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Comentário ao livro “Projeto Nacional: O Dever da Esperança” de Ciro Gomes

06/11/2020

Ciro Gomes tem o hábito saudável de colocar no papel seu diagnóstico e suas propostas. Tem a característica de ser político que não escamoteia os problemas e gosta de dar nome aos bois, às vezes (muitas vezes) diversos tons acima do necessário, o que dificulta possíveis construções políticas. Também é conhecido por exagerar nos números. No entanto a transparência com que faz os diagnósticos e a importância que Ciro tem na política brasileira me convenceram a ler o livro “Projeto Nacional: O Dever da Esperança”[1] – que Ciro acaba de lançar, expondo em detalhes seu projeto político – e fazer uma avaliação crítica do conteúdo. Como o leitor verá, em inúmeras passagens de seu texto há exageros nos dados, em meio a muitos fatos que simplesmente estão errados.[2]

De maneira geral tenho discordâncias maiores com o diagnóstico e com a leitura da história econômica do Brasil nos últimos 120 anos apresentada por Ciro do que com o conjunto de medidas, apesar de haver também discordâncias importantes no campo da ação. A maneira dourada como ele enxerga a ditadura varguista e o período do nacional-desenvolvimentismo em geral e o ódio que nutre ao governo FHC não têm base na evidência histórica. Ciro reclama muito do rentismo e dos juros elevados, mas não consegue alinhavar nenhuma explicação lógica de por que as coisas transcorrem dessa forma. Tudo se passa como se fosse conspiração de banqueiro. Adicionalmente, a visão de que o Imperialismo é um dos grandes responsáveis pelo subdesenvolvimento brasileiro é fantasiosa, para dizer o mínimo. Novamente Ciro apela a conspirações, sem nenhuma preocupação em documentá-las.

O maior problema no projeto político me parece ser a falta de um diagnóstico do funcionamento de nossas instituições políticas e dos limites à ação de um presidente “bem-intencionado”, chamemos assim. É estranho tanta ingenuidade num político experimentado como Ciro Gomes. Além disso, é difícil saber o conjunto de medidas que Ciro defende para nos tirar na armadilha na renda média em que nos encontramos desde a década de 1980. Não há um diagnóstico claro dos motivos de estarmos amarrados à armadilha da renda média há 40 anos.

O livro se inicia com dois capítulos trazendo a versão de Ciro da história econômica brasileira do início do século XX até hoje. No primeiro, “Uma nação adiada”, ele discorre sobre o período da República Velha até o fim da época conhecida pelo longo ciclo nacional-desenvolvimentista, de 1930 até 1980. No segundo capítulo, “As raízes da crise econômica”, apresenta sua versão da história de 1980 até hoje. Segue o terceiro capítulo, “O novo contexto geopolítico”, em que Ciro apresenta sua visão dos limites, contexto e alterações das relações internacionais nas últimas décadas, que determinam e auxiliam a pensar nas melhores formas de integração do Brasil com as demais economias e em como a inserção internacional deve se dar.

Assim, após os três primeiros capítulos, que estabelecem as condições de contorno no tempo e no espaço – os legados, as restrições e as oportunidades dados pelo entorno –, ele passa a responder, no quarto capítulo, intitulado “Um projeto para o Brasil”, que é o cerne do livro, à famosa pergunta de Lenin, “O que fazer?”. Alguns temas mais estruturantes, como a reforma política, são tratados no quinto capítulo “Uma nova agenda de reformas”.

No sexto e último capítulo, “Por uma nova esquerda”, faz uma análise do que seriam para ele hoje os temas mais gerais da política e apresenta sua visão dos problemas da esquerda, no mundo e no Brasil, que acabaram por permitir que uma onda de extrema-direita ganhasse diversos pleitos eleitorais.

O livro sistematiza sua leitura da história do Brasil, destaca o papel desempenhado pelo trabalhismo no desenvolvimento econômico e social, o que justifica a sua filiação política ao PDT, e apresenta seu projeto para o país.

O objetivo deste texto é promover um confronto das evidências que Ciro emprega para a sua construção com minha verificação destas mesmas evidências. Assim, não faço uma avaliação detalhada do plano de ação de Ciro, apesar de aqui e acolá tocar nas propostas. O princípio é que todos têm sua opinião e visão de mundo. Quando aos fatos a divergência não deveria ser muito grande.

Para ler a resenha completa de Samuel Pessôa sobre “Projeto Nacional: O Dever da Esperança“, clique aqui.


[1] Ciro Gomes, 2020, “Projeto Nacional: o dever da esperança”, editora Leya. Agradeço os comentários de Celso Rocha de Barros, Eduardo Giannetti da Fonseca, Fabio Giambiagi, Fernando Dantas, Fernando Veloso, Francisco Bosco, Helio Gurovitz, Joaquim Levy, Leonardo Monastério, Mansueto Almeida, Marcos Lisboa, Paulo Miguel, Thomas Kang e Zeina Latif. Erros e omissões de minha inteira responsabilidade.

[2] As referências ao texto de Ciro Gomes estão no corpo principal do texto entre parênteses.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Comentários

Otávio
Qual livro Samuel Pessoa escreveu e que apresenta a analise correta, em contraponto as analises erradas que, segundo ele, Ciro fez?
Samuel Pessoa
Prezado Otávio: o texto que se encontra no link no final do post é um pequeno livro. Dialogo em detalhe com o livro de Ciro Gomes. Comentários bem vindos. Abraço, Samuel Pessoa
Jorge Nei Botel...
Talvez o Sr. Samuel Pessoa tenha utilizado para fazer sua análise do Livro "Projeto Nacional: O dever da esperança", a mesma lógica utilizada pelo Sr. Pedro Bial ao fazer sua crítica ao Documentário: "Democracia em vertigem" da Sra. Petra Costa. Seguem agora as perguntas: - Será que após essas maluquices que o presidente derrotado dos EUA anda aprontando lá, o Sr. Pedro Bial mudou seu parecer sobre o Documentário. - Será que após os fracassos dessas teorias econômicas Neoliberais, no Brasil e por todo mundo, o Sr. Samuel irá mudar sua opinião sobre o Livro. Acho que a resposta é "não", para as duas questões. É mais fácil criticar que tentar realizar. Salieri, que quase ninguém lembra, também pensava assim quanto as Obras de Mozart. Alias, como é o nome desse Sr. que escreveu este comentário ???
Saulo
Samuel aponta sua maior discordância de Ciro no tocante ao Imperialismo que freia as economias subdesenvolvidas, Ciro tem fundamentos para tal, o problema é que os críticos pensam no imperialismo de forma fantasiosa, folclórica e como um personagem e que de fato não existe, quando Ciro fala do imperialismo ele resume em uma palavra uma série de práticas dos países desenvolvidos como o protecionismo comercial em diversos setores da economia por exemplo, e internamente o óbvio cartel das taxas de juros praticada por 5 bancos que dominam o mercado brasileiro que também é uma forma de imperialismo, portanto o imperialismo é uma série de práticas de governos e grandes grupos privados que buscam seus próprios interesses a despeito dos interesses coletivos.
Anônimo
Samuel Pessoa é um neoliberal convicto, acha que a era FHC foi a oitava maravilha do mundo, mesmo com os juros exorbitantes, a farra das privatizações, o apagão elétrico. A premissa de todo o seu raciocínio é que o Estado faz tudo mal feito e o "livre" mercado resolve.
Gabriel
O link para o texto não está mais funcionando. Poderiam consertar?
Blog do IBRE
Verificamos e o link está funcionando;
Anônimo
Incoerente toda essa análise chega a ser tao rasa que me parece que so quer embarcar e surfar na onda da venda de um livro que deu certo, como alguém critica a falta de dados e precisão numérica e chega aqui se quer rebate com os dados corretos entao? Pior que está conseguindo ficar no topo de pesquisa, os algoritmos sao ruins por conta disso, na mesma proporção que aproxima de conteúdo bom traz muita bobeira que ganha engajamento pelo excesso de críticas devido a falta de qualidade e veracidade do conteúdo.
Rosane Vaz Figueiró
Eu li o livro, e embora eu não seja economista nem cientista política,fui gerente de mercado em um grande banco público e não vi essa ingenuidade que você aponta na sua crítica. É claro, que para abordar detalhadamente todos os problemas com suas possíveis soluções o livro sairia maior que a biblia e isso seria inviável!
Cilene Castro
Ciro Gomes pergunta: Onde o liberalismo deu certo? Que economista é esse que não sabe? Para quem não sabe: Hong Kong, Singapura, Austrália, Nova Zelândia, Suíça, Canadá, Chile, Maurícia, Dinamarca, Estados Unidos, Irlanda, Bahrein, Estónia, Reino Unido, Luxemburgo, Finlândia, Países Baixos, Suécia, Alemanha, Taiwan, Geórgia, Lituânia, Islândia, Japão, Áustria,Macau, Catar, Emirados Árabes Unidos, Chéquia, Botswana, Noruega, Santa Lúcia, Jordânia, Coreia do Sul,Bahamas, Uruguai, Colômbia, Armênia, Barbados, Bélgica, Chipre, Eslováquia, Macedônia do Norte,Peru, Omã, Espanha, Malta, Hungria,Costa Rica, México.
Rui
Oi? Chile, EUA...? ChiIe deu certo? EUA se desenvolveram com protecionismo e ativismo de estado...
Claudia Areco
Que artigo decepcionante. O autor se esforça para se colocar na posição de analista crítico mas decepciona ao não conseguir esconder seu ressentimento em relação ao político. Engraçado como esses caras insistem em tentar desacreditar o Ciro, insinuando que ele é destemperado e exagerado, parecem saídos de uma linha de produção programados para repetir o mesmo repertório, uma e outra vez.
Moacir
Sua versão tá totalmente errada.

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