Deflator por faixa de renda mostra que desigualdade piorou ainda mais desde o início da recessão

05/02/2020

A desigualdade tem sido um tema recorrente desde quando, durante o início da recessão de 2015 e 2016, se tem registrado um aumento da disparidade de renda no Brasil, que ainda não mostrou tendência de reversão, apesar da melhoria do ambiente econômico nos últimos anos. No entanto, ao calcular tais indicadores, normalmente se assume que todos os indivíduos em um período sofrem de uma mesma tendência de aumento de preços (como o IPCA). Diante disso, torna-se relevante o seguinte questionamento: o que ocorre quando as inflações por regiões ou faixas de renda impactam os distintos poderes de compra dos indivíduos? E, mais especificamente, como a utilização de um deflator por faixas de renda pode vir a impactar na desigualdade de rendimentos no Brasil?

Indicadores como o Índice de Gini, por exemplo, medem algo como as distâncias acumuladas da renda entre indivíduos, independentemente do rendimento médio destes. Nesse caso, portanto, seria indiferente para a evolução do indicador o uso ou não de um deflator tal como o IPCA ou INPC, uma vez que, sendo uma medida nacional de aumento de preços, este afetaria apenas a média e não as distâncias de renda entre os brasileiros.

Por outro lado, caso haja um deflator que registre como os preços se alteram diferentemente entre grupos de indivíduos, a evolução da desigualdade seria afetada com seu uso para a correção da renda. Por exemplo, caso houvesse um aumento maior da renda nominal dos mais ricos em relação aos mais pobres, mas um deflator mostrasse que os preços aumentaram mais para estes grupos melhor posicionados no mesmo período, a desigualdade de poder de compra poderia se revelar em uma trajetória constante, diferentemente da tendência de aumento que seria registrada sem o uso de deflatores.

Nesse artigo, trataremos de dois deflatores do gênero: um construído pelo IBGE, e o outro, pelo IPEA. O primeiro, disponibilizado nas divulgações da PNAD Contínua Trimestral (que contém os microdados da pesquisa), revela a trajetória dos preços por Estado. Em outras palavras, trata-se de um deflator estadual. Sua proposta e utilidade são justamente fornecer os dados de como os níveis de preços flutuam nos vinte e sete diferentes estados do Brasil, de maneira que os poderes de compra dos indivíduos sejam corrigidos de acordo com a respectiva unidade da federação em que residem. Nesse sentido, a fim de ilustração, o Gráfico 1 mostra a inflação anual acumulada por Estados nas diferentes regiões do país.

Conforme se pode ver pelo gráfico, apesar de possuírem uma tendência geral bem semelhante entre si, as diferentes UFs e, de forma mais ampla, as regiões possuem níveis de oscilação de preços distintos. Ao passo que, no período de maior aceleração inflacionária da série, em meados de 2016, o Norte apresentou a variação de preços mais baixa dentre as regiões, o Sul possuía a inflação mais alta do país. Dessa maneira, torna-se clara a relevância dessa série para uma mais precisa correção da renda nominal dos indivíduos – afinal, utilizar um índice de preços nacional acabaria por subestimar ou superestimar a variação de preços que de fato ocorreu no local de residência dos diferentes indivíduos.

Entretanto, no que diz respeito ao índice de preços a ser utilizado na análise dos dados da PNAD Contínua, deve-se levar em conta, ademais, o fato de que indivíduos respectivos a diferentes faixas de renda também possuem variações de preços distintas entre si. Isto se explica pelo fato de cestas de consumo diferentes – a partir da renda disponível respectiva ao indivíduo – também possuírem variações de preços relativos distintas. Desse modo, pessoas de menor poder aquisitivo estão mais sujeitas a flutuações de preços de alimentos e energia elétrica, por exemplo, ao passo que indivíduos mais abastados são mais afetados por oscilações no preço da gasolina e passagens aéreas.

Com esse propósito, o IPEA constrói o indicador de Inflação por Faixa de Renda, que permite identificar as diferenças no comportamento do custo de vida de famílias com rendas distintas. As faixas de renda utilizadas para a construção destes índices, definidas de acordo com a renda domiciliar mensal e expressas a preços de janeiro de 2009, são seis: renda muito baixa (abaixo de R$ 900); renda baixa (entre R$ 900 e R$ 1350); renda média-baixa (entre R$ 1350 e R$ 2250); renda média (entre R$ 2250 e R$ 4500); renda média-alta (entre R$ 4500 e R$ 9000); e renda alta (maior que R$ 9000). O Gráfico abaixo mostra a evolução da inflação acumulada em 12 meses por Faixa de Renda, tal como disponibilizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Finalmente, o Gráfico 3, abaixo, mostra a evolução do Índice de Gini em três séries: sem deflatores, com o deflator estadual (IBGE) e com o deflator por faixa de renda (IPEA). Como se vê, a primeira e a segunda não se diferenciam muito na trajetória geral, com apenas algumas oscilações em alguns períodos. Já a terceira se difere significativamente das anteriores, terminando o terceiro trimestre de 2019 em um nível mais elevado em 0,6 pontos de Gini (de uma base 100).

Segundo tal série, não apenas a redução da desigualdade entre 2012 e 2014 foi menor do que sem o uso de deflatores, mas também houve aumento muito mais elevado da desigualdade entre 2015 e 2016. Tal comportamento está refletido no Gráfico 2, que evidenciou até o início de 2017 uma inflação muito superior para aqueles de renda muito baixa do que os de renda alta. Assim, tendo os trabalhadores de menores rendimentos sofrido uma variação mais alta dos preços de sua cesta de consumo do que aqueles em melhor posição socioeconômica, a diferença entre eles se mostrou mais elevada do que se apenas considerássemos seus salários nominais (ou deflacionados por um mesmo índice, como o IPCA).

Considerar a evolução relativa dos preços entre camadas da sociedade, desse modo, pode ser fundamental para o uso de instrumentos de políticas públicas destinadas a reduzir a pobreza e a desigualdade. Tendo em vista as diferentes cestas de consumo entre classes sociais e como seus preços se comportam no tempo, a medição de indicadores sociais sem os deflatores apropriados pode tornar a sociedade míope quanto ao real tamanho dos desafios do poder público.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

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