A estratégia minoritária de Bolsonaro

25/09/2019

Passados quase nove meses desde a posse de Bolsonaro, não há mais dúvida a respeito da estratégia minoritária de governo implementada pelo presidente. São duas suas dimensões fundamentais: a decisão de não formar uma maioria legislativa estável, conquanto não se dispensem maiorias ocasionais e, agora, se tente formar uma base de aliados fiéis; e um modo de comunicação com a população que apela, quase que exclusivamente, a nichos específicos do eleitorado e, enfaticamente, exclui outros.

A primeira dimensão não é uma novidade. Jânio Quadros e Fernando Collor também não tentaram forjar maiorias no Congresso. Porém, ainda que tenham frequentemente se dirigido a determinadas categorias da sociedade – como, aliás, todo presidente faz –, procuraram sempre cortejar o apoio majoritário da opinião pública. A segunda dimensão, portanto, é o traço distintivo do atual governo, sobretudo em relação aos seus predecessores empossados a partir de 1985. Destaque-se que esse traço não se resume apenas à exaltação de pessoas “terrivelmente” evangélicas e ao elogio às que portam armas, mas também ao escárnio explícito dos que passam a perder recursos públicos ou meios de amparo legal dependentes da vontade da União. Só para dar alguns exemplos: mulheres, governadores nordestinos, ambientalistas, professores e estudantes de universidades federais, minorias sexuais e jornais. Cabe aqui registrar que as mulheres são a maioria do eleitorado. Além disso, as pesquisas de opinião mostram que a maioria da população e mesmo eleitores de Bolsonaro não apoiam as grotescas falas deste contra aqueles setores. Eis uma evidência eloquente da estratégia minoritária.

Sob as administrações passadas, governadores de oposição foram frequentemente punidos pelo Executivo federal por meio do não recebimento de transferências orçamentárias da União fartamente distribuídas a aliados. Todavia, a humilhação pública daqueles governadores era evitada pela retórica presidencial. Isso mudou sob Bolsonaro. O atual inquilino do Palácio do Planalto é mestre em adicionar insulto à injúria. Com isso, tenciona manter mobilizada uma base de apoiadores radicais que ficará com seu líder até o fim, independentemente do seu desempenho como chefe de Estado.

Bolsonaro espera ser reeleito em 2022 assentado em sua estratégia minoritária. Como? Almeja apenas ter votos suficientes para chegar ao segundo turno e empalmar um novo mandato a partir de uma campanha radicalmente negativa contra seu adversário. Simples assim. Trata-se também de um plano perfeitamente coerente com a personalidade belicosa do presidente. A seguir, discutem-se suas condições de êxito ou fracasso.

A primeira condição diz respeito a se Bolsonaro conseguirá sobreviver no cargo até 2022. Como essa discussão consumiria muito espaço, vamos deixá-la para outra oportunidade. Caso Bolsonaro logre se recandidatar em 2022, uma condição importante para seu sucesso tem a ver com a alta fragmentação do sistema partidário, o que significa a proliferação de candidatos presidenciais. É plausível supor que haverá fusões de partidos nos próximos dois anos, o que reduzirá a fragmentação. Porém, jamais a ponto de passarmos a ter um sistema partidário moderadamente fragmentado ou que venha a produzir um número pequeno de presidenciáveis. Portanto, em 2022, é provável que se veja um número relativamente alto de postulantes à chefia do governo federal, o que, por sua vez, favorecerá a dispersão de votos no primeiro turno e, consequentemente, o plano de Bolsonaro.

Os partidos de centro em oposição ao líder do PSL, entretanto, podem responder à alta fragmentação por meio da coordenação, isto é, através de amplas coligações eleitorais. Idealmente, todos os partidos de centro e de esquerda deveriam apoiar apenas um candidato para maximizar as chances de derrotar Bolsonaro. Entretanto, haverá certamente um candidato do PT apoiado por alguns partidos de esquerda. Vista de hoje, essa coordenação do centro com a esquerda está longe de acontecer, pois a esquerda continua muito dividida e desorientada. A ausência de autocrítica por parte do PT só reforça essa tendência. O centro começa a ensaiar possíveis alianças, mas estas só deverão se consolidar após as eleições municipais de 2020. De qualquer modo, a escassa coordenação entre os partidos opositores facilitará a reeleição do atual presidente.

Obviamente, a retomada do crescimento econômico será boa para Bolsonaro, mas faz sentido supor que seu plano de vitória em 2022 já tenha embutido um desempenho econômico medíocre. Daí a importância vital de manter mobilizados e satisfeitos os eleitores de extrema direita e de uma campanha muito agressiva no segundo turno em 2022. Se seu concorrente for um candidato de esquerda com um discurso radical, Bolsonaro muito provavelmente vencerá; se for um candidato de centro, o resultado dependerá de como agirá o eleitor centrista, assunto que se aborda no último parágrafo deste artigo.

Se Donald Trump não for reeleito em novembro de 2020, isso será ruim para os planos de Bolsonaro por quatro razões. Primeira, a derrota de Trump sinalizará que a onda de populismo de extrema direita, que tem percorrido o globo, terá perdido sua principal fonte de impulso. Segunda, Bolsonaro tem se associado excessivamente a Trump, a ponto de seu filho Eduardo Bolsonaro já ter apoiado publicamente a reeleição do líder republicano. Ou seja, a derrota de Trump será lida – no Brasil e no mundo – como uma derrota do presidente brasileiro. Terceira, sem Trump na Casa Branca, Bolsonaro perderá a principal bandeira de política externa que empunhou em 2018 e, em 2022, terá que responder a muitas críticas decorrentes do fracasso eleitoral do seu grande aliado americano. Por último, sem Trump na Casa Branca, o Brasil ficará isolado em Washington e na Europa, transformando Bolsonaro num oneroso passivo aos olhos de importantes setores das elites nacionais. Inversamente, se Trump for reeleito, Bolsonaro ganhará fôlego eleitoral.

A última condição relevante tem a ver com o esforço de Bolsonaro de deprimir o eleitor de centro, esforço que emula o comportamento de outros líderes populistas extremistas. A frequente tomada de posições radicais e o recurso a um linguajar grosseiro tem, como um dos principais objetivos, hostilizar o eleitor centrista. Teoricamente, isso pode acarretar dois cenários opostos: ou o eleitor de centro se afasta da política ou se indigna e se engaja a favor de um candidato do seu campo ideológico. Nos últimos meses, Trump tem agredido muito esse eleitor, sendo isso componente fundamental de sua estratégia eleitoral para o pleito de 2020. Na Venezuela bolivariana, Chávez e Maduro tiveram pleno êxito na depressão dos centristas. Porém, tanto nos EUA como na Venezuela, o sucesso dessa tática está intimamente ligado ao voto facultativo. Já no Brasil, o voto é obrigatório. Ou seja, em outubro de 2022, os centristas terão que votar. Portanto, a combinação de agressão permanente às sensibilidades do eleitor centrista com voto obrigatório não favorece a reeleição de Bolsonaro, pois é justamente este eleitor quem decidirá a eleição. Esse aspecto institucional tem passado despercebido pelos analistas políticos. Aos ideólogos do bolsonarismo, cabe sempre lembrar que o Brasil não é a Venezuela nem os EUA...

Este artigo faz parte do Boletim Macro IBRE de setembro de 2019. Leia aqui a versão integral do BMI Setembro/19. 

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV. 

 

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