Política Monetária

BC deve estender o horizonte de política monetária

13 mai 2026

Copom enfrenta projeção de IPCA em 3,5% para 2027, longe da meta de 3%. Para manter flexibilização monetária ante choque do petróleo, sugere-se estender horizonte relevante em 12 meses, com meta de longo prazo em 2029, quando Focus prevê 3,5%.

O Copom tem utilizado um horizonte relevante para a polítca monetária.  Como se sabe, um movimento nos juros (na selic) afeta a inflação no futuro, sendo seu efeito principal acumulado atingido cerca de 18 meses à frente.  Desta forma, o Bacen leva em consideração a sua projeção de inflação 18 meses à frente, o “horizonte relevante”.  O cálculo da previsão tem detalhes técnicos, mas o mais relevante é que considera a mais recente expectativa da evolução da selic pelo Focus, e uma hipótese plausível sobre a taxa de câmbio e sua evolução.  Em termos gerais, quando a projeção do BC no horizonte relevante atinge a proximidade da meta para a inflação, de 3% ao ano, o Copom considera que a trajetória prevista da selic está adequada para garantir a convergência da inflação para a meta.  Pelo histórico de comportamento do Bacen, isto acontece quando a inflação projetada atinge 3,2% ao ano – neste ponto o BC estipula que atingiu “ao redor da meta”.  O Comunicado e a recente Ata da Reunião do Copom mostram que os modelos internos do Bacen apontam para uma inflação de 3,5% no horizonte de referência (ou relevante) que é o último trimestre de 2027.  Portanto, está ainda distante do número 3,2% que normalmente guia as decisões de política monetária.

Adicionalmente, vê-se que há preocupação especial com o fato de a projeção pelo Focus da inflação do ano 2028 estar acima de 3,5%.  No Focus de 24/4, vigente quando da última reunião do Copom, era de 3,61%.  Já no Focus de 30/4 este valor subiu para 3,64%, tendo-se mantido assim no Focus de 8/5.  Podemos ver que este incômodo é bastante presente, pela fala que o diretor Paulo Picchetti fez no evento Itaú Latam Day, em Washington.  O texto abaixo, extraído de uma matéria do Broadcast, mostra-nos isto de forma clara:

“São Paulo e Brasília, 16/04/2026 - O diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos e de Política Econômica do Banco Central, Paulo Picchetti, disse há pouco que existe um prêmio, da ordem de 0,5 ponto porcentual, nas expectativas de inflação do mercado. Segundo ele, tem havido um movimento recente de desancoragem, por conta das incertezas com a Guerra no Oriente Médio, mas essa desancoragem não acontece em relação ao centro da meta, de 3,0%, e sim em relação a esse prêmio de risco, que já está no cenário do mercado há bastante tempo.”

Esta declaração expressa a preocupação, e acrescenta mais uma informação: o maior problema é a desancoragem em relação não à meta, mas em relação à inflação de 3,5%, que é a meta de 3% mais um prêmio de risco de 0,5%.  Desta forma, vê-se que o diretor de política econômica, responsável principal pelas projeções e modelos que o Copom utiliza em suas deliberações, está particularmante incomodado com o descolamento da projeção da inflação pelo IPCA do Focus para 2028.  E nós estamos vendo que a projeção tem-se distanciado ainda mais de 3,5% nos Focus recentes.  Uma informação adicional, e importante para o argumento que será feito a seguir, é que a inflação prevista para 2029 continua em 3,5%.

Este caldo de desvios em relação à meta, tanto da previsão de modelos internos do BC para o horizonte relevante (quarto trimestre de 2027), quanto da expectativa de mercado pelo Focus para 2028 (ajustada por um prêmio de risco de 0,5%) tem causado enormes divergências de leituras do pensamento do atual Bacen.  Afinal, de acordo com a interpretação que tem sido dada para o comportamento do Copom por analistas nestes últimos anos (e pela sua comunicação com o mercado), por que motivo estaria havendo corte de juros?  Isto pode ser notado na prática, pela enorme oscilação nas taxas de juros prefixadas de 2 e 5 anos, desde o início da guerra contra o Irã.

Obviamente, este raciocínio mecânico do modo que deva ser executada a política monetária ignora por completo vários fatores extremamente relevantes.  É sabido que a pressão fiscal do governo petista força a taxa de juros a permanecer alta e perigosamente próxima da dominância fiscal, como já notamos em várias ocasiões nas colunas do Broadcast.  Assim, o fato de que nosso juro real esteja na casa dos 10% já há muito tempo é péssimo para a economia (o que está claramente batendo agora em sucessivos recordes de comprometimento de renda e “programas Desenrolas”, além de muitas empresas em recuperção extra-judicial ou judicial).  Ou ainda o fato de que o desemprego, que é a ponta da atividade econômica que é impactada por último, esteja mostrando sinais de aumento.  Contudo, principalmente, ignora que a inflação esteja subindo não por um choque de demanda, mas por efeito do choque de oferta causada pela guerra de EUA e Israel contra o Irã.  Qual deve ser a reação do BC a um choque de oferta?  A resposta é aceitando repasses inflacionários no prazo mais curto, mas insistindo em convergência para a meta de novo no longo prazo.

Para ilustrar na prática como isto pode ser feito e sua consequência, pedi para a consultoria Buysidebrazil (Andrea Damico e Mirella Hirakawa, principais responsáveis pelos cálculos) para simular, usando os dados que o Copom dispunha na última reunião, qual seria o horizonte no qual a inflação modelada pelo Bacen voltaria a se aproximar da meta de 3%, isto é ficaria em 3,2%.  Para entender a resposta, no modelo interno desenvolvido pela Buysidebrazil, no horizonte do quarto trimestre de 2027 a inflação seria 3,4% ao ano, ligeiramente abaixo da projeção que o Comunicado e a Ata recentes indicam, de 3,5%.  Para evitar complicações, supus que a diferença entre o previsto pela consultoria e o modelo do BC mantivesse uma diferença fixa de 0,1% ao ano.  Desta maneira, utilizando-se da mesma metodologia que o Copom usa, o modelo da consultoria aponta que a inflação chegaria em 3,1% ao ano no último trimestre de 2028.  Com a nossa hipótese sobre as diferenças nos modelos, isto quer dizer que neste novo horizonte o Bacen estaria estimando a inflação em 3,2% ao ano no último trimestre de 2028.  Ou seja, um ano após o horizonte usual de 18 meses, teríamos a inflação convergindo para “ao redor da meta”.

Claramente, este resultado indica somente o que está nas hipóteses, e que representam o que de melhor se consegue fazer em termos de previsão: de que a guerra não será permanente, e que os efeitos eventualmente diminuirão bastante, como indicam os mercados futuros de petróleo.  Um típico choque de oferta transitório. 

Para que o BC possa levar adiante sua política de flexibilização sem maiores contratempos, sugere-se que o horizonte relevante de polítca monetária seja estendido em mais 12 meses, por conta do choque de oferta adverso da guerra no Irã.  Adicionalmente, sugere-se que agora a meta de longo prazo passe a ser vista em 2029 ao invés de 2028, um ano à frente do que normalmente o Copom faz.  Aqui temos a expectativa de mercado até agora bem comportada, em 3,5% ao ano, o que resolveria a preocupação que foi externada pelo diretor Paulo Picchetti.  O efeito desta extensão do horizonte relevante de política monetária em um ano seria o de permitir uma clara comunicação do Bacen sobre a continuidade cautelosa da queda de juros, dentro das regras normais dos regimes de metas para a inflação.

Aviso: A Sarpen Quant Investments, da qual sou sócio, gere um fundo quant, que não tem posições direcionais na maior parte do tempo.  No entanto, pode ser que haja exposições residuais a riscos que seriam afetados positivamente pela política sugerida.


Este artigo foi publicado originalmente pelo Broadcast da Agência Estado, em 12/05/2026, terça-feira.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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