De onde virá a “baleia”?

07/05/2019

O banco central americano, Federal Reserve, ou simplesmente Fed, alterou a política monetária dos Estados Unidos. Com isso, em função da importância da economia americana, alterou a política monetária mundial.

Tudo indica cenário de pouso suave da economia americana, para crescimento em 2020 de 2%, com inflação na meta e Fed Funds constantes, isto é, a 2,5% – e, portanto, juro real de 0,5%. 

O cenário básico com o qual trabalhamos é de o pouso suave manter a economia americana crescendo a 2% ao ano, ligeiramente além do crescimento potencial. Consequentemente, o mercado de trabalho continuará a se apertar. 

Com o passar do tempo – 1, 2 ou 3 anos – retoma-se a inflação. O próximo ciclo de juros será de alta e a próxima desaceleração da economia, que pode ser uma recessão a depender do nível de destreza do Fed, será consequência da luta contra a inflação. Ou seja, teremos uma desaceleração ou recessão, fruto de um ciclo monetário clássico.

O problema com esse prognóstico é que, nos últimos 25 anos, os ciclos americanos não têm tido essa característica. Em 1998, houve cortes dos Fed Funds, na esteira do pacote de salvamento do hedge fund Long Term Capital Management (LTCM) por instituições financeiras privadas, mas coordenado pelo Fed. Em 2000, o Fed iniciou grande ciclo de cortes dos Fed Funds, disparado pelo estouro da bolha das empresas de tecnologia negociadas na Nasdaq. Em setembro de 2008, houve a quebra da Lehman que gerou a maior destruição de valor e a maior recessão da economia mundial desde a grande depressão de 1929. Os Fed Funds, que já vinha caindo e estavam em 2%, foram levados a praticamente zero até dezembro de 2008.

Nos três episódios apontados no parágrafo anterior, o núcleo do PCE rodava a respectivamente 1,3%, 1,7% e 2,1%.

Não houve ciclos monetários clássicos, mas ciclos produzidos por algum evento ligado – no caso do LTCM e da Lehman – a uma grande instituição com ligações sistêmicas e capacidade de produzir rupturas. 

Assim, é necessário olhar o cenário convencional desenhado no início desta coluna com muita dúvida. A questão é sabermos de onde virá uma desaceleração maior se esta não vier na forma clássica. Alguém consegue enxergar essa “baleia”?


Este artigo faz parte do Boletim Macro IBRE de abril de 2019. Leia aqui a versão integral do BMI/Abril/19.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

 

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