicadores tradicionais de desemprego, uma análise mais abrangente revela que ainda persiste um contingente importante de trabalhadores em situação de subutilização da força de trabalho. No quarto trimestre de 2025, enquanto a taxa de desocupação no Brasil foi estimada em 5,1%, a taxa composta de subutilização alcançou 13,4%, indicando que mais que o dobro dessa parcela da população enfrentava algum tipo de vulnerabilidade no mercado de trabalho.
Esse indicador ampliado incorpora não apenas os trabalhadores desocupados, mas também aqueles que se encontram subocupados por insuficiência de horas trabalhadas e aqueles que compõem a chamada força de trabalho potencial — pessoas que gostariam de trabalhar, mas que não estão procurando emprego no momento, grupo que inclui os trabalhadores desalentados[1]. Ignorar esses grupos significa invisibilizar milhões de brasileiros que, apesar de não estarem na procura ativa, possuem capacidade e necessidade de trabalhar.
Quando consideradas as disparidades regionais, temos um quadro ainda mais desafiador. No Nordeste, a taxa de desocupação foi de 7,1% no quarto trimestre de 2025, enquanto a taxa de subutilização atingiu 22,6%, valor substancialmente superior à média nacional. Esse resultado sugere que, na região, as dificuldades de inserção no mercado de trabalho não se manifestam apenas por meio do desemprego aberto, mas também por meio de jornadas insuficientes de trabalho e da presença de trabalhadores que, diante das dificuldades de inserção ocupacional, acabam se afastando da busca ativa por emprego.
Diante desse quadro, torna-se relevante examinar com maior detalhe a composição da subutilização da força de trabalho. Embora esse indicador sintetize diferentes formas de insuficiência de utilização do trabalho, seus componentes refletem mecanismos distintos de fragilidade do mercado de trabalho. Nesse sentido, a presente análise é particularmente relevante no caso brasileiro e, sobretudo, do Nordeste, onde diferentes formas de subutilização tendem a coexistir e revelar limitações estruturais na geração de empregos e na qualidade das ocupações disponíveis.
DIFERENÇAS REGIONAIS NA SUBUTILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
A evolução da taxa de subutilização da força de trabalho evidencia diferenças regionais importantes no funcionamento do mercado de trabalho brasileiro. Embora todas as regiões tenham experimentado oscilações ao longo do período analisado, especialmente em resposta aos ciclos econômicos recentes, o Nordeste se destaca por apresentar níveis sistematicamente mais elevados de subutilização.
Figura 1. Taxa de subutilização – Brasil e regiões (2012.T1 – 2025.T4)

Fonte: IBGE/PNAD Contínua. Elaboração: IBRE/FGV.
No início da série, em 2012, a taxa de subutilização na região Nordeste já se situava em patamar significativamente superior ao observado nas demais regiões do país. Ao longo dos anos seguintes, essa diferença persistiu, mesmo diante das flutuações associadas ao ciclo econômico nacional.
Nos anos mais recentes, observa-se uma trajetória de redução da subutilização em todas as regiões, acompanhando a recuperação do mercado de trabalho. Entre o quarto trimestre de 2024 e o quarto trimestre de 2025, a taxa de subutilização no Brasil recuou de 15,2% para 13,4%, refletindo a ampliação do nível de ocupação e a redução gradual das diferentes formas de insuficiência de trabalho.
Esse movimento de queda foi observado em todas as grandes regiões do país, embora em magnitudes distintas. O Nordeste continua se destacando por apresentar níveis significativamente mais elevados de subutilização da força de trabalho. No quarto trimestre de 2025, a taxa na região foi estimada em 22,6%, valor substancialmente superior à média nacional (13,4%) e mais que o triplo do observado na região Sul (7,2%). Mesmo considerando a queda recente — de 25,7% no quarto trimestre de 2024 para 22,6% um ano depois — o indicador permanece em patamar elevado quando comparado às demais regiões do país.
SUBUTILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO NO NORDESTE
A elevada taxa de subutilização observada no Nordeste não é um fenômeno conjuntural, mas sim a expressão de desigualdades históricas e estruturais que marcam a região. Enquanto o Sul e o Sudeste consolidaram economias mais dinâmicas e diversificadas, o Nordeste historicamente apresentou maior dificuldade de absorção da mão de obra em atividades formais e de maior produtividade. Essa herança se reflete em um mercado de trabalho caracterizado pela sazonalidade, pela concentração em setores de baixo valor agregado e pela persistência de vínculos precários.
O gráfico da Figura 2 revela uma realidade que o indicador tradicional de desemprego não capta. Considerando os dados mais recentes, enquanto a taxa de desocupação — restrita a quem procurou trabalho e não encontrou — fechou 2025 em 7,1%, a taxa composta de subutilização atingiu 22,6%. Isso significa que, para cada pessoa desempregada no sentido convencional, há outras duas em situações de precariedade: os subocupados, que trabalham menos horas do que necessitam (e que elevam o indicador para 14,9% quando somados aos desocupados), e a força de trabalho potencial, formada majoritariamente pelos desalentados (que, somados aos desocupados, levam o indicador a 15,5%). A taxa composta de subutilização, que sintetiza todas essas dimensões (desocupados, subocupados e força de trabalho potencial) alcançou 22,6%, revelando que mais de um quinto da força de trabalho ampliada nordestina enfrenta algum tipo de inserção precária ou involuntariamente reduzida no mercado de trabalho.
Acompanhando a melhora recente nos indicadores do mercado de trabalho, a taxa composta de subutilização no Nordeste caiu de 25,7% no 4º trimestre de 2024 para 22,6% no 4º trimestre de 2025. Em termos absolutos, isso representa uma redução de 959 mil pessoas em situação de subutilização (de 7.242 mil para 6.283 mil). O gráfico da Figura 3 apresenta a evolução dos três componentes da subutilização no Nordeste entre o 4º trimestre de 2024 e o 4º trimestre de 2025. A redução na força de trabalho subutilizada decorreu da queda em todas as categorias, mas com intensidades distintas.
A leitura combinada desses movimentos revela aspectos importantes da recuperação recente. Por um lado, a queda expressiva da força potencial pode indicar que a melhora do mercado de trabalho está reanimando parte daqueles que haviam desistido de procurar emprego. Por outro lado, a redução mais lenta da subocupação sugere que muitas das novas ocupações geradas podem não estar oferecendo jornadas suficientes, empurrando trabalhadores do desemprego para a condição de subocupados.
Figura 2. Indicadores de desocupação e subutilização da Força de Trabalho no Nordeste (2024.T4 – 2025.T4)

Fonte: IBGE/PNAD Contínua. Elaboração: IBRE/FGV.
A partir das estimativas mais recentes, a taxa de desocupação do Nordeste (7,1%) é superior à nacional (5,1%), mas quando olhamos a composição da subutilização, vemos que o desemprego aberto explica apenas 28,7% do problema na região. Enquanto no Brasil os desocupados são o principal componente (36% da força de trabalho subutilizada), no Nordeste a força de trabalho potencial é o maior grupo (40,1%). Isso significa que, na região, o problema não é apenas a falta de emprego para quem procura, mas sim uma forma de desalento estrutural em que as pessoas já desistiram de estar no mercado de trabalho e procurar por ocupação.
Já os subocupados representam 31,2% da subutilização no Nordeste, no Brasil esse percentual é de 29,5%. Isso indica que, mesmo entre os ocupados na região, frequentemente as pessoas deste grupo trabalham menos horas do que gostariam ou precisariam.
A força de trabalho potencial era formada por 2,52 milhões de pessoas no 4º trimestre de 2025. Esse grupo representa 40,1% de todos os subutilizados da região, um percentual significativamente superior à média nacional (34,5%). Dentro desse contingente, os desalentados são maioria absoluta: representam 63% da força potencial nordestina, contra 50,6% no Brasil.
O predomínio dos desalentados no contingente da força potencial nordestina evidencia o caráter estrutural do problema. Ainda assim, é possível identificar avanços no período recente. O percentual de pessoas desalentadas (em comparação com a população na força de trabalho ou desalentada) na região caiu de 6,8% para 5,9% no período, uma redução de 261 mil pessoas (de 1.848 mil para 1.587 mil). É um avanço importante, mas o percentual ainda é mais que o dobro da média nacional (2,4%).
Esse dado é revelador sobre uma dificuldade de inserção no mercado de trabalho nordestino, no qual é presente a percepção de falta de oportunidades, o que que leva parcela expressiva da população a abandonar definitivamente a busca ativa por trabalho.
Figura 3. Evolução recente dos componentes da subutilização da Força de Trabalho no Nordeste (2024.T4 – 2025.T4)

Fonte: IBGE/PNAD Contínua. Elaboração: IBRE/FGV.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os desocupados, que totalizavam 1,81 milhão de pessoas no Nordeste no 4º trimestre de 2025, representam o componente mais visível da subutilização e, por isso mesmo, aquele para o qual as políticas públicas tradicionalmente se voltam. Trata-se de indivíduos que estão em busca ativa de trabalho e disponíveis para assumir uma ocupação, mas que não encontram oportunidades compatíveis com seu perfil e expectativas.
Os subocupados por insuficiência de horas, que somavam 1,96 milhão de pessoas no Nordeste ao final de 2025, representam um desafio complexo. Esse contingente já está inserido no mercado de trabalho, mas em condições que não permitem o aproveitamento pleno de sua capacidade produtiva. Neste grupo predominam os trabalhadores informais – que atualmente correspondem a quase 50% dos ocupados no Nordeste –, com maior probabilidade de experimentar jornadas instáveis, intermitentes ou reduzidas involuntariamente, pois não estão protegidos pelos contratos formais que garantem carga horária mínima e direitos associados. Soluções para este tipo de vulnerabilidade passam pelo estímulo à formalização do trabalho e o fortalecimento da fiscalização trabalhista para coibir práticas que fragmentam artificialmente as jornadas.
Por fim, a expressiva participação da força de trabalho potencial na subutilização nordestina impõe desafios distintos. Diferentemente dos desocupados, que podem ser alcançados por políticas tradicionais de intermediação de mão de obra, qualificação profissional e geração de vagas, a força potencial é um contingente invisível aos canais convencionais de busca por emprego. São pessoas que, por já terem desistido de procurar, não acessam os serviços de colocação profissional, não se cadastram em agências de emprego e não são contabilizadas nos indicadores que orientam muitas políticas. Alcançar esse grupo exige estratégias ativas de busca, cadastramento e reinserção, combinadas com políticas que ataquem as causas do desalento: a percepção de que não há oportunidades, a baixa qualificação, as responsabilidades de cuidado e o descompasso entre as vagas existentes e o perfil da população. Sem ações direcionadas a esses 2,5 milhões de nordestinos que já nem sequer procuram trabalho, a subutilização na região permanecerá estruturalmente elevada, ainda que o desemprego aberto continue em queda.
Por todas essas questões, é preciso reconhecer que o mercado de trabalho responde de forma direta à dinâmica econômica. As políticas específicas para desocupados, subocupados e força de trabalho potencial, embora necessárias, não substituem a necessidade de investimentos que modernizem e diversifiquem a estrutura produtiva do Nordeste. A geração de oportunidades em setores dinâmicos é condição indispensável para absorver, em condições dignas, os 6,28 milhões de nordestinos que hoje se encontram subutilizados. O mercado de trabalho da região depende de um movimento mais amplo de transformação econômica, sem o qual as políticas públicas setoriais atuarão apenas nas margens de um problema estrutural.
Texto publicado originalmente na Edição 17 do Boletim Macro Regional – Nordeste.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
[1] Mais detalhes sobre as medidas de subutilização da força de trabalho podem ser consultados em:
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: divulgação especial – medidas de subutilização da força de trabalho no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. Disponível em: https://ftp.ibge.gov.br/Trabalho_e_Rendimento/Pesquisa_Nacional_por_Amos....










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