Cenários

Aumento da incerteza

21 mar 2025

Maior risco para economia americana é inflacionário, mesmo com desaceleração. No Brasil, controle da inflação requer que política monetária continue ciclo de alta do juro, enquanto governo segue gastando mais do que arrecada.

Após um período de certa euforia com o governo Trump, desde fevereiro o humor dos mercados de ativos americanos experimentou significativa mudança, para pior. Como destacado na seção de Economia Internacional: bolsas, juros e dólar experimentam trajetória cadente. Essa piora é o resultado de uma combinação de duas características das mudanças de política sendo adotadas por Trump. Uma, a abrangência e a intensidade das mudanças, indo do anúncio das tarifas comerciais para diversos produtos e países à política de imigração mais restritiva, aos cortes de pessoal no governo e aos intensos embates geopolíticos. Outra, o fato de que não parece claro para ninguém exatamente o que se pretende alcançar, com alguns dos objetivos citados por autoridades conflitando com outros. As idas e vindas -- por exemplo, na adoção de tarifas -- apenas reforçam essa falta de clareza sobre quais os objetivos perseguidos e, consequentemente, o que esperar à frente.

Tudo isso elevou significativamente a incerteza sobre o rumo da economia americana: por exemplo, em relação à atividade, à inflação e à política monetária. Por seu turno, esse quadro se refletiu em quedas dos indicadores de confiança domésticos, tanto para empresários como para consumidores. De acordo com a Universidade de Michigan, informações preliminares referentes a março mostram que o sentimento do consumidor recuou para o nível mais baixo em mais de dois anos, e as expectativas de inflação de longo prazo tiveram a maior alta desde 1993. Atualmente, os consumidores esperam que os preços subam a uma taxa anual de 3,9% nos próximos cinco a dez anos. No mês anterior, o valor esperado era de 3,5%. Para a inflação do próximo ano, os consumidores preveem um aumento de 4,9% nos preços, que é o maior nível desde 2022 e representa uma alta de 0,6 ponto percentual em relação ao mês anterior. Esse resultado reflete a crescente preocupação com o impacto econômico das tarifas comerciais. 

Concomitantemente, o índice de incerteza de política econômica para os EUA, baseado na metodologia desenvolvida pelos economistas Scott Baker, Nicholas Bloom e Steven Davis, após atingir um nível mínimo recente de 109,29, em outubro de 2024, subiu para 334,51, em janeiro de 2025. E o índice referente à incerteza de política econômica mundial passou de 233,18 em setembro para 460,18 em janeiro.

Consequentemente, o maior risco para a economia americana consiste em um processo inflacionário mais persistente, a despeito da desaceleração da atividade. Diante disso, o cenário de cortes de juros pelo Fed deve ser alterado. A conferir.

As tarifas sendo impostas de forma quase universal pelo governo Trump, grande parte das quais com início previsto para o início de abril, têm impacto negativo sobre a atividade nos países exportadores, o que se soma aos efeitos negativos sobre a atividade econômica mundial vindos da perda de dinamismo da economia americana. É interessante notar, não obstante, que isso tem gerado respostas de parte dos governos, na China e na União Europeia, em especial, onde a política fiscal promete ficar bem mais expansionista. Por seu turno, essa reação tem ajudado a enfraquecer o dólar, que já devolveu toda a valorização observada no pós-eleição americana. Isso não impediu, todavia, que o contexto global bem mais incerto e desfavorável para países emergentes tenha causado aumento de volatilidade no desempenho de suas moedas, como também maior cautela por parte dos investidores.

No Brasil, porém, esse não é único desafio que se coloca: há inúmeros outros. Entre estes se destacam a necessidade de controlar a inflação, com a política monetária seguindo em seu ciclo de alta da taxa de juros, enquanto o governo segue gastando mais do que arrecada. É bastante incerto como se resolverá essa dissonância entre as políticas monetária e fiscal, conforme as eleições de 2026 se aproximem, em um contexto de dívida pública já bastante elevada, como proporção do PIB, o que levanta sérias preocupações sobre a sustentabilidade fiscal.

Há também incertezas sobre o desempenho da atividade no ano. Sem dúvida, a economia desacelerou no final do ano passado. Após crescer a uma taxa média trimestral de 1,0% nos três primeiros trimestres do ano, o PIB aumentou 0,2% no último trimestre. O que chamou mais a atenção nesse resultado foi o recuo de 1,0% no consumo das famílias, em relação ao terceiro trimestre. E o investimento cresceu apenas 0,4% no período.

São números que sugerem perda de dinamismo da economia. Contudo, temos que ter cautela sobre o ritmo de desaceleração da demanda doméstica privada (consumo das famílias e investimento). Em primeiro lugar, o consumo cresceu em média 1,6% nos três primeiros trimestres do ano, muito acima do PIB, acelerando fortemente em relação ao ano de 2023, quando cresceu em média 0,7% por trimestre. É evidente que esse ritmo de crescimento era totalmente insustentável.

Além disso, o reajuste real do salário-mínimo e seus impactos são concentrados no início do ano. O mercado de trabalho formal foi muito pujante no primeiro semestre de 2024, com aumento da massa de rendimentos do trabalho. No ano passado também tivemos o efeito da liberação de pagamentos atrasados dos precatórios no último dia de 2023, o que gerou efeitos apenas no início de 2024. Soma-se a isso a antecipação do décimo-terceiro de aposentados e pensionistas, do último trimestre para o primeiro semestre do ano. Em suma, houve um aumento expressivo do ganho de renda das famílias de forma desbalanceada ao longo do ano. E, como esperado, a aceleração inflacionária foi corroendo o poder de compra das famílias no decorrer do ano.

Para o primeiro trimestre de 2025, esperamos que o consumo cresça 0,9% em relação ao quarto trimestre de 2024, recuperando quase todo o recuo do trimestre anterior. O mercado de trabalho ainda continua robusto, o reajuste do salário-mínimo não saiu de cena e o governo também liberou mais recursos do FGTS. Já com relação ao investimento, o resultado também será muito positivo neste início de ano. A absorção de máquinas e equipamentos deve ter crescido 32% no primeiro bimestre do ano, em relação ao mesmo período do ano passado. A produção de bens de capital continua crescendo, mas o grande destaque é a importação, explicado em grande medida pelo dado de fevereiro, quando houve a importação de uma plataforma flutuante da China, no valor de US$ 2,7 bilhões (ver seção sobre o Setor Externo).

Para o ano como um todo, além dos investimentos relacionados ao setor de petróleo, o programa Minha Casa Minha Vida e as obras em infraestrutura também devem contribuir para o crescimento do investimento. Mas, sem dúvida, o aumento expressivo da taxa de juros, bem como as incertezas sobre os cenários doméstico e internacional, inibem planos de investimento mais disseminados entre os setores. Por ora, esperamos crescimento de 3,8% em 2025.

Já com relação ao consumo das famílias, seria desejável um crescimento bem mais em linha com o PIB. Porém, diante da queda de popularidade, o governo pode intensificar medidas de estímulo para a economia, o que reduziria o tamanho da desaceleração do consumo.

De qualquer forma, mantemos a previsão de crescimento do PIB de 1,7% para o ano e de 1,5% para o primeiro trimestre, em relação ao anterior, com a agropecuária crescendo em torno de 10% no período. Para os trimestres seguintes, a expectativa é de um crescimento médio por trimestre de apenas 0,1%.

Sabemos que o ano de 2024 confirmou o que está muito bem documentado na literatura: políticas fiscais expansionistas, quando a economia está com o hiato do produto positivo e com dívida pública elevada, tendem mais a atrapalhar do que a ajudar o desempenho da economia, pois elevam o risco, pressionando a taxa de câmbio, bem como a inflação, levando à necessidade de reação do Banco Central para conter o processo inflacionário. A ver se em 2025 essa lição se refletirá sobre as opções de política econômica.


Este é o Sumário do Boletim Macro FGV IBRE de março de 2025.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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