Em busca do capital humano perdido

13/10/2020

Diariamente somos informados do número de ocorrências associadas à pandemia do COVID – 19: o número de infectados e o número de mortos em decorrência do vírus. A cada momento somos informados sobre parentes, colegas, conhecidos, que tragicamente não estarão mais conosco nos dando carinho, alegrias, o prazer da convivência... Essa tragédia já alcança todos nós social ou individualmente. Este é o lado humano dessa tragédia.

Mas há outro lado: todas essas pessoas vitimadas tinham um certo conhecimento, certas habilidades adquiridas ao longo da vida, que utilizando e transmitindo para colegas poderiam, por muito tempo ainda, contribuir para gerar renda para si, para eventuais dependentes e, portanto, para o País. Eles farão falta.

A esse conhecimento e habilidades acumulados se denomina CAPITAL HUMANO. As Nações Unidas em 2016 divulgaram um Guia para mensurar o capital humano e recentemente, o Banco Mundial divulgou um alentado estudo sobre um índice de capital humano de âmbito global.[1] O presente estudo tem objetivo bem mais modesto e  simples: buscamos estimar o quanto as pessoas com até 69 anos de idade falecidas em função do covid-19 ainda poderiam produzir, sendo a variável rendimento utilizada como proxy da renda e anos de educação formal como proxy de capital humano.[2]

Vale frisar que esses exercícios são preliminares, e que somos forçados a formular hipóteses (ver abaixo a seção “Hipóteses e Fontes dos Dados”) bastante fortes para calcular as simulações apresentadas. As hipóteses foram feitas com os dados disponíveis no momento, tanto da pandemia, quanto os dados sociais e econômicos do IBGE. Além disso, o intuito aqui é o de provocar o debate sobre o impacto econômico, notadamente do capital humano perdido, relacionado às vidas humanas que se foram pelo covid-19, e não o de apresentar respostas definitivas. Para pesquisas futuras também podem ser estimados, por exemplo, o capital humano perdido em decorrência de vítimas fatais de acidentes automobilísticos, dos milhares de assassinatos que ocorrem anualmente no Brasil, entre outros motivos, para mostrar as perdas econômicas resultantes das tragédias sociais brasileiras.   

O primeiro resultado que podemos obter é o do rendimento dessas pessoas que se foram:

A massa de rendimentos mensais totais das 63,2 mil pessoas falecidas,[3] com idades entre 20 e 69 anos, era de R$ 108,6 milhões. No ano, isso corresponde a R$ 1,3 bilhão.[4]

Mais da metade do total de óbitos (73,9 mil, segundo dados do Portal de Transparência do Registro Civil, até 06/10/20, de um total de 138,2 mil) ocorreram no grupo de pessoas com mais de 70 anos.[5] Aqui consideramos o rendimento médio mensal real de aposentadoria e pensão (preços de 2018 segundo a Pnad Contínua 2018) de R$ 1.872,00, para as pessoas com mais de 70 anos.

O rendimento mensal total das 72,3 mil pessoas falecidas, com idades acima de 70 anos, era de R$ 138,3 milhões. No ano, isso corresponde a R$ 1,7 bilhão.

Ao se considerar o rendimento mensal do trabalho das pessoas até 69 anos separado por nível de instrução e sexo; mais a renda dos idosos a partir dos 70 anos,  chega-se num valor de R$ 246,9 milhões que no ano perfaz R$ 3,0 bilhões (0,1% da massa de rendimentos do ano de 2018).[6]

Um outro  exercício possível  é calcular o quanto que essas pessoas falecidas ainda poderiam produzir e gerar de rendimento dada as suas expectativas de vida.

As 63,2 mil pessoas com idade entre 20 e 69 anos teriam um rendimento total de R$ 36,1 bilhões até o falecimento, o que corresponde a um rendimento per capita, pelos anos que a pessoa ainda viveria, de R$ 570,4 mil.

        Muitas dessas pessoas poderiam continuar conosco caso tivessem sido mais bem informados, se alertados através de campanhas sobre os cuidados a serem tomados e da virulência dessa doença.

Hipóteses, Fontes dos Dados e Comentários Adicionais:

1) Rendimento das pessoas entre 20 e 69 anos:

O Portal de Transparência do Registro Civil fornece as informações de óbitos (número de óbitos com suspeita ou confirmação de COVID-19 na data do óbito), separado por sexo e intervalos de idade.[7] Utilizou-se o estoque de óbitos até 06 de outubro de 2020.

O relatório Síntese de Indicadores Sociais do IBGE de 2019 (com dados de 2018) foi a fonte para o rendimento real[8] das pessoas, separado por sexo e nível de instrução, sendo estes últimos assim classificados: sem instrução ou fundamental incompleto; ensino fundamental completo ou médio incompleto; ensino médio completo ou superior incompleto; e ensino superior completo.

A renda de cada pessoa por nível de instrução é informada por hora. Logo, torna-se necessário “mensalizar” o valor. O mesmo relatório do IBGE mostra que o rendimento médio real mensal do trabalho principal das pessoas ocupadas era de R$ 2163, e que o rendimento-hora médio real do trabalho principal das pessoas ocupadas era de R$ 17,0.[9] Logo, ao se dividir o rendimento médio mensal pelo rendimento-hora médio (2163 / 17), chega-se no número médio de horas trabalhadas no mês (127,2 horas).[10]

O relatório do IBGE também foi a fonte das informações sobre o nível de instrução por idade.[11] Como os intervalos de idade são diferentes para os dados de óbito[12] e do nível de instrução[13] (20-29 e 25-34, respectivamente, e assim por diante), fizemos uma média simples, quando necessário, para compatibilizar os dados. Sendo assim, para as pessoas entre 20-29 anos, foi utilizado o nível de instrução entre 25-34 anos. Para as pessoas entre 30-39, foi utilizado a média no nível de instrução de 25-34 e 35-44 anos. E assim por diante.

Há dez “grupos diferentes”, estratificados por sexo e idade: homens, 20-29 anos; mulheres, 20-29 anos: homens, 30-39 anos; mulheres, 30-39 anos; homens, 40-49 anos; mulheres, 40-49 anos; homens, 50-59 anos; mulheres, 50-59 anos; homens, 60-69 anos; mulheres, 60-69 anos.

Para cada um destes grupo, há informação sobre a quantidade de óbitos, e a partir daí, pelo nível de escolaridade, é possível estimar a quantidade de pessoas pertencentes a esse grupo. Também temos o rendimento-hora médio (separado por nível de instrução e por sexo). Para se calcular o rendimento mensal, multiplica-se o rendimento-hora pelas horas médias trabalhadas no mês (127,2). Após isso, multiplica-se o rendimento mensal pela quantidade de pessoas. Por fim, soma-se os dez grupos, para achar o valor mensal total, e multiplica-se por 12 para se obter o dado anual. Adicionalmente, se calcula esse valor em proporção da massa de rendimento (do ano de 2018).

2) As pessoas falecidas (20-69 anos) ainda poderiam produzir, e gerar de rendimento, em média:

Para isso, é necessário anualizar o rendimento mensal e depois multiplicar pelos anos que a pessoa ainda iria viver, em média. Segundo dados do IBGE de Expectativas de vida em idades exatas,[14] os anos de expectativa de vida ao nascer estão separados por sexo e idade, e mudam conforme os anos vão passando. Por exemplo, a expectativa de vida, ao nascer, de um homem é de 72,8 anos, e das mulheres, de 79,9. Com 50 anos, a expectativa dos homens aumenta para 78,4 anos, e 82,9 anos para as mulheres.

3) Comentários adicionais e sugestões de pesquisas futuras:

Como no Brasil, antes da crise de 2020, a taxa de desemprego já era elevado (11,9% na média de 2019, de acordo com a Pnad Contínua do IBGE), fruto da forte recessão de 2014-16 e da recuperação lenta e gradual entre 2017 e 2019, situação essa se agravou neste ano (13,8% no trimestre móvel terminado em julho de 2020) e provavelmente permanecerá alto em 2021, muitas destas pessoas falecidas estariam provavelmente sem ocupação durante este período.

Vele frisar que para se ter uma dimensão melhor do mercado de trabalho, não devemos olhar somente para as pessoas desocupadas, mas também para as pessoas desalentadas, subocupadas e trabalhadores informais. No final de 2019, havia mais de 65 milhões de brasileiros numa situação mais vulnerável do mercado de trabalho. Em termos de magnitude, o número é próximo dos beneficiários do auxílio emergencial neste ano.[15]

Ou seja, assumindo que essas pessoas falecidas tinham um perfil semelhante à média da economia, muitas delas estariam numa situação mais vulnerável do mercado de trabalho por um bom tempo. O mesmo vale para os sobreviventes.

Outro ponto é que algumas dessas mortes levarão a pagamento de pensão, compensando parte das perdas da economia pelo lado da demanda. Do lado fiscal, se de um lado, temos os aposentados que deixarão de pesar no INSS; do outro, mais pensões em alguns casos. Pesquisas futuras para quantificar esse efeito fiscal ficam como sugestões.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

 


[2] Até 69, pois o intervalo de idade dos óbitos é 60-69 anos.

[3] Até 06/10/20, segundo dados do Portal de Transparência do Registro Civil.

[4] Caso suponhamos que as 63,2 mil pessoas falecidas tinham um rendimento médio mensal real de R$ 2234, que era o valor médio de todas os trabalhos, segundo a Pnad Contínua 2018, divulgada em 16/10/19, o rendimento mensal total seria de R$ 141,2 milhões, e R$ 1,7 bilhões, no ano (preços de 2018).

[5] Sobre renda de idosos, ver: Camarano AA. “Os dependentes da renda dos idosos e o coronavírus: órfãos ou novos pobres?” Nota Técnica IPEA, número 81, Rio de Janeiro, 2020.

[6] Ao se considerar o rendimento médio mensal de todos os trabalhos das pessoas até 69 anos, (R$141,2 milhões) e o rendimento médio de aposentadoria e pensão para as pessoas com mais de 70 anos, (R$138,3 milhões) chega-se num valor mensal de R$ 279,5 milhões. No ano, R$ 3,4 bilhões (0,1% da massa de rendimentos).    

[7] A outra opção, ao invés da data do óbito, é a data de registro do óbito. Os dados do Portal de Transparência do Registro Civil diferem um pouco dos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, por questões metodológicas. 

[8] Rendimento-hora médio real habitual do trabalho principal das pessoas de 14 anos ou mais de idade ocupadas na semana de referência; rendimentos deflacionados para reais médios de 2018, disponível na Tabela 1.9 do relatório do IBGE.

[9] Gráficos 11 e 12, p. 28, do relatório do IBGE.

[10] Ao se dividir estas 127,2 horas por 22 dias úteis, chega-se ao número de 5,8 horas médias trabalhadas por dia.

[11] Gráfico. 6, p. 85, do relatório do IBGE.

[12] 20-29, 30-39, 40-49, 50-59 e 60-69.

[13] 25-34, 35-44, 45-54 e 55-64.

[14] Tabela 3, p. 7, do relatório do IBGE.

[15] Apesar das fraudes, com pessoas que não deveriam ter recebido, mas conseguiram receber, e o contrário também, com pessoas vulneráveis, que necessitavam do dinheiro, mas não chegaram a receber.

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