Como o Brasil se situa entre as maiores economias do mundo no pós-Covid

10/11/2020

O FMI, na sua reunião semestral de outubro deste ano (World Economic Outlook), divulgou projeções para diversas variáveis econômicas de diversos países. Dentre estas variáveis, foi divulgado o nível do PIB (dólares em preços correntes) e também em dólares, preços correntes, PPP (paridade de poder de compra), para os quase 200 países da amostra. De acordo com essas duas métricas, podemos distinguir quais são as maiores economias do mundo. No ano de 2019, de acordo com a primeira métrica, os EUA ocupavam a primeira posição, com um PIB de US$ 21,4 trilhões e a China vindo logo em seguida com US$ 14,7 trilhões. O Brasil estava na nona posição (US$ 1,8 trilhão).

Quando se considera a métrica de US$ PPP, a China já é a maior economia do mundo desde 2017, e os EUA, ocupam o segundo lugar, conforme ilustrado no Gráfico 1. O Brasil, em 2019, estava no décimo lugar.

O Brasil, assim como a maior parte do mundo, sofrerá uma forte redução da atividade econômica neste ano, em função da crise do coronavírus e seus impactos na economia. Somado á isso, o Brasil é um dos países do mundo cuja moeda mais se desvalorizou. A Tabela 1 mostra que a taxa nominal de câmbio brasileira já se desvalorizou neste ano (até  final de outubro) próximo de 40%, em comparação com o final de 2019. Com as projeções da Focus,[1] a desvalorização do real do ano será pouco acima de 30% (tanto no fim de período quanto na média anual).

Com isso, na métrica de dólares, preços correntes, o Brasil passaria da nona maior economia do mundo em 2019, para a 12º posição em 2020. No começo da década atual, em 2011, o Brasil ocupava a 7º posição até 2014, o primeiro ano da recessão (mas ainda com crescimento positivo do PIB, de 0,5%). Em 2015 e 16, o biênio de recuo da atividade econômica, o Brasil perdeu duas posições, passando para 8º em 2017 e novamente em 9º nos dois últimos anos. Mas, muito da mudança de posição entre 2019 e 2020 é  devida a depreciação  cambial, e não (somente) da queda de atividade econômica.

Na métrica do dólar PPP, o Brasil ocupou no começo da década a sétima posição, permanecendo assim até 2016, passando para oitava em 2017 e ficando no mesmo lugar em 2018, mudando para a décima posição em 2019. E, segundo as projeções do FMI, vai voltar para a oitava posição em 2020 (Gráfico 2). A forte desvalorização cambial deste ano explica, em grande parte, a diferença entre a posição do Brasil neste ano (número 12, em US$ e 8, em US$ PPP). 

A Tabela 2 mostra as maiores economias do mundo em 2019, e neste ano, segundo as projeções do FMI, com base no PIB em dólares. O PIB brasileiro passaria de US$ 1,8 trilhão para US$ 1,4 trilhão, sendo ultrapassado por Canadá, Coréia e Rússia.

A Tabela 3 mostra as maiores economias do mundo em 2019, e neste ano, segundo as projeções do FMI, com base no PIB em dólares PPP. O PIB brasileiro passaria de US$ 3,2 trilhões para US$ 3,1 trilhões, mas melhoraria na classificação geral, e passaria o Reino Unido e a França, na comparação com o ano de 2019.

A Tabela 4 mostra as projeções do FMI para as taxas reais de crescimento do PIB 2020 em moeda local, US$ e US$, PPP. O FMI não divulga o PIB em preços constantes em US$ e US$, PPP, somente em preços correntes, mas divulga o deflator do PIB, logo é possível calcular as taxas reais de crescimento do PIB em US$ e US$, PPP. Na tabela também há a taxa de mortalidade (por um milhão de pessoas)[2] dos países selecionados, para se ter uma dimensão de como os países foram afetados na crise na questão sanitária.

A Tabela 2 deste artigo mostra que, segundo o PIB em US$, Canadá, Coréia e Rússia "passariam" o Brasil na classificação. Pela Tabela 4, podemos observar que a queda do PIB em US$ do Brasil será muito forte (-28,3%), muito influenciado pelo câmbio, já que o recuo em moeda local deverá ser de 5,8%, segundo o FMI. Os três países que "passariam" o Brasil devem ter quedas do PIB, em US$, muito menores do que o Brasil (Canadá, -8,6%; Coréia, -4,5%; e Rússia, -13,3%), explicando essa mudança de posição.

Ao se olhar em moeda local, Coréia e Rússia (-1,9% e -4,1%, respectivamente) devem ter quedas menores do PIB do que o Brasil, ainda de acordo com as projeções do FMI. Para o Canadá, o Fundo projeta uma queda maior do que a brasileira (-7,1% e -5,8%, respectivamente). Na questão da condução da crise de saúde, ao se olhar a taxa de mortalidade por um milhão de habitantes, o Brasil foi muito pior do que os três outros países.

Sendo assim, essa mudança de posição do Brasil, passando de nona maior economia do mundo em 2019 para décima-segunda em 2020, é explicada principalmente pela variação cambial.

Vale frisar que a forte desvalorização cambial que o Brasil passou nesse ano é mais um reflexo do aumento do risco do Brasil, principalmente do lado fiscal. Bolsa, risco (CDS), câmbio, juros futuros. Todas essas variáveis mostram as incertezas e o risco embutido no Brasil. O CDS de 5 anos fechou o ano passado em menos de 100 pontos. Está próximo de 200 atualmente. A média de 2020[3] é de 221,6 e chegou a ficar próximo dos 400 pontos em alguns momentos do ano.

A crise do coronavírus veio pra agravar os problemas antigos do Brasil, e não foi a "origem" dos nossos problemas. O Brasil vinha de uma recessão muito forte (2014/16) e uma recuperação, lenta e gradual, no triênio posterior. Caso não tivesse o coronavírus, a década atual já seria a "mais perdida" em termos de crescimento econômico dos últimos 120 anos, pior do que os anos 1980, chamados de "década perdida". Com a crise deste ano, a década vai ter uma estagnação entre 2011 e 2020 (crescimento nulo, próximo de 0%). A situação fiscal já estava numa situação complicada anteriormente. Desde 2014 o Brasil voltou a apresentar déficit primário, após 16 anos de superávit. A dívida bruta subiu de pouco mais de 50% do PIB em 2013 para próximo de 75% em 2018, e caiu levemente no ano passado. Já passou de 90% no acumulado em 12 meses até setembro. Neste ano não tinha muito o que fazer, todos os países aumentaram as dívidas, vão apresentar déficits grandes. O problema é que o Brasil já estava num patamar alto antes do coronavírus. Incertezas fiscais sobre teto dos gastos, programa social pós- auxílio emergencial, reformas, tudo isso aumenta o risco e a incerteza, impactando no câmbio. Isto é, essa forte desvalorização cambial, aumento do risco, etc, são reflexos dos problemas brasileiros.

A Tabela 3 deste artigo mostra o tamanho das economias em US$, PPP. Nesse caso, o Brasil passaria da décima posição no ano passado para oitavo em 2020, ultrapassando Reino Unido e França. Na Tabela 4, podemos verificar que França e Reino Unido devem apresentar quedas do PIB em US$, PPP maiores do que o Brasil (-10,2%, -11,1% e -7,6%, respectivamente). Brasil, França e Reino Unido tiveram altas taxas de mortalidade por um milhão de pessoas.

Pela Tabela 4, podemos ver que Brasil e Rússia, países emergentes, são os que apresentaram maiores (e grandes) diferenças entre o PIB em US$ e o PIB em US$, PPP. Foram os países, dentre as maiores economias do mundo, com oscilações cambiais mais fortes.

Em resumo, em função da queda de atividade econômica do Brasil, somada á forte desvalorização cambial, o Brasil deve perder três posições, e passar a ser a 12º maior economia do mundo em 2020, segundo as projeções do FMI, com base nos dados do PIB em dólar. Já ao se comparar o PIB em US$ PPP, o Brasil deve ser a oitava maior economia do mundo neste ano, “melhorando” duas posições.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.


[1] 30/10/20.

[2] Em função da ocorrência de possíveis subnotificações de casos ou variações na intensidade da testagem ao longo do tempo, a taxa de mortalidade nos parece um indicador mais apropriado do que o número de casos de covid-19, ainda que esta variável também mereça algumas ressalvas, como no caso de San Marino, o país com a maior taxa (1237 / 1 milhão de habitantes), mas com apenas 42 mortes no total, pois tem uma população de apenas 34 mil habitantes. E também é importante controlar pelo tamanho da população, ao invés de se olhar para o número absoluto de mortes.

[3] Até 05/11/20.

Comentários

Edno Luiz Pizzolatti
O salário mínimo no Brasil, face sua posição econômica deveria estar sendo pago em torno de R$3.000,00 e não este miserável R$1.045,00.
José Pascoal Vaz
Excelente o trabalho do IBRE/IBGE. Grato ao Iso por trazê-lo.
Diego Barcelos
Boa matéria e explanação das informações. Obrigado!
Paulo César Pinto
Enquanto o custo Brasil continua como está vamos ter o pib igual dos piores países muito menor que o Brasil está provado ser o setor privado não consegue bancar os altos salários e as aposentadorias do setor público é hora de começar privatização acabar com os altíssimos salários nas estatais por indicação dos políticos o setor privado está está sendo escravizados

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