Alívio das condições financeiras pode ser rapidamente revertido pelo risco fiscal

18/11/2020

Ao longo das últimas semanas, os ativos financeiros brasileiros foram favorecidos pelo ambiente externo mais otimista e mais propenso ao risco com a definição do resultado eleitoral nos Estados Unidos, o que se somou ao anúncio de alta eficácia em testes de duas vacinas contra a Covid-19. O Índice de Condições Financeiras (ICF) FGV/IBRE apontou melhora de 32% desde 30 de outubro, como mostra o Gráfico 1.

Fonte: FGV/IBRE

Apesar do alívio no curto prazo, promovido pelo ambiente externo relativamente mais favorável para emergentes, os desafios domésticos persistem e, na ausência de uma resolução para o dilema fiscal, os ganhos recentes poderão ser rapidamente revertidos.

Nosso ICF ilustrou trajetória bastante desfavorável desde o início do mês de agosto, quando as preocupações acerca do cenário fiscal se intensificaram. De lá para cá, houve forte aumento dos juros de prazos mais longos, turbulência no segmento das LFTs, que levou a abertura dos deságios desses papéis e forte desvalorização do real. O recente otimismo no ambiente externo não será suficiente para reverter a trajetória contracionista das condições financeiras nacionais de forma sustentável na ausência de um plano para manutenção do teto dos gastos e estabilização da trajetória da dívida.

O Índice de Condições Financeiras da Goldman Sachs para a economia brasileira, contudo, evidencia um cenário consideravelmente diferente do que acabamos de discutir. O Gráfico 2 exibe os indicadores de ambas as instituições desde o início deste ano. O ICF da Goldman Sachs seguiu em trajetória oposta ao nosso indicador desde meados de junho e, atualmente, indica que as condições financeiras no Brasil já se encontram em situação mais favorável do que aquela que vigorava no período pré-pandemia.   

Existem diferenças metodológicas entre os indicadores. O ICF FGV/IBRE é construído a partir de uma ampla base de variáveis financeiras relevantes para a economia brasileira. Com o objetivo de obter os componentes que têm previsibilidade em relação à atividade econômica futura de forma pura, expurgamos das variáveis financeiras a informação corrente e passada disponível na própria atividade. Em seguida, extraímos o comportamento comum dessas variáveis transformadas a partir da análise de componentes principais. Esse último passo é relevante porque apenas os movimentos comuns dos ativos influenciam a atividade futura. Por fim, utilizando técnicas ótimas de interpolação, construímos um índice diário com excelente aderência às informações mensais.

Já o ICF da Goldman Sachs, é construído a partir de uma média ponderada que inclui a taxa básica de juros, rendimento de um título de longo prazo livre de risco, spread de crédito, um indicador do desempenho dos preços de ações e a taxa de câmbio real efetiva. Os pesos de cada variável são calculados a partir de um modelo macroeconômico que reflete os efeitos das variáveis financeiras sobre o crescimento real do PIB.

Fonte: FGV/IBRE e Goldman Sachs

A despeito das diferenças metodológicas, a alta discrepância qualitativa entre os indicadores é inesperada. Mesmo após o forte alívio recente, os principais indicadores financeiros não corroboram uma retomada das condições financeiras ao patamar pré-crise. A Figura 3 mostra que importantes indicadores financeiros da economia brasileira ainda não se recuperaram totalmente: o Ibovespa ainda está mais de 10 mil pontos abaixo do nível de registrado no início do ano, o risco país consideravelmente mais elevado, os juros de prazos mais longos permanecem altos e a curva de juros mais inclinada.

Fonte: Bloomberg e ANBIMA

O comportamento do ICF FGV/IBRE também está em linha com a dinâmica exibida por um dos componentes do Índice de Incerteza da Economia (IIE-BR), a incerteza fiscal. A partir de setembro houve um forte aumento da incerteza fiscal, com impactos significativos nos preços dos ativos financeiros, devidamente refletivos em nosso indicador.

Fonte: FGV/IBRE

Em suma, sem uma solução satisfatória para o impasse fiscal as condições financeiras continuarão apertadas, deixando de produzir estímulo para a recuperação econômica ao longo dos próximos anos.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da autora, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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