Macroeconomia

120 anos: auge e declínio da economia brasileira

23 mar 2022

O desempenho da economia brasileira tem sido sofrível no passado recente. Foi sempre assim? Os anos dourados existiram? Nesse texto procura-se examinar o passado recente até onde se conta com informações sobre a geração de renda e sobre a eficiência econômica desse passado.

Os últimos 21 anos de PIB e PIB per capita

O IBGE divulgou no dia 4 de março os resultados da atividade econômica em 2021. O PIB cresceu 4,6% o que significa ter sido em 2021 de aproximadamente, R$ 8 trilhões, 679 bilhões e 490 milhões, conforme ilustrado no Gráfico 1. Tal resultado é apenas 0,7p.p. superior ao PIB de 2019, antes da pandemia, que foi de R$ 8 trilhões, 630 bilhões e 534 milhões.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, CNT.

No Gráfico 1, observa-se que o PIB cresce fortemente até o ano de 2014, cai até 2016 e fica estagnado no restante dos anos até 2021. O PIB per capita, por sua vez, cresce até 2012 e declina a partir daí, sendo seu valor de 2021 inferior ao de 2010.

A que se pode associar tal desempenho?

Os últimos 21 anos das atividades econômicas

Examinar as atividades que compõe o PIB permite uma primeira explicação; como está ilustrado no Gráfico 2 abaixo, pode-se verificar que:

- A atividade agropecuária, nestes 21 anos, praticamente dobrou seu valor adicionado (de R$ 319,7 bilhões para R$ 591,1), aumentando sua participação no VA total de 7 para 8%. A sua principal característica é ser uma commodity com forte demanda internacional e elevado valor comercial;

- A indústria teve um desempenho bem inferior aumentando, no mesmo período, seu valor adicionado em 27,6% (de 1,3 trilhões de Reais para R$ 1,6 trilhões), reduzindo sua participação para 22% no total do VA;

- Os serviços crescem 57% ( de 3,2 trilhões de Reais para 5,2 trilhões), aumentando sua participação no VA total para70%.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, CNT.

Como o Gráfico 3 ilustra, o pior desempenho, entre os componentes da Indústria, com um crescimento de apenas 14,4%, coube à Transformação; esta, depois de crescer de 2001 até 2008, reduziu-se em 2009 com a crise financeira, e oscilou daí em diante, voltando a cair durante a recessão de 2014-16, não expressando qualquer reação de retomada mais significativa, ficando estagnada em torno de um valor adicionado de 850 bilhões de Reais.

Saliente-se que, a indústria de transformação apresenta o quinto maior valor adicionado entre as doze atividades da economia, atrás apenas do comércio, da intermediação financeira, outros serviços e administração pública.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, CNT.

Um aspecto a chamar a atenção, no Gráfico 3 acima é que os únicos componentes da indústria a apresentarem crescimento foram a extrativa mineral (outra commodity) e o pequeno crescimento da eletricidade, já que as demais estão há vinte anos estagnadas.

Os serviços por sua vez tiveram o valor adicionado aumentado, no período, seu VA em 56% (de R$ 3.283 bilhões para 5.153 bilhões de Reais), representando, em 2021, 70% do valor adicionado total da economia. Entre os seus componentes se destacam a administração pública, o comércio e os outros serviços, que somados representam cerca de 45% da economia.

Um aspecto a ser observado no Gráfico 4, abaixo, é que todos os componentes dos serviços têm trajetória semelhante: crescem significativamente até 2014, reduzem durante a recessão e depois de seu fim, em 2016, ficam estagnados e entram em nova recessão, com a chegada da pandemia, com pequeno crescimento em 2021.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, CNT.

A Evolução da Produtividade nos últimos 21 anos

Um aspecto a ser explorado é o desempenho da produtividade, tomando-se os cuidados que são apontados nos 4 textos sobre a produtividade publicados no blog do IBRE.[1] Inicialmente no Gráfico 5, abaixo, estão ilustradas as evoluções da produtividade do PIB e dos seus grandes setores de atividade. A produtividade aumenta 20% durante os anos de 2001 (R$ 71.908,00) a 2013 (R$ 85.993,00), cai em 2014 e fica estagnada até 2021, na faixa dos R$ 82.000,00.[2]

A indústria, que tem a maior produtividade, declina durante todo o período enquanto a agropecuária, que tem a menor produtividade, cresce vigorosa e initerruptamente durante todo o período. Os serviços, que têm baixa produtividade, evoluem de forma semelhante ao PIB embora iniciem sua inflexão de queda já a partir de 2010.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, CNT.

No Gráfico 6, abaixo, a produtividade está desagregada por componentes da indústria. Fica evidente que dois componentes explicam a paralisia da produtividade industrial: a indústria de transformação e a de construção cujas produtividades declinam, lentamente, durante os últimos 20 anos. A produção e distribuição de energia cresce, bem como a extrativa mineral, esta última com ótimo desempenho graças à duas commodities: exploração de petróleo e gás e de minério de ferro.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, CNT.

Três conclusões podem ser enunciadas até aqui:

       A derrocada da economia brasileira está fortemente associada ao desempenho da indústria de transformação e da construção; ambas ditam a evolução da indústria e a indústria dita o rumo da economia brasileira, embora não seja ela seu componente mais importante;

        Os serviços embora representem a maior parte do PIB, acompanha o movimento do PIB;

        As commodities agropecuária e extrativa mineral não sofrem qualquer limitação, evoluindo vigorosamente sem interrupção.

Os últimos 120 anos – resultados do desempenho do PIB e seus componentes

Até agora, foram abordadas as duas décadas mais recentes. Entretanto é possível observar a evolução do PIB e seus componentes por um período mais longo. O Gráfico 7, abaixo, ilustra a evolução do PIB ao longo dos últimos 120 anos e do valor adicionado dos setores agropecuária, indústria e serviços ao longo dos últimos 80 anos.[3]

Observa-se, inicialmente que o PIB cresceu cerca de 63 vezes de 1900 até 1949; nas duas décadas seguintes cresce um pouco mais de 90% em cada uma, e na década de 1970-79 tem seu auge de crescimento com 124%. A partir daí, tem resultados mais modestos: na década de 1980-89 o PIB: cresceu 56%; na década de 1990-1999, cresceu 23%; e cresce em torno de 33% nas duas décadas seguintes.

O crescimento da década de 1970 foi mitigado pelos dois choques do petróleo (1973 e 1979), e pela subsequente crise financeira. A década 1980-89 foi marcada pela reversão de crescimento nos anos 1981-83, pela crise da dívida pública e pelo recrudescimento da inflação que culminaria na hiperinflação da segunda metade da década. A década de 1980 ficou conhecida como década perdida, mas seu crescimento (56%) não foi o pior, já que a década 1990-99 cresceu a uma taxa de 23%, mas foi marcada pelo bem-sucedido plano Real que trouxe de volta a estabilidade de preços. A economia política desse período está bem desenvolvida por Bacha e Bonelli.[4]

Nota-se que nesse período, os dados disponíveis mostram que a indústria total cresceu na década de 1960-1969, 111% puxado pelo processo de industrialização, que teve continuidade nos projetos de consolidação da indústria na década de 1970-1979 crescendo 152%. Como mencionado acima, a crise dos choques de petróleo e financeira, se transformou numa crise da dívida pública interrompendo aquele exitoso processo. As taxas de variação decenal da indústria, nas décadas seguintes foram medíocres, chegando a 11% em 1990-1999, e arrastou o PIB ladeira abaixo. A correlação das taxas de variação decenal da indústria e do PIB é de 0,998.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, Estatísticas do Século XX e IPEA, ipeadata

O Gráfico 8 abaixo mostra que os componentes da indústria que a arrastaram para baixo são claramente a Transformação e a Construção que cresceram na mesma trajetória, chegando a registrar, no auge, taxas de variação das décadas de 141% e 176% respectivamente. As correlações de suas variações decenais são para a Transformação, 0,99% e para a Construção, 0,97%. No caso da Transformação ela corresponde ao final da consolidação da industrialização de 1960 a 1979; no caso da Construção corresponde ao período de grandes obras de governo, principalmente hidroelétricas e estradas e a própria construção de Brasília. A partir daí com a crise da dívida os gastos dos governos arrefecem e a inflação, e as tentativas de seu controle, prejudicam também a Transformação, levando ambas a redução de seus crescimentos, arrastando a economia para baixo.[5]


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, Estatísticas do Século XX. IPEA, ipeadata

O setor de Serviços, como visto no Gráfico 8, acompanha a trajetória do PIB. A hipótese aqui é que a indústria é o motor do crescimento enquanto os serviços seguem o PIB. A agropecuária, por ser uma commodity, segue um curso independente da economia doméstica. No Gráfico 7 foi vista a forte aderência das taxas de variação decenal do PIB e dos serviços (correlação de 0,999).

O Gráfico 9 abaixo mostra a evolução do Setor de Serviços vis a vis seus componentes. com informações disponíveis em diferentes períodos. Observa-se que nas primeiras informações disponíveis os componentes desagregados, Comércio e Transportes,  ditam a evolução do setor de serviços e no período mais recente todos os componentes  se juntam.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE

Finalmente, vale notar que a década recém iniciada, de 2020-2029, não começou bem e a comparação da taxa de variação do PIB dos dois anos desta década em comparação com os dois primeiros anos da década anterior (2010-2019) foi de apenas 3,1%. Com as informações disponíveis pode-se observar que a indústria de Transformação e a da Construção apresentaram resultados negativos: -24,6% e -21,1% respectivamente. Salvaram-se a Agropecuária, a Extrativa e a Eletricidade. Tais resultados não negam nossas hipóteses: sem a indústria e particularmente a Transformação e a Construção, amargaremos muitas novas décadas perdidas.

Os últimos 36 anos – resultados da produtividade

Foi vista na seção anterior a evolução do PIB e das atividades econômicas, em diversas fases desde 1900. Importa agora ver como evoluiu a produtividade desses agregados segundo a disponibilidade de informações. Para o PIB há informação desde 1900, mas para as atividades econômicas desagregadas apenas a partir de 1947. Para informações sobre pessoal ocupado (ocupações, fator trabalho) as informações mais antigas datam de 1990 com as Tabelas de Recursos e Usos, e para 1985 com a Matriz de Insumo Produto, ambas das Contas Nacionais do IBGE.

O Gráfico 10 abaixo mostra que a produtividade da economia cresce nos primeiro dez anos iniciados em 1985, cai em 1995 e inicia um lento processo de crescimento até 2013 e volta a cair. Seu valor em 2021 é 30% superior ao valor de 1985, 36 anos atrás. Seu melhor momento foi em 2013.

A produtividade da agropecuária eleva-se de forma rápida e seu valor em 2021 é 255% superior ao valor de 1985. Seu período de crescimento nos primeiros 18 anos (1985-2003) foi de 82% e nos 18 anos seguintes até 2021 cresceu 95%, com importantes modernizações como o uso de fertilizantes e máquinas agrícolas, o que a permitiu explorar o mercado internacional.

A produtividade da indústria evolui de forma desastrosa; estagnada durante os 36 anos, hoje ela é cerca de 1% inferior a 1985, tendo tido seu melhor momento em 1994. Mesmo submetida a uma política cambial que a obrigaria a aumentar sua produtividade para concorrer com importados, o que não aconteceu.

A produtividade dos serviços segue a produtividade da economia da qual é o maior partícipe, embora com tendência a se afastar, com uma evolução não tão eficiente como o total da economia.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, CNT e  Estatísticas do Século XX.

Na tentativa de entender melhor o desastre da Indústria, ela foi desagregada nos seus quatro componentes. Note-se, no Gráfico 11, que:

A produtividade da Transformação evolui colada a produtividade Industrial, condicionando-a.

A produtividade da Construção declina todo o período e sua produtividade em 2021 é 36% inferior à de 1985.

A produtividade da Extrativa Mineral cresce até 2003, fica estagnada até 2014 e volta a crescer a partir daí; seu valor é hoje 330% superior ao valor de 1985. Essas melhorias coincidem e são consequências de dois fatos importantes. O primeiro refere-se à privatização da Vale do Rio Doce em 1996; o segundo refere-se ao anúncio pela Petrobrás da descoberta do pré-sal em 2007. Esses eventos aumentaram a produção e a produtividade da exploração dessas commodities.

A produtividade da eletricidade cresce continuamente desde 2000, mas pouco influenciando a produtividade da Indústria, como um todo.


Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE, CNT e Estatísticas do Século XX.

Conclusões:

- A economia brasileira teve um desempenho exuberante durante o século XX até o final da década de 1970;

- Esse desempenho foi calcado numa forte industrialização que se prolongou até o fim da década de 1970;

- Os melhores desempenhos entre as atividades até o fim da década de 1970 foram as da Industria de Transformação e da Construção, bastante associadas à industrialização de substituição de importações e às grandes obras do governo como a construção de hidroelétricas, pavimentação de estradas, construção de Brasília, de Itaipu etc.;

- A partir de 1980 as taxas de crescimento do Produto começam a declinar com dificuldade da Transformação em competir com o Resto do  Mundo devido à estagnação da sua produtividade; e, da Construção devido à redução dessa atividade por parte dos governos estaduais e Federal assolados por forte endividamento;

- Uma novidade emerge do exame das informações das taxas de crescimento do PIB: a década de 1980-1989 não é a que apresenta a menor variação do produto (+56%); de fato isso ocorreu na década de 1990-1999 (+23%);

- São repletas de evidências que a economia brasileira só crescerá com melhorias na indústria de transformação. Para isso será necessária uma política de fortalecimento tecnológico que possibilite inovações com o consequente aumento de sua produtividade já há muito estagnada;

- Por todo o período as atividades produtoras de commodities – agropecuária e extrativa mineral, mantem elevadas taxas de crescimento dos seus produtos e de suas produtividades, mas são incapazes de alavancar a economia;

- Os serviços durante todo o período seguem o desempenho do PIB e este segue basicamente as Indústrias de Transformação e da Construção;

- Para encerrar é possível afirmar que duas notícias emergem do que foi dito: uma boa e outra má: a boa é que temos commodities e a má é que só temos commodities.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 


[2] A anomalia dos anos de 2020 e 2021 deve-se a quedas do PIB menor do que a ocupação. Ou seja, é necessário cuidado no cálculo de produtividade com queda do PIB. Produtividade é um fenômeno que indica eficiência, deve ser mensurada quando há crescimento.

[3] As informações de 1900  em diante estão disponíveis em IBGE, Estatísticas do Século XX e a preços de 2010 em IPEA, ipeadata. Estes valores foram convertidos pelos autores para preços de 2021.

[4] Edmar Bacha e Reis Bonelli, Accounting for the rise and fall of post-WW-II Brazil´s growth, disponível no site do IEP-CDG.

[5] Foi aplicado o teste de causalidade de Granger para os seguintes pares de observações: Indústria não causa PIB; Indústria de Transformação não causa Indústria; Construção não causa Indústria; PIB não causa Serviços. Foram usadas 73 informações (1947-2021) com 1 e 5 lags de suas taxas de variação anual. Em todos os casos não foi possível aceitar a hipótese nula, com elevada probabilidade. Mas, isso também ocorre quando se inverte a causalidade

Testes de Granger

Correlações

5 lags

1 lag

Indústria xPIB

94,69%

94,7%

Transf x Industria

97,23%

97,2%

Construção x Indústria

86,48%

86,5%

PIB x Serviços

94,75%

94,7%

 

Deixar Comentário

To prevent automated spam submissions leave this field empty.