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Crescer e distribuir: a sensibilidade da extrema pobreza nos estados brasileiros

15 out 2026

Crescimento de renda importa, mas não basta: redução da extrema pobreza pelo crescimento depende de como renda está distribuída. Em todas UFs, extrema pobreza é mais sensível a mudanças no Gini do que a elevações proporcionais da renda média.

Introdução

Artigos recentes publicados no Blog do IBRE exploram a evolução da renda, da pobreza e da extrema pobreza no Brasil e em suas regiões. O artigo “Renda cresce e pobreza cai, mas Brasil segue marcado por desigualdades regionais” mostra que a renda domiciliar per capita atingiu o maior nível da série da PNAD Contínua, enquanto a pobreza e a extrema pobreza recuaram de forma expressiva nos anos posteriores à pandemia.

Mais recentemente, o artigo “Crescimento da renda basta para reduzir a pobreza? Evidências das unidades da Federação entre 2022 e 2025” explorou essas relações em nível estadual. Embora a renda domiciliar per capita tenha crescido e a pobreza tenha diminuído nas 27 unidades da Federação, a intensidade desses movimentos variou consideravelmente. Os estados que apresentaram os maiores aumentos da renda não foram necessariamente aqueles em que a pobreza mais recuou. As associações com a variação da desigualdade mostraram-se mais fortes, ainda que também heterogêneas, indicando que o crescimento da renda média, considerado isoladamente, não é suficiente para explicar as diferentes trajetórias estaduais de redução da pobreza.

Essas evidências suscitam uma questão adicional. Mais do que identificar se a renda cresceu ou se a desigualdade diminuiu, interessa saber com que intensidade cada um desses movimentos afeta a população abaixo da linha de pobreza e por que essa resposta varia entre os estados. As elasticidades da pobreza permitem quantificar essa sensibilidade e mostrar como o nível de renda e sua distribuição condicionam os resultados do crescimento.

Neste artigo, calculamos, para as 27 unidades da Federação, a sensibilidade da extrema pobreza a mudanças na renda média e no índice de Gini. Com base nos dados da PNAD Contínua de 2025, comparamos essas respostas entre estados e regiões e construímos cenários contrafactuais que combinam crescimento da renda e redução da desigualdade.

A relação entre crescimento da renda, desigualdade e pobreza

Do ponto de vista teórico, essa relação é sintetizada pelo chamado Triângulo Pobreza–Crescimento–Desigualdade, formulado explicitamente por Bourguignon (2003, 2004)[i]. A proporção de pessoas pobres corresponde à parcela da população cuja renda se encontra abaixo de determinada linha e depende tanto do nível médio dos rendimentos quanto de sua distribuição. O crescimento da renda desloca essa distribuição para a direita, enquanto a redução da desigualdade diminui sua dispersão e pode elevar a renda das pessoas situadas em sua parte inferior.

A Figura 1 representa esses dois canais. O efeito-crescimento corresponde à mudança da pobreza provocada pelo aumento da renda média, mantida a distribuição constante. O efeito-distribuição capta a mudança decorrente de uma alteração na desigualdade, para um mesmo nível médio de renda. Embora possam ser isolados analiticamente, os dois movimentos estão relacionados: a desigualdade também condiciona a capacidade do crescimento de alcançar os grupos de menor renda.

Figura 1. Decomposição da variação da pobreza em efeito-crescimento e efeito-distribuição.

Fonte: adaptada de Bourguignon (2004).

A intensidade desses efeitos não é fixa. Ela depende da posição da linha de pobreza em relação à renda média e do grau de dispersão dos rendimentos. Em contextos de renda mais baixa, o crescimento conserva um papel central, pois a insuficiência da renda média é uma das principais fontes da pobreza. À medida que a renda se eleva e a pobreza passa a se concentrar na cauda inferior da distribuição, as mudanças distributivas ganham importância relativa. Além disso, para um mesmo nível de renda, uma desigualdade menor tende a ampliar a capacidade de novas expansões da renda reduzirem a pobreza.

Para quantificar essas relações, seguimos o arcabouço de Bergstrom (2022) [ii], que aproxima a renda domiciliar per capita por uma distribuição lognormal. Aplicações desse tipo de aproximação ao caso brasileiro remontam a Hoffmann (2005)[iii], que calculou elasticidades da pobreza em relação à renda média e ao Gini para o Brasil e suas unidades da Federação.

Sob essa hipótese, a incidência da pobreza pode ser calculada a partir de três informações: a renda média, o índice de Gini e a linha de pobreza. Na formulação original, a desigualdade é representada pela dispersão do logaritmo da renda, obtida a partir do Gini. No presente artigo, essa medida é convertida em uma elasticidade diretamente associada a variações proporcionais do próprio índice. Os cálculos referem-se a 2025 e adotam a linha de extrema pobreza de US$ 3,00 por dia, em paridade de poder de compra de 2021, equivalente a aproximadamente R$ 280 mensais por pessoa.

Vale destacar que as elasticidades são calculadas analiticamente, e não estimadas econometricamente. A série completa de dados, de 2012 a 2025, foi utilizada para avaliar a aderência da aproximação lognormal. As elasticidades devem ser interpretadas como sensibilidades implícitas no modelo, condicionadas à forma funcional e às características observadas em cada estado, e não como efeitos causais.

Elasticidade-renda e elasticidade-desigualdade

A Figura 2 mostra que a extrema pobreza é sensível tanto ao crescimento da renda quanto à redução da desigualdade, mas a magnitude desses efeitos varia consideravelmente entre as unidades da Federação. Mantidas as demais condições, um aumento de 1% da renda domiciliar per capita reduziria a taxa de extrema pobreza entre 1,7% e 3,5%, dependendo do estado. Já uma redução de 1% no índice de Gini — equivalente, por exemplo, à passagem de 0,500 para 0,495 — produziria uma queda proporcional calculada entre 3,9% e 10,2%.

Figura 2. Elasticidades da extrema pobreza por UF

Redução percentual associada a um aumento de 1% da RDPC ou a uma redução de 1% do Gini (2025). Elasticidade-renda em valor absoluto.

Fonte: elaboração própria com dados do IBGE/PNAD Contínua.

Santa Catarina apresenta as maiores elasticidades nas duas dimensões: um aumento de 1% da renda reduziria proporcionalmente a extrema pobreza em cerca de 3,5%, enquanto uma queda de 1% no Gini produziria uma redução de 10,2%. Também se destacam os valores elevados da elasticidade-Gini no Rio Grande do Sul, no Distrito Federal, no Paraná, em Mato Grosso e em São Paulo. No outro extremo, o Maranhão registra as menores elasticidades: 1,7% em relação à renda e 3,9% em relação ao Gini. Embora a diferença entre as duas medidas seja menor no Maranhão, a sensibilidade à desigualdade ainda corresponde a mais do que o dobro da sensibilidade à renda.

Em todas as unidades da Federação, a elasticidade-Gini supera a elasticidade-renda. A relação entre as duas elasticidades depende da distância entre a renda média e a linha de pobreza e do grau de desigualdade. Em 2025, a linha de extrema pobreza encontrava-se bem abaixo da renda média em todas as UFs, situando a população extremamente pobre na cauda inferior da distribuição e tornando sua incidência especialmente sensível a mudanças na dispersão dos rendimentos.

O padrão encontrado é consistente com Bergstrom (2022), que encontra elasticidades da desigualdade em média superiores às de crescimento e uma elasticidade-renda que declina acentuadamente com o nível inicial de desigualdade. A autora ressalva, contudo, que as reduções de pobreza efetivamente observadas decorreram em grande parte do crescimento da renda, porque as variações de desigualdade são bem menores que as de renda.

Esses resultados não significam, contudo, que uma redução da desigualdade retiraria necessariamente mais pessoas da extrema pobreza nos estados com as maiores elasticidades. Como as elasticidades medem variações proporcionais, elas tendem a ser mais elevadas onde a taxa inicial de extrema pobreza já é baixa. Uma redução percentual expressiva sobre uma base pequena pode representar uma variação limitada em pontos percentuais ou em número de pessoas. Além disso, variações de 1% na renda e no Gini não devem ser interpretadas como políticas de mesmo custo ou de igual viabilidade. As elasticidades medem sensibilidades e constituem, por isso, o ponto de partida para os exercícios de simulação apresentados na seção seguinte.

Simulações contrafactuais para a extrema pobreza

A Figura 3 apresenta três exercícios contrafactuais baseados no mesmo modelo utilizado para calcular as elasticidades: aumento de 5% da renda domiciliar per capita, redução de 5% no índice de Gini e ocorrência simultânea dos dois movimentos. A redução do Gini é proporcional — corresponde, por exemplo, à passagem de 0,500 para 0,475 — e não a uma queda de cinco pontos no indicador. Os resultados são ancorados nas taxas observadas em 2025 e devem ser interpretados como simulações, não como previsões.

Para o Brasil, um crescimento de 5% da renda reduziria a taxa de extrema pobreza de 4,61% para 4,16%, uma queda de 0,45 ponto percentual. A redução de 5% no Gini produziria um efeito mais intenso: a taxa diminuiria para 3,41%, recuo de 1,20 ponto percentual. No cenário combinado, a extrema pobreza chegaria a 3,04%, ficando 1,57 ponto percentual abaixo da taxa observada. Em termos populacionais, esses resultados corresponderiam à saída de aproximadamente 958 mil pessoas da extrema pobreza no cenário de crescimento da renda, 2,56 milhões no cenário distributivo e 3,34 milhões no cenário combinado.

Figura 3. Extrema pobreza observada e simulada – 2025.

Nota: efeitos simulados de um aumento de 5% da RDPC, de uma redução de 5% no índice de Gini e da combinação dos dois movimentos. As taxas simuladas são ancoradas na extrema pobreza observada em 2025. Os cenários constituem exercícios contrafactuais, não projeções.

Fonte: elaboração própria com dados do IBGE/PNAD Contínua.

O Nordeste e o Norte continuariam apresentando as maiores taxas em todos os cenários, refletindo seus níveis iniciais mais elevados de extrema pobreza. Em termos absolutos, porém, seriam também as regiões com as maiores reduções no cenário combinado. No Nordeste, a taxa passaria de 8,70% para 6,21%, queda de 2,49 pontos percentuais. No Norte, diminuiria de 6,83% para 4,76%, redução de 2,07 pontos. Nas demais regiões, as quedas seriam menores: 1,17 ponto percentual no Sudeste, 1,06 no Centro-Oeste e 1,01 no Sul.

Em termos proporcionais, o padrão se inverte. A redução combinada alcançaria 47,6% no Sul, 43,1% no Centro-Oeste e 41,5% no Sudeste, ante 30,3% no Norte e 28,6% no Nordeste. Isso ocorre porque os efeitos incidem sobre taxas iniciais muito diferentes. Regiões com menor extrema pobreza apresentam maior sensibilidade proporcional, enquanto aquelas com incidência mais elevada concentram as maiores reduções em pontos percentuais e em número de pessoas. Em todas as regiões, contudo, a simulação associada à redução do Gini produz um efeito maior que o crescimento da renda, reforçando que a forma como os ganhos são distribuídos é decisiva para a redução da extrema pobreza.

Como a desigualdade condiciona o efeito do crescimento

A Figura 4 ajuda a compreender por que o crescimento da renda não produz o mesmo efeito sobre a extrema pobreza em todas as unidades da Federação. As curvas representam a elasticidade-renda prevista para diferentes níveis de desigualdade. Em cada uma delas, o índice de Gini é mantido constante, permitindo observar como a sensibilidade da extrema pobreza se altera à medida que aumenta a renda domiciliar per capita. Quanto mais baixa a desigualdade, mais elevada é a curva e, portanto, maior é a redução proporcional da extrema pobreza associada ao mesmo crescimento da renda.

Figura 4. Desigualdade e capacidade do crescimento de reduzir a extrema pobreza (2025)

Nota: as curvas representam os valores teóricos da elasticidade-renda para índices de Gini iguais a 0,43, 0,49 e 0,55, sob a aproximação lognormal. Elasticidade-renda apresentada em valor absoluto.

Fonte: elaboração própria com dados do IBGE/PNAD Contínua.

Dois movimentos podem ser identificados. Ao longo de uma mesma curva, a elasticidade-renda aumenta com a renda média. Quando a extrema pobreza já é relativamente baixa, uma pequena redução no número de pessoas abaixo da linha pode representar uma variação proporcional expressiva. Entre as curvas aparece o papel da desigualdade: para um mesmo nível de renda, a elasticidade é maior quando o Gini é menor. Em uma distribuição menos desigual, há uma proporção menor de pessoas muito distantes da linha de extrema pobreza, tornando a parcela ainda situada abaixo dela mais sensível ao deslocamento provocado pelo crescimento.

A posição das unidades da Federação no gráfico ilustra esse mecanismo. Santa Catarina combina renda elevada e o menor Gini do país, apresentando a maior elasticidade-renda, próxima de 3,5. O Distrito Federal oferece o contraste mais evidente: apesar de possuir a maior renda domiciliar per capita, sua desigualdade mais elevada limita a elasticidade-renda a aproximadamente 2,1. Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte também aparecem próximos da curva de maior desigualdade, enquanto Santa Catarina e Mato Grosso se aproximam da curva correspondente ao menor Gini.

Os estados do Norte e do Nordeste concentram-se majoritariamente na parte inferior esquerda do gráfico, combinando rendas médias mais baixas com elasticidades geralmente menores. Isso não significa que o crescimento produza necessariamente reduções menores em pontos percentuais ou em número de pessoas nessas regiões, pois suas taxas iniciais de extrema pobreza são mais elevadas. O gráfico expressa uma sensibilidade proporcional e evidencia, sobretudo, o papel condicionante da desigualdade: sua redução não apenas afeta diretamente a pobreza, mas também amplia a capacidade de futuras expansões da renda de alcançar a parcela mais pobre da população.

Considerações Finais

Os resultados mostram que o crescimento da renda e a redução da desigualdade são caminhos complementares para enfrentar a extrema pobreza, mas seus efeitos variam entre estados e regiões. Em todas as unidades da Federação, a extrema pobreza mostrou-se mais sensível a mudanças no Gini do que a aumentos da renda média. As simulações reforçam esse resultado: para o Brasil, o crescimento de 5% da renda reduziria a taxa de 4,61% para 4,16%, enquanto uma queda de 5% no Gini a levaria a 3,41%. Com os dois movimentos combinados, a taxa chegaria a 3,04%. A desigualdade, portanto, não apenas afeta diretamente a pobreza, mas também condiciona a capacidade do crescimento de beneficiar os grupos de menor renda.

Mesmo que baseados em uma aproximação lognormal da distribuição da renda e em exercícios contrafactuais estáticos, os resultados evidenciam que crescer importa, mas a forma como os ganhos do crescimento são distribuídos é decisiva para a redução da extrema pobreza.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

 

 

[i] Bourguignon, F. (2003). The Growth Elasticity of Poverty Reduction. In Inequality and Growth: Theory and Policy Implications. MIT Press.

Bourguignon, F (2004). The Poverty-Growth-Inequality Triangle. Washington, DC: World Bank.

[ii] Bergstrom, K. (2022). The Role of Income Inequality for Poverty Reduction. The World Bank Economic Review, 36(3), 583–604.

[iii] Hoffmann, R. Elasticidade da pobreza em relação à renda média e à desigualdade no Brasil e nas unidades da Federação. Economia, v. 6, n. 2, p. 255-289, jul./dez. 2005.

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