À espera de 2021

13/01/2021

2020 foi difícil, por muitas razões. Ainda que não a mais importante, claro, a dificuldade de fazer previsões econômicas foi uma delas.

No começo havia um otimismo cauteloso, fruto da reforma da previdência, da queda dos juros, do orçamento dentro do teto de gastos e da expectativa de mais avanços na agenda de reformas. Quando a pandemia chegou, em meados de março, se subestimou seu impacto, esperança que logo deu lugar a grande pessimismo quanto ao PIB. Esse foi depois amenizado pelos fortes estímulos fiscais, que por sua vez geraram renovadas preocupações com a dinâmica da dívida pública.

O ano fecha com os analistas escaldados com tantas idas e vindas, em um ambiente em que a saúde pública segue sendo o principal determinante de para onde vai a economia. Isso talvez explique as previsões algo pessimistas para a atividade econômica que se veem para 2021.

De acordo com o boletim Focus, do Banco Central (BC), a projeção mediana de mercado é que o PIB cresça 1,1% no último trimestre de 2020, com o ano fechando com queda de 4,4%. Para 2021, a expectativa é de alta de 3,5%. Parece um resultado bom, mas 2,8 pontos percentuais dessa alta refletem o carregamento estatístico: isto é, o fato de o PIB terminar 2020 bem acima da média do ano. Assim, a previsão é que, depois de alta de 1,8% no primeiro trimestre, o PIB cresça em média 0,4% ao trimestre no resto de 2021. O PIB fecharia 2021 menor que dois anos antes.

Por trás dessa dinâmica está o fim do Auxílio Emergencial, que em 2020 mitigou a queda do consumo das famílias, que ainda assim deve cair 6%. Creio, porém, que essas previsões subestimam o impacto expansionista da vacina. Esta deve levar a forte expansão do setor de serviços, a começar pela volta às aulas nas escolas públicas, puxando o emprego e a atividade no segundo semestre. Assim, não seria surpresa se o PIB crescesse perto de 5% em 2021.

Por outro lado, os analistas de mercado me parecem otimistas quanto à trajetória da inflação e da taxa Selic em 2021, quando estas variáveis devem gerar muito mais debate do que neste ano [o artigo foi publicado em 30/12].

A queda de 5% na atividade de serviços este ano [2020] fez com que os preços nesse setor subissem pouco em 2020 (cerca de 1,8%). A pandemia e as eleições também puxaram a inflação de preços administrados para baixo (cerca de 2,5% em 2020), com o adiamento de altas em itens como planos de saúde, mensalidades escolares, passagens de ônibus e combustíveis. Tudo isso mitigou o impacto inflacionário da desvalorização cambial e da alta no preços das commodities, em especial no primeiro semestre, quando o IPCA subiu 0,1%, contra elevação esperada de 4,3% na segunda metade do ano.

É fácil ver que no primeiro semestre de 2021 a inflação acumulada em 12 meses vai subir, conforme saiam da conta os números bem comportados do primeiro semestre deste ano [2020]. A previsão do Focus é que, nessa métrica, o IPCA suba em torno de 6% em meados de 2021, caindo depois para fechar o ano em 3,3%. Isso significaria sair de uma inflação média de 0,36% ao mês em 2020 para 0,27% ao mês em 2021, quando se espera alta bem mais forte de preços administrados e de serviços.

Me preocupa, nesse sentido, que a retomada nos serviços vai ganhar fôlego justo quando a inflação em 12 meses estiver girando em torno de 6%. Difícil o BC impedir,  apenas por meio de sua comunicação, que essa taxa, repetida por meses, não contamine as expectativas. Assim, acho que, ou a inflação de 2021 vai surpreender outra vez para cima, superando de novo a meta, ou o BC terá de começar a subir os juros antes de agosto de 2021, como preveem os analistas de mercado. E também que até o final do ano será preciso subir a Selic além do que projeta o mercado: 3,25%, contra 2,00% hoje.

2021 deve registrar resultados favoráveis nas contas externas, com um saldo comercial elevado e maior entrada de capitais estrangeiros. As contas públicas seguirão sendo motivo de preocupação, mas a tendência é de queda significativa no déficit primário e uma conta mais baixa de juros sobre a dívida pública. O real deve se valorizar um pouco, ficando a maior parte do ano abaixo dos R$ 5,25/US$ atuais. O mercado de trabalho seguirá mal, mas com uma melhora importante na segunda metade do ano. Haverá pouco avanço na aprovação das reformas, com o debate político focando cada vez mais nas eleições de 2022.

Dito tudo isso, e mais importante, espero que a vacina nos livre da Covid e permita a todos, em 2021, um ano bem feliz!

Este artigo foi publicado originalmente pelo Correio Braziliense em 30/12/2020.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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