Economia Regional

Breve retrato econômico da região Nordeste

27 abr 2023

Estima-se que a indústria de transformação nordestina tenha retirado 0,4 p.p. do PIB da região em 2021. Em 2022, PIB do Nordeste deve ter crescido 3,4% (acima do Brasil, com 2,9%), puxado pelo desempenho do setor de serviços.

O Nordeste brasileiro engloba nove estados (Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia)[1]. A abrangência territorial dessa região corresponde a cerca de 18% do território brasileiro e a sua população, na média de 2002 a 2020, representa cerca de 28% do total de habitantes do Brasil. Segundo a pesquisa de Estimativa da População do IBGE, em torno de 57 milhões de pessoas residiam no Nordeste, em 2020, distribuídas em 1.794 municípios, dos nove estados constituintes da região.

Este texto foi elaborado em três seções. Na primeira é realizada análise estrutural da economia da região nos anos de 2002 a 2020, período no qual há dados disponíveis do Sistema de Contas Regionais do IBGE (SCR).

Na segunda seção, foi feita análise da evolução recente do PIB.[2]

Na terceira seção mostram-se as relações econômicas do Nordeste com o resto do mundo, salientando os principais produtos de importação e exportação.

  1. ANÁLISE ESTRUTURAL

1.1 Participação do PIB do Nordeste no Brasil

O PIB nordestino representou 13,6% do PIB brasileiro na média de 2002 a 2020, de acordo com dados do Sistema de Contas Regionais do IBGE. Destaca-se que, em 2003 essa participação chegou a ser de 12,8%, a menor da série histórica; contudo, a partir de 2014, a região Nordeste aumentou sua participação, tendo representado 14,5% do PIB brasileiro em 2017, o maior percentual da série histórica. A partir de então, a região tem perdido participação no PIB nacional, tendo, em 2020, participação de 14,2%.


Fonte: IBGE – Sistema de Contas Regionais. Elaboração dos autores.

1.2 Distribuição do Valor Adicionado no Nordeste e seus estados

A distribuição do PIB da região entre os seus nove estados é bastante concentrada. O somatório do PIB de apenas três estados representa 62,8% do PIB da região, na média de 2002 a 2020. Estes estados são: Bahia, Pernambuco e Ceará. Conforme o Gráfico 2, eles representam, respectivamente, 4,0%; 2,5% e 2,1% do PIB nacional, na média de 2002 a 2020.


Fonte: IBGE – Sistema de Contas Regionais. Elaboração dos autores.

O setor de serviços é a atividade econômica com maior participação no valor adicionado do Nordeste. Na média de 2002 a 2020, 72,4% do valor adicionado da região deveu-se aos serviços; percentual similar ao do setor no Brasil, para o mesmo período analisado (70,5%). No entanto, a distribuição das atividades do setor de serviços é bastante diferente na análise do Nordeste e do Brasil. No Nordeste, a participação da atividade de 'administração, defesa, educação e saúde públicas e seguridade social’ foi de 24,8% do total do valor adicionado da região, na média entre 2002 e 2020; no Brasil, essa atividade representou 16,8% do valor adicionado total.

A atividade agropecuária teve maior participação no valor adicionado do Nordeste do que no do Brasil. Enquanto no País a agropecuária representou 5,4% do valor adicionado total, entre 2002 e 2020, no Nordeste este percentual foi de 7,2%. Os estados do Nordeste que apresentaram as maiores participações no valor adicionado da agropecuária foram, conforme a Tabela 1, Alagoas e Maranhão, com 15,2% e 10,7%, respectivamente, na média de 2002 a 2020.

Em contrapartida, o setor industrial teve menor participação no valor adicionado total da região Nordeste do que na economia nacional. Nas atividades industriais, pode-se afirmar que a diferença de peso entre o Brasil e a região é explicada, principalmente, pela indústria de transformação. Na média de 2002 a 2020, a transformação representou 13,4% do valor adicionado total do Brasil, enquanto no Nordeste este percentual foi de apenas 9,2% do valor adicionado da região.

1.3 Evolução da participação do Valor Adicionado do Nordeste e seus estados no total do Brasil

A exceção de Sergipe, todos os demais estados da região apresentaram aumento de participação no PIB nacional, entre 2002 e 2020. As maiores contribuições foram do Maranhão (0,29 p.p.), do Piauí (0,27 p.p.) e do Ceará (0,24 p.p). Chama a atenção a diferença de participação do valor adicionado do Nordeste e de seus estados no Brasil entre 2002 e 2020, por atividades econômicas. A participação do Nordeste no valor adicionado total aumentou em 0,9 p.p., entre 2002 e 2020. Dentre as três grandes atividades econômicas (agropecuária, indústria e serviços), apenas a agropecuária apresentou perda de participação no Brasil.

Na desagregação da atividade industrial, observam-se os maiores ganhos e perdas de participação entre o valor adicionado das atividades. O valor adicionado da atividade de eletricidade, gás, água, esgoto, gestão de resíduos e descontaminação ganhou 7,2 p.p. de participação na região Nordeste, entre 2002 e 2020. Em contrapartida, a atividade de indústrias extrativas nordestinas perdeu 8,9 p.p. de participação no valor adicionado do Brasil; de 12,9% em 2002, foi para 4,0% em 2020.

No setor de serviços, houve crescimento de participação de valor adicionado do Nordeste em sete atividades, das dez que compõem o setor.

1.4 PIB per capita

Na comparação com as demais regiões do país, o PIB nordestino é o terceiro maior do Brasil, ficando atrás do Sudeste e do Sul. No entanto, na análise do PIB per capita, a região Nordeste apresenta o menor nível do país.


Fonte: IBGE – Sistema de Contas Regionais. Elaboração dos autores.

No Gráfico 3, são apresentadas as evoluções do nível do PIB per capita do Brasil e das regiões, de 2002 a 2020. Nota-se que, em termos de trajetória, não houve grandes alterações referentes ao nível do PIB per capita da região Nordeste em relação às demais regiões do país.

Ao desagregar essa informação por estados, observa-se que o menor nível de PIB per capita da região é explicado pelo desempenho de todos os estados que a compõem. Na média de 2002 a 2020, os estados nordestinos figuraram entre os dez menores níveis de PIB per capita do país. No Gráfico 4, é apresentado o PIB per capita médio, entre 2002 e 2020, das 27 unidades da federação. Em laranja estão destacados os estados que compõem a região Nordeste.


Fonte: IBGE – Sistema de Contas Regionais. Elaboração dos autores.

Na análise da evolução da série, entre 2002 e 2020, nota-se que a tendência é que essa configuração se torne menos heterogênea ao longo do tempo. Em termos de evolução do PIB per capita, a região Nordeste foi a terceira que apresentou maior crescimento entre 2002 e 2020 (1,25% ao ano); estando atrás da Região Norte (1,34%, ao ano) e Centro-Oeste (1,39%, ao ano). No Gráfico 5, é apresentado o crescimento médio anual do PIB per capita dos estados brasileiros, entre 2002 e 2020. Nota-se que, à exceção do Rio Grande do Norte e de Sergipe, todos os demais estados nordestinos apresentaram crescimento do PIB per capita acima do crescimento médio do Brasil.

No entanto, a redução das desigualdades socioeconômicas regionais ainda se apresenta em ritmo lento. Ao se analisar o PIB per capita apenas em 2020, a configuração regional é bastante similar à da média de 2002 a 2020. Embora tenha havido algumas alterações de posição estaduais, todos os estados nordestinos ainda figuraram entre os dez menores PIBs per capita do Brasil. Este quadro mostra que é importante que medidas focalizadas de políticas públicas sejam adotadas com objetivo de melhorar o nível de qualidade de vida da região


Fonte: IBGE – Sistema de Contas Regionais. Elaboração dos autores.

  1. EVOLUÇÃO RECENTE DO PIB NORDESTINO

O PIB brasileiro cresceu 2,0% ao ano, entre 2002 e 2020. No mesmo período, a região Nordeste cresceu 2,2%, estando acima do desempenho das regiões Sul e Sudeste, que cresceram 1,7% cada e, abaixo do desempenho das regiões Norte e Centro-Oeste, que cresceram 3,2% cada. No Gráfico 6 é apresentada a evolução anual do PIB do Brasil e das regiões. A análise desses resultados foi realizada a partir dos dados oficiais do Sistema de Contas Regionais do IBGE.


Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE e do Banco Central.

Devido à defasagem na divulgação dos dados oficiais de valor adicionado do IBGE para 2021 e 2022, foi estimada a evolução real do PIB das regiões com base nos dados do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBCR). As informações regionais foram compatibilizadas com o dado oficial do Brasil, divulgado nas Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, de forma que a agregação do PIB das regiões resulte no PIB total do país. Estas estimativas estão apresentadas no Gráfico 7.


 Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE e do Banco Central.

Conforme observado no Gráfico 7, em 2021, estima-se que o PIB da região Nordeste tenha crescido 3,5%. Apesar de expressivo, esse crescimento foi menor que o do PIB brasileiro, que registrou alta de 5,0% em 2021, segundo as Contas Nacionais Trimestrais do IBGE (CNT). A principal atividade que explica essa diferença, de pouco mais de 1 p.p. de diferença, de crescimento entre a estimativa de PIB da região Nordeste e o brasileiro é a indústria de transformação. No caso do Nordeste, estima-se que o valor adicionado da indústria de transformação tenha se retraído fortemente em 2021.

Segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal Regional do IBGE, a produção física da indústria de transformação da região Nordeste recuou 6,5% em 2021. O fechamento da fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, no início de 2021, é o principal responsável por esse recuo da produção da indústria de transformação no Nordeste.

Por essa razão, enquanto a indústria de transformação brasileira contribuiu com 0,5 p.p. para o crescimento do PIB nacional em 2021, estima-se que a indústria de transformação nordestina tenha retirado 0,4 p.p. do PIB da região, no mesmo ano.

Em 2022, estima-se que o PIB da região Nordeste tenha crescido 3,4%; resultado acima do observado no país (2,9%), de acordo com as CNT. Este maior crescimento do Nordeste em relação ao Brasil está associado ao desempenho do setor de serviços.


   Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE.

Conforme apresentado no Gráfico 8, estima-se que a região Nordeste tenha crescido em torno de 7,0% no biênio 2021-2022. Esse crescimento é menor que o da média brasileira, sendo superior apenas ao crescimento de 6,1% da atividade econômica da região Norte.

3 - O COMÉRCIO EXTERIOR DO NORDESTE

O comércio exterior do Nordeste engloba grande variedade de produtos, totalizando em 2022 35 bilhões de dólares de importações e US$ 27,8 bilhões de exportações[3]. Esses valores significam uma participação na corrente de comércio brasileira de 10,4%, em 2022.

O Gráfico 9 ilustra a trajetória dos fluxos de comércio Nordestino: na maior parte do tempo esse fluxo foi bastante equilibrado, embora de 2010 a 2020 tenha prevalecido um déficit no comércio internacional do Nordeste (NE).

 
 Fonte: Base de dados do ICOMEX.

Conforme ilustrado nos Gráficos 10 e 11, o principal grupo de produtos comercializado pelo Nordeste é o de Bens de Consumo Intermediário (CI), com média, tanto de importações como de exportações, de 80%. Para os bens de consumo final (CF), o NE exporta mais do que importa e para Bens de Capital (BK), o NE importa mais do que exporta.


Fonte: Base de dados do ICOMEX.


 Fonte: Base de dados do ICOMEX.

Na análise dos vinte principais produtos de exportação do Nordeste para o resto do mundo, destacam-se a Soja em Grão (21,4%) e o Óleo Combustível (17,8%). Entre o grupo de importados, figuram entre os vinte mais importantes vários produtos da cadeia de combustíveis, tais como o Óleo Diesel (17,7%), outros produtos do refino do petróleo (8,7%) e diversos produtos agropecuários.

Os principais estados importadores do Nordeste, desde 1997 e ao longo dos últimos 25 anos, foram: Bahia (com cerca de 36% das importações da região, em média ), Pernambuco (24%), Maranhão (19%) e Ceará (13%). Portanto, esses quatro estados respondem por 92% das importações do Nordeste.

Os principais estados exportadores do Nordeste, desde 1997 e ao longo dos últimos 25 anos, foram: Bahia, (com cerca de 53% das exportações do Nordeste, em média), Maranhão (18%), Ceará (10%) e Pernambuco (8%). Em suma, esses quatro estados respondem por 89% das exportações da região.

Entre os maiores estados importadores, os principais itens importados pela Bahia foram diversos produtos da cadeia de petróleo e combustíveis e alguns produtos característicos da indústria de transformação, com ênfase em automóveis desde 1998 até 2020. Em Pernambuco, os principais produtos importados são derivados de petróleo e gás, e diversos produtos agrícolas com destaque para trigo, malte e seus derivados (cervejas e chopes). No Maranhão, não há alterações importantes ao longo do período examinado e preponderam os derivados de petróleo. No Ceará, o principal produto importado é carvão mineral a partir de 2015, associado à nova siderúrgica de exportação lá implantada. Despontam também no Ceará trigo e vários produtos geradores de energia.

Dentre os estados exportadores, destacam-se, na Bahia, diversos produtos agrícolas com proeminência da soja e derivados, e celulose; combustíveis; e, também, de 2000 a 2005, automóveis. O Maranhão, segundo estado com maior participação nas exportações do Nordeste, tem como principais produtos alumínio e soja e diversos produtos siderúrgicos. O Ceará tinha sua pauta de exportações basicamente formada por produtos de calçados em geral, de 1998 até 2015; a partir de 2020, surgem os produtos siderúrgicos como principal produto de exportação, representando quase 20% de sua pauta. Pernambuco teve em 2022 a exportação de óleo combustível e automóveis como principais produtos exportados, substituindo açúcar refinado e outros produtos da lavoura que eram, anteriormente, os mais importantes da pauta.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 


[1] Este texto é a versão resumida de um texto completo publicado como texto para discussão no portal do IBRE. É ainda um texto preliminar da análise da região Nordeste desde 2002. Ele foi elaborado antes da divulgação das pesquisas conjunturais do IBGE de outubro, novembro e dezembro.

[2] Em junho será publicado um índice trimestral com todas as atualizações e a metodologia de sua construção.

[3]Como as informações registram as importações e importações pelo domicílio fiscal da empresa, é possível inferir que as exportações e as importações se originam de fato na região NE e seus respectivos estados.

 

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