El Niño volta em 2026 e seus efeitos sobre a produtividade agrícola são diferenciados entre regiões e culturas

El Niño já está configurado no Pacífico e volta a colocar clima no centro das projeções agrícolas para 2026/27. Mas risco não se distribui de maneira uniforme. O fenômeno importa, mas seus efeitos dependem da região, da cultura e do sistema produtivo.
Introdução
Em junho de 2026, o El Niño voltou a ocupar o centro das discussões climáticas — agora não mais como previsão, mas como evento em curso. A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) já declarou a presença das condições associadas ao fenômeno e projeta que ele deve se intensificar até o inverno do Hemisfério Norte, no fim de 2026 e início de 2027.[i] No Brasil, uma nota técnica conjunta do INPE, do INMET, da FUNCEME e do CENSIPAM havia apontado, ainda em abril, probabilidade superior a 80% de o El Niño se configurar ao longo do segundo semestre, com possível extensão até 2027, e alertado para o risco de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do país.[ii]
O El Niño corresponde à fase quente do El Niño–Oscilação Sul (ENOS), que resulta da interação entre o oceano e a atmosfera na região equatorial do Pacífico. Embora tenha origem ali, o fenômeno produz efeitos em regiões distantes: o aquecimento das águas modifica a formação de nuvens, os ventos e a circulação atmosférica em grande escala, alterando o transporte de umidade, a temperatura e a distribuição das chuvas em diferentes partes do planeta. A fase oposta, de resfriamento anormal dessas águas, é a La Niña.
No Brasil, os efeitos variam conforme a região e a época do ano. Durante o El Niño, observa-se, em geral, aumento das chuvas no Sul e redução da precipitação no Norte e no Nordeste. Essas diferenças regionais importam diretamente para a agricultura: grande parte das lavouras brasileiras é conduzida em regime de sequeiro e depende da quantidade e da distribuição das chuvas ao longo do ciclo. Estiagens comprometem germinação, desenvolvimento e formação dos grãos; chuvas excessivas atrasam plantio e colheita e reduzem a radiação disponível. O efeito do ENOS sobre a produtividade depende, assim, não só da fase do fenômeno, mas da região, da cultura e do momento em que as alterações ocorrem.
Como medimos o efeito
Para mensurar esses efeitos, analisamos a produtividade (rendimento médio, em quilogramas por hectare) de soja, milho, arroz e feijão entre 1990 e 2024. Os dados vêm da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, organizados por microrregião e ano. Após a compatibilização das bases, o painel reúne 61.260 observações cultura–microrregião–ano, distribuídas entre 558 microrregiões, quatro culturas e 35 anos.
A escolha das quatro culturas não é arbitrária. Soja e milho respondem por parcela expressiva do valor da produção agrícola brasileira e ancoram a balança comercial do agronegócio; arroz e feijão são pilares da segurança alimentar e compõem a base da dieta da população. As conclusões estão, portanto, condicionadas a esse recorte: valem para essas quatro lavouras, e culturas com outra geografia ou outro sistema produtivo podem responder de forma distinta ao ENOS.
As condições do ENOS são representadas pelo Oceanic Niño Index (ONI), da NOAA, que mede as anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial central. Como os efeitos climáticos dependem do estágio de desenvolvimento das culturas, adotamos a média do ONI entre outubro do ano anterior e fevereiro do ano da colheita — janela que cobre o plantio e o desenvolvimento das principais lavouras de verão.
A estratégia explora um fato simples: um mesmo episódio do fenômeno atinge as regiões do país de formas distintas. Comparamos, então, como a produtividade de microrregiões situadas em diferentes partes do território responde ao mesmo estado do ENOS em cada ano, tomando a Região Sudeste como referência. Os modelos estatísticos controlam características locais que não mudam ao longo do tempo (solo, relevo, localização), fatores que afetam todas as regiões simultaneamente em um dado ano (preços, câmbio, crédito rural) e diferenças persistentes no ritmo de modernização entre as macrorregiões.
Em um primeiro exercício, tratamos o ONI de forma linear. Esse diagnóstico inicial revela forte heterogeneidade regional em que os efeitos mais fortes são observados sobre as culturas do milho, arroz e feijão. A região Nordeste é a mais exposta, enquanto algumas culturas no Sul do país ocasionalmente se beneficiam. Esse gradiente é coerente com os mecanismos agronômicos: milho, arroz e feijão nordestinos são majoritariamente de sequeiro e sensíveis à chuva, enquanto a soja cultiva na região concentra-se em áreas mais tecnificadas, sobretudo no Matopiba. No Sul, em contraste, o milho se beneficia com a maior precipitação que o El Niño tende a trazer à região.
Excesso e escassez de chuva não produzem efeitos espelhados sobre uma lavoura, e um único coeficiente negativo pode estar misturando duas histórias diferentes. Por isso, o cerne do estudo distingue as duas fases do ENOS.
Resultados do exercício empírico: assimetria entre El Niño e La Niña
Em vez de um único coeficiente por região, estimamos dois — um para anos de El Niño e outro para anos de La Niña —, ambos medidos em relação aos anos neutros (e em relação à região Sudeste). Esse exercício traz uma primeira mensagem importante, que o modelo contínuo escondia: o coeficiente negativo do Nordeste no retrato inicial não deve ser lido automaticamente como perda em anos de El Niño.
Esse ponto é especialmente claro para soja e milho. No Nordeste, os efeitos de El Niño sobre essas culturas são positivos ou próximos de zero, sem evidência estatística robusta de perdas. Já nos anos de ocorrência de La Niña, os efeitos se mostraram positivos e estatisticamente significantes, da ordem de 12% na soja e 16% no milho. Esse resultado é bastante condizente com a realidade que relaciona anos de resfriamento do Pacífico com melhores condições hídricas em áreas dependentes da regularidade pluviométrica. Ou seja, para essas duas culturas, a inclinação negativa do modelo contínuo é movida sobretudo por ganhos significativos em La Niña, e não por perdas em El Niño.
Figura 1. Coeficientes estimados de El Niño e La Niña por região e cultura.

Fonte: Elaboração própria com dados da PAM/IBGE e do ONI/NOAA.
Por sua vez, as estimativas para arroz e feijão desenham um cenário distinto. Nessas culturas, os efeitos negativos de El Niño aparecem com clareza e se concentram nas regiões Norte e Nordeste. No Nordeste, anos de El Niño reduzem o rendimento do arroz em cerca de 11% e o do feijão em cerca de 6%, ambos em relação a anos neutros e ao cultivo no Sudeste. No Norte, observam-se recuos de aproximadamente 4% no arroz e 6% no feijão. Resultados coerentes com o mecanismo climático esperado: o El Niño tende a reduzir a precipitação nessas regiões, afetando diretamente lavouras de sequeiro.
A assimetria também aparece na região Sul, onde a La Niña se associa a redução relativa do rendimento do milho — o que é compatível com as estiagens que atingem a região nessa fase —, enquanto o arroz, majoritariamente irrigado, mostra resposta menos negativa. No Centro-Oeste, os coeficientes são em geral menos precisos, o que recomenda maior cautela na análise.
Vale destacar que os resultados são robustos a diferentes escolhas metodológicas. Promovendo variações nos parâmetros empregados para inferência, como o alcance da correção espacial, a inferência sobre os resultados não se altera. A inclusão de defasagens do ONI também não muda os coeficientes contemporâneos, indicando que o choque climático age predominantemente sobre a safra em campo. Um teste placebo, que usa o ONI da safra seguinte, produz coeficientes próximos de zero e estatisticamente insignificantes, o que também afasta a hipótese de que os resultados reflitam tendências regionais mal controladas.
Figura 2. Síntese espacial dos efeitos estimados para anos de El Niño. (tons de vermelho indicam perdas relativas, tons de azul, ganhos relativos).

Fonte: Elaboração própria com dados da PAM/IBGE e do ONI/NOAA.
O que isso significa?
Duas ressalvas ajudam a interpretar os números com a devida cautela. Primeiro, os resultados expressam diferenças de desempenho entre regiões, e não a variação absoluta da safra nacional: indicam onde o risco se concentra, não o tamanho total de eventuais perdas. Segundo, como cada cultura pode ter mais de uma safra ao longo do ano, os efeitos estimados representam uma média dessas safras, o que é especialmente pertinente ao feijão, plantado em mais de um ciclo anual.
Feitas essas ressalvas, a mensagem central é nítida e tem implicações práticas diretas, sobretudo diante do El Niño em curso, com previsão de intensificação até o fim de 2026 e início de 2027. O risco climático associado ao fenômeno aparece menos concentrado nas grandes lavouras de soja do Centro-Oeste e do Sul e mais concentrado nas culturas alimentares do Norte e do Nordeste. Esse padrão é relevante para a precificação de seguros, o planejamento de estoques e a gestão de preços regionais. Em particular, instrumentos de proteção como o seguro rural e o Garantia-Safra podem se beneficiar de uma priorização analítica justamente nas culturas e nos territórios onde a exposição ao El Niño se mostra mais consistente.
Este artigo resume resultados do estudo "Efeitos do El Niño na Produtividade Agrícola Brasileira: Evidência para um painel de microrregiões (1990–2024)", publicado pelo autor na série Prisma (nº 01) do LABDEA/UFC (https://labdea.ufc.br/wp-content/uploads/2026/06/prisma-01.pdf).
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.
[i] NOAA (2026). ENSO Diagnostic Discussion. Climate Prediction Center. url: https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory... (acesso em 13/06/2026).
[ii] INPE et al. (abr. de 2026). Nota Técnica — El Niño 2026. Nota técnica conjunta.
url: https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/NotaTecnicaConju... (acesso em 13/06/2026).










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