Relações Internacionais

Bases estruturais e políticas do não alinhamento ativo (NAA)

6 mai 2026

NAA busca autonomia soberana frente às potências, escolhendo temas conforme interesses nacionais. Brasil, por seu porte, é o país com maior potencial para o NAA na América Latina. Pré-candidatos, exceto Flávio Bolsonaro, parecem inclinados ao NAA.

“Não alinhamento ativo” é o termo que designa um novo conceito de política externa. Tem sido frequentemente empregado em discussões a respeito das opções diplomáticas à disposição dos países do chamado Sul Global em face das crescentes rivalidades entre as grandes potências (leia-se China, EUA, Rússia e, em alguns temas, a União Europeia).

Três chilenos – Jorge Heine (diplomata e acadêmico), Carlos Fortin (acadêmico) e Carlos Ominami (economista, ex-ministro da Economia e ex-senador) – têm se destacado como proponentes do não alinhamento ativo (doravante, NAA), tanto como instrumento de análise quanto como modelo prescritivo, sobretudo para os países latino-americanos[1].

De acordo com os três autores, a grande estratégia subjacente ao NAA implica avaliar precisamente o contorno das principais disputas internacionais e, a partir daí, “[...] selecionar e escolher entre os vários temas, em oposição a ficar automaticamente do lado de uma ou de outra das Grandes Potências”[2]. Do ponto de vista tático, o NAA é o equivalente diplomático do hedging (mitigação de riscos sob condições incertas) no mercado financeiro. Trata-se de uma posição intermediária entre contrapor-se e alinhar-se automaticamente a uma grande potência, permitindo aos países manterem abertas suas opções.

Como modelo prescritivo de política externa, o NAA conclama as nações latino-americanas a não se atrelarem a priori à posição de qualquer das grandes potências em competição, mas, isto sim, a “[...] agirem de acordo com seus interesses soberanos sem ceder às pressões políticas, diplomáticas e econômicas dessas potências”[3] (p. 14). Para Heine, Fortin e Ominami, uma diferença crucial entre o não alinhamento original (o da época da Guerra Fria) e o NAA é a posição muito mais forte de que o Sul Global hoje desfruta, sendo o BRICS+ a principal evidência deste fortalecimento[4].

Todavia, há motivos para dúvidas a respeito da capacidade dos países latino-americanos de adotarem o NAA em relação aos Estados Unidos, sobretudo aos EUA do segundo mandato de Donald Trump, cuja mistura de unilateralismo, belicismo e imperialismo em relação ao Hemisfério Ocidental reduz consideravelmente a margem de manobra das nações da região.

De fato, como há pouco destacaram Andrés Malamud e Luis Schenoni em percuciente artigo sobre as consequências das recentes alterações na ordem internacional para a América Latina, a capacidade acima referida depende da combinação de tamanho e distância dos países da região em relação a Washington[5]. Quanto menor e/ou mais próximo o país, menor a capacidade de adotar o NAA. Assim, em vez de NAA, o seu contrário – o alinhamento ativo com os EUA – é mais adequado às pequenas nações da América Latina e aos países da bacia caribenha.

Dito de outra maneira, não se deve igualar o Brasil a países como Bolívia ou Panamá. Portanto, o Brasil é o país latino-americano com mais alto potencial para adotar o NAA. Como afirmou recentemente Jorge Castañeda, ex-chanceler do México, “Diferentemente do resto do continente, o Brasil realmente tem condições de seguir sozinho”[6].

Além de fatores estruturais como tamanho e distância, há também que se considerar como condições políticas domésticas afetam a adoção do NAA.

Comecemos por Buenos Aires.

Como explicar a Argentina de Javier Milei, relativamente grande e bem distante dos EUA, mas, hoje, acoplada automaticamente à Casa Branca? Dada a atual situação econômica crítica da Argentina, o alinhamento ativo com Trump faz algum sentido no curto prazo, mas não é sustentável no longo prazo, dado que as forças nacionalistas do país, hoje derrotadas politicamente, poderão voltar ao poder, provavelmente em virtude de reação à excessiva subordinação do país aos desígnios de Washington.

E o Brasil?

O atual governo Lula é tido por Heine, Fortin e Ominami como caso exemplar de política externa baseada no NAA[7].

O não alinhamento ativo do Brasil resistirá às eleições presidenciais de 2026?

Se Lula for reeleito, o NAA definitivamente continuará.

Se Flávio Bolsonaro for o vencedor do pleito, já sabemos que subordinará sua política externa à de Trump, tal qual fez seu pai em 2019-2023. No dia 28 de março do corrente, em discurso à Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), evento da extrema direita americana realizado no Texas, o senador pelo Rio de Janeiro pediu “pressão diplomática” dos Estados Unidos “para que as instituições funcionem adequadamente” no Brasil e que, assim, as eleições no país tenham “valores de origem americana”[8].

Porém, o alinhamento automático de Flávio Bolsonaro com Trump poderá ser suavizado por pressão do agronegócio, o qual não quer rusgas com a China.

Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e candidato do Partido Novo, é um dos próceres da direita brasileira. Sua eventual política externa promete alinhamento com os países desenvolvidos e distanciamento com relação ao BRICS+. O alinhamento com os países líderes do Ocidente dará alguma margem de manobra a uma possível presidência de Zema em relação aos EUA, o que significa que este candidato está aberto às prescrições do NAA.

A única dúvida paira sobre o candidato da chamada direita tradicional, Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, filiado ao PSD. Ele tem criticado a política externa de Lula e tentado se diferenciar da sabujice do bolsonarismo em relação a Trump. Mas as críticas que Caiado tem feito a Lula são muito vagas.

Por exemplo, quando se lançou como pré-candidato presidencial em 2025, Caiado afirmou que “Governo Lula não tem plano de governo, não sabe a que veio. [...] Se avaliarmos o Brasil no G-20, o Brasil está perdendo espaço. Se avaliarmos o Brasil nos Brics, só está ficando para nós a África do Sul, estamos crescendo só para baixo. É o Brasil perdendo para a Rússia, para a China, a Índia”[9]. Ou seja, Caiado lamentou a perda de poder relativo do Brasil em função da expansão do BRICS em 2024, mas jamais falou em deixar ou se afastar do grupo diplomático que é um dos principais instrumentos de uma política externa animada pelo NAA.

Haveria um meio termo entre o NAA e o alinhamento automático?

Não há. Hoje em dia, se um presidente brasileiro optar por não se subordinar a Washington, só terá à mão o NAA, como se deu com FHC, Lula, Rousseff e Temer. Alinhar-se automaticamente à China geraria enorme resistência no plano doméstico, além de alienar Washington e a União Europeia. O simples não alinhamento da Guerra Fria não faz mais sentido porque, agora, os EUA já não têm mais o poder que tinham, o mundo é multipolar e o Brasil tem parcerias (China, BRICS+ e o acordo Mercosul-União Europeia) que oferecem a qualquer chefe de Estado dotado de dignidade pessoal e de respeito ao país alternativas palpáveis ao “hegemonismo predatório” da Casa Branca[10]. Conquanto diferentes candidatos presidenciais possam imprimir diversos matizes ao NAA, as críticas de Caiado à diplomacia de Lula não passam de nebulosa retórica eleitoral. Portanto, tudo indica que a política externa do candidato do PSD seria como a de Zema, isto é, aberta ao NAA.

Em suma, o não alinhamento ativo é a política externa de todos os principais candidatos presidenciais, à exceção apenas de Flávio Bolsonaro.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

[1] Jorge Heine, Carlos Fortin e Carlos Ominami, The Non-Aligned World: Striking Out in an Era of Great Power Competition (Cambridge, Reino Unido, Polity Press, 2025).

[2] Heine, Fortin e Ominami, op. cit., p. xix.

[3] Heine, Fortin e Ominami, op. cit., p. 14.

[4] Heine, Fortin e Ominami, op. cit., p. 18.

[5] Andrés Malamud e Luis Schenoni, “¿Transición Hegemónica o Reequilibrio Estratégico? América Latina Ante un Mundo Alterado”, Real Instituto Elcano, 22/04/2026, disponível em https://www.realinstitutoelcano.org/analisis/transicion-hegemonica-o-ree....

[6] Jorge Castañeda, “How Latin America Failed Venezuela”, Foreign Affairs, 13/03/2026, disponível em https://www.foreignaffairs.com/venezuela/how-latin-america-failed-venezuela.

[7] Heine, Fortin e Ominami, op. cit., pp. 131-133.

[8] Marcelo Montanini, “A sujeição aos EUA pode se voltar contra Flávio nas eleições?”, Nexo Jornal, 01/04/2026, disponível em https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/04/01/flavio-bolsonaro-fala-....

[9] Fabíola Perez, “Caiado se lança à Presidência e volta a criticar Lula e PEC da segurança”, UOL Notícias, 04/04/2025, disponível em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/04/04/caiado-....

[10] Hegemonismo predatório é como o cientista político Stephen Walt define a política externa do segundo mandato de Donald Trump. Ver Stephen Walt, “The Predatory Hegemon: How Trump Wields American Power”, Foreign Affairs, 03/02/2026, disponível em https://www.foreignaffairs.com/united-states/predatory-hegemon-walt.

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